:: institucional           :: projetos           :: serviços           :: sala de imprensa          :: parcerias          :: loja          :: contato     

CANAIS WOOZ

artigos
agenda cultural
artes visuais
cultura
cinema
dança
entrevistas
fotografia
internet
literatura
música
teatro
terceiro setor


Roseli Pereira
Valmir Junior



clique aqui e faça um cadastro para receber informações Wooz
     ROSELI PEREIRA

Gentileza demais cansa

Por
Roseli Pereira*

Se você tende a discordar do que eu digo porque acha que gentileza nunca é demais, lembre-se daquela senhora, provavelmente mãe de algum amigo de infância, que não apenas insistia para que você comesse mais um pouquinho, como também enchia o seu prato com um montão de mais um pouquinhos, a despeito dos seus protestos. Ou daquele garçom que a cada 3 minutos vem à sua mesa perguntar se está tudo bem, sem se dar conta de que está interrompendo a conversa. Ou daquela vendedora que se apresenta, pergunta o seu nome e vai seguindo você pela loja na maior intimidade, mostrando tudo o que está em promoção e dizendo o quanto cada ítem vai facilitar a sua vida.

Sim, o mundo está cheio de chatos e isso todos estamos cansados de saber. Difícil é assumir que quase metade dessa chatice toda está com raízes bem fincadas na gentileza e na boa vontade. E aí vem a pior parte: se escapar de um chato simples já é tarefa complicada, escapar de um chato gentil e bem intencionado chega a ser impossível. Ou você responderia mal para a mãe daquele seu amigo?

Vira e mexe, sou atendida por um motorista de táxi que nem sabe qual é a minha profissão, mas faz questão de me chamar de doutora e de passar cerca de 15 quilômetros dizendo o quanto eu sou batalhadora e me perguntando o que é que eu, na qualidade de mulher de negócios experiente e preparada, penso sobre determinado assunto. Bem, a saída que encontrei foi dizer que estou muito cansada e pedir licença para cochilar um pouco durante o trajeto. Funcionou duas ou três vezes. Até o dia em que entrei no carro, abri a boca e o homem já foi interrompendo: "Eu sei que a doutora teve um dia difícil, então vou colocar música para a senhora relaxar, pois não?". Eu sabia que, de alguma forma, viria bomba. Pois veio. Daquele dia em diante, independentemente do mês em que estejamos, sempre que ele é o primeiro da fila eu sou obrigada a ir para casa ouvindo a mesma fita de Natal. Enfim, antes isso do que ser surda.

"Antes isso do que ter que agüentar a mais completa falta de cortesia", muitos dirão. E aí eu fico tentando imaginar qual seriam os limites da cortesia. Não consegui, até hoje, chegar a uma conclusão satisfatória. Mas tenho certeza de que a linha que separa a gentileza da falta de gentileza é tão tênue quanto aquelas que separam o chique do brega, o educado do mal educado, o gentil do chato de galocha (ou sem galocha).

"Como foi sua cirurgia?", por exemplo, é uma pergunta educada. Mas se ela vier acompanhada por um "E você pretende diminuir a barriga, também?" pronto: já virou falta de educação. Sim, é preciso saber que, muitas vezes, a boa educação demanda um pouco de falta de memória. Sobre isso, o embaixador norte-americano Kenneth Keating disse, uma vez, que diplomacia é lembrar a data de aniversário de uma mulher, mas esquecer a idade dela.

De uns tempos pra cá, para evitar o trânsito infernal e um conseqüente rombo na carteira, voltei a tomar ônibus de casa para o escritório e do escritório para casa. Foi aí que descobri que o excesso de gentileza pode ser, também, um importante fator de stress. Vamos aos fatos: um dos pontos que uso habitualmente fica perto de uma curva, e o outro fica perto de uma esquina. Muitas e muitas vezes, os ônibus fazem a curva (ou viram a esquina) e o que eu vejo estampado no letreiro é aquele "Bom dia!" (ou "Boa tarde!", ou "Boa noite!") que se alterna com o nome e o número da linha. Só que a gentileza do ônibus em me cumprimentar é tamanha que, muitas vezes, nem dá tempo de descobrir se era o meu ou não.

Minhas duas avós já diziam que de boas intenções o inferno está cheio. E eu completo dizendo que a minha paciência também. E, por mais que eu deteste este bordão, aqui ele cai como uma luva: ninguém merece.




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.