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Roseli Pereira
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     ROSELI PEREIRA

Durma com um barulho desses

Por
Roseli Pereira*

"Atenção: este veículo está sendo roubado e é monitorado pela Empresa Tal. Por favor, ligue para zero oitocentos e blablabla. Obrigado. Uó, uó, uó, uó. Atenção: este veículo está sendo roubado e é monitorado pela empresa Tal. Por favor, ligue para zero oitocentos e blablabla. Obrigado. Uó, uó, uó, uó. Atenção: este veículo está... "

Quando o som ininterrupto do alarme invadiu o meu quarto às dez para as onze da noite de uma quarta-feira, fui até a janela para identificar de onde ele vinha. Descobri, por razões bastante óbvias, que só poderia ser da rua de trás.

Moro num bairro cheio de curvas e terrenos irregulares. O da minha casa é bem comprido e estreito, o que sempre me deu a impressão de viver dentro de um trem. Como o meu quarto é o último vagão, fica muito mais perto da rua de trás do que da minha própria rua. Pela intensidade do som, ele só poderia estar vindo de lá.

Certa de que o alarme havia disparado por qualquer motivo, menos roubo, fechei o vidro e aumentei o volume da TV, considerando que aquele estardalhaço todo até que era uma boa idéia. Não há bandido que agüente. Mas depois de dez minutos com o quarto esquentando e os personagens do filme berrando, eu ainda podia ouvir claramente o "...Uó, uó, uó, uó. Atenção: este veículo está sendo roubado e é monitorado pela empresa Tal. Por favor, ligue para...". Não tive dúvidas: peguei o telefone, digitei zero oitocentos e blablabla e descobri que a empresa de monitoramento não pode mover uma palha, sequer, sem saber qual é a chapa do veículo que, até prova em contrário, estaria sendo roubado, uó uó, uó e coisa e tal.

Trinta minutos mais tarde, comecei a ficar inquieta. Nos últimos dias eu tinha trabalhado até quase de manhã e precisava dormir. Revisei na memória aquele trecho que fica bem atrás da minha casa: tem uma escolinha de arte, um salão de barbeiro, uma confecção, um restaurante por quilo, uma marcenaria, uma oficina, uma vidraçaria, do outro lado da rua tem uma praça... nenhuma residência. Caramba, nenhuma residência! Ninguénzinho para ouvir o som mais alto do que eu. E nem igual, já que os quartos de todos os meus vizinhos de rua ficam lá na frente.

Esperei que um milagre acontecesse nos 10 minutos seguintes mas, diante das circunstâncias, eu já sabia que teria que fazer esse favorzinho para eles. Troquei o pijama por uma roupa e lá fui eu, quase meia noite, contornando o enorme quarteirão munida de caneta e papel. Nada de carro no meio da rua e quase nada de barulho. Para ter certeza de que o alarme vinha da oficina, praticamente encostei a orelha na porta. Sim: o carro estava lá dentro e bem no fundo. A poucos metros do meu quintal. E do meu ouvido, diga-se de passagem. Por um momento fiquei olhando para a fachada, sem saber o que fazer: na placa, o número do telefone. Bobagem, já que não tinha ninguém lá dentro. Mas, de repente, vislumbrei a única solução possível numa plaquinha de metal bem pequena: o telefone da empresa que dá segurança à oficina.

Não tive pudor em ligar. É claro que uma empresa de segurança sabe como entrar em contato com os seus clientes, a qualquer hora do dia ou da noite. Expliquei o problema à solícita atendente. Ela própria ouviu, pelo telefone, a intensidade do alarme falso que ecoava dentro do meu quarto. Dei o endereço à moça e pedi, ou melhor, implorei, que ela entrasse em contato com alguém que pudesse resolver a questão. Depois disso, sosseguei.

Uma hora da madrugada, continuávamos nós: "...roubado e é monitorado pela Empresa Tal. Por favor, ligue para zero oitocentos e blablabla. Obrigado...". Bem, antes de telefonar para o cliente, a empresa de segurança deve ter pedido ao pessoal que faz a ronda para confirmar o problema e isso leva algum tempo. Compreensível. Vinte para as duas da madrugada. "...Por favor, ligue para zero oitocentos e blablabla. Obrigado. Uó, uó, uó, uó. Atenção...". Bem, quase todo mundo que tem empresas por aqui mora no bairro, mas quem sabe o dono dessa oficina more longe? Vai saber. Duas e quinze da madrugada. "...e é monitorado pela Empresa Tal. Por favor, ligue..." Vou chamar a polícia. Mas, pensando bem, o é que a polícia poderia fazer para resolver este caso? Gritar pelo megafone para o alarme calar a boca? Dez para as três da madrugada. "... zero oitocentos e blablabla. Obrigado. Uó, uó, uó, uó. Atenção: este veículo está...". E essa droga de bateria? Não acaba?

Bem, justiça seja feita: essa bateria e a mãe dela podem ser tudo nesta vida, menos uma droga. Afinal, ela só foi dar os primeiros sinais de cansaço lá pelas três e meia da madrugada, depois de quase cinco horas de gritaria. E foi só quando o volume do uó uó uó baixou um pouco que eu consegui desmaiar.

Sei que jamais vou descobrir se foi a solícita atendente que se fez de surda, se foi a empresa de segurança que resolveu não se meter ou se foi o dono da oficina que não deu a menor bola para a torcida. Mas, seja como for, pela primeira vez fui obrigada a reclamar da boa qualidade de um produto e ainda desejar ardentemente que ele fosse bem pior. Durma com um barulho desses.




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.