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Roseli Pereira
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     ROSELI PEREIRA

Livrai-me do mal, amém

Por
Roseli Pereira*

Pela vigésima vez entro numa loja e digo clara e pausadamente: "eu procuro uma camisa preta de viscose, com mangas compridas e tamanho G. Vocês têm?" E a moça, com aquele ar inteligente de quem entendeu tudo direitinho, responde clara e pausadamente, também: "sim, senhora, um instantinho só".

E um instantinho só vira dois, três, cinqüenta e sete instantinhos só e eu lá, feliz da vida por ter encontrado - finalmente - a tal da camisa. Lá pelo septuagésimo oitavo instantinho só, a moça volta trazendo alguma coisa nas mãos. E, toda animada, me mostra a coisa: "olha aqui! é de seda pura!" E abre na minha frente uma blusinha cor de violeta, mangas curtas e tamanho M. Tento sorrir amavelmente pela vigésima vez: "acho que houve um engano, porque eu pedi uma camisa preta de viscose, mangas compridas e tamanho G. Tem ou não tem, afinal?" E ela me olha como se eu fosse completamente louca: "mas esta aqui está vendendo muito!"

Sentindo o sangue subir à cabeça, só me resta sorrir com sarcasmo: "que pena! quer dizer que quando eu sair com ela vou encontrar uma porção de gente vestida igual? detesto isso, moça, e obrigada".

Eu juro que sempre que vou fazer compras procuro manter a calma e as boas maneiras. Mas nas dezenove tentativas anteriores já tinham tentado me empurrar de tudo, ao invés de uma simples e muito bem explicada camisa preta de viscose, com mangas compridas e tamanho G. Esperei centenas, talvez milhares de "um instantinho só" para ser bombardeada com camisetas de nylon azuis tamanho P, saias de linho vermelho tamanho GG, calças de cotton lycra amarelas tamanho único, biquinis floridos sem tamanho nenhum e todo tipo de camisa. Menos uminha só que fosse preta ou feita de viscose ou com mangas compridas ou no tamanho G.

Será que está na moda aborrecer a clientela?

Vou andando entre chateada e indignada pelo shopping quando noto, numa vitrine, um par de tênis com a carinha da minha sobrinha. Imediatamente ligo para a mãe dela pra perguntar o número. E descubro que é vinte. Desligo e cumprimento a atendente que, toda solícita, já se postara do meu lado no início do telefonema: "por favor, eu quero levar estes tênizinhos aqui. Número vinte". A moça abre um largo sorriso: "pois não, é só um instantinho, senhora!"

Quarenta e três instantinhos mais tarde ela volta. Tinha mandado alguém ao estoque, logo ali, no piso superior. "Só mais um instantinho". E em só mais uns oitenta e dois instantinhos, a moça reaparece na minha frente com os tênis na mão: "aqui estão, senhora, tamanho dezesseis, lindinhos, né?"

"Como dezesseis? Eu preciso do vinte!" E aí ela dá início àquela conversinha cretina de sempre: "mas senhora, este modelo só é fabricado até o número dezesseis. Qual é a idade da nenén?"

Oras bolas! Que diferença a "idade da nenén" pode fazer, se a mãe dela acabou de me dizer que o número é vinte? Respiro fundo para conter a fumaça quente e cinzenta que ameaça sair pelos meus olhos e orelhas: "desculpe-me, mas como reduzir os pés da minha sobrinha está além do meu desejo e da minha capacidade, agradeço por sua atenção e gentileza mas não vou levar". E ela prega uma expressão de espanto e revolta no rosto. E depois a louca sou eu.

Senhor, por que é que essas coisas sempre acontecem comigo? E não são só essas, Senhor! Vira e mexe, quando peço um produto, os atendentes me respondem que "tem mas acabou" ou que "não vão estar tendo". E pior, Senhor: eles nunca sabem me informar a partir de quando não vão estar tendo.

E tem mais: toda vez que entro numa loja, ainda que seja num grande magazine, do tipo pegue e pague, alguém gruda no meu calcanhar e insiste em me "dar uma ajuda". E mesmo que eu diga que só estou olhando, Senhor, sempre insistem em me perguntar se estou "procurando algo especial". E quando agradeço dizendo que não, Senhor, completam perguntando se "é para a senhora ou é para presente". Como se isso mudasse alguma coisa. Como se alguém tivesse o poder de me convencer de que eu preciso de uma minissaia verde ao invés de uma camisa preta. Ou de um par de sapatos menor ou maior que os meus pés. Ou de que o meu pai "vai adorar esse cachimbo" só porque "está saindo muito".

Meu pai nem fuma, Senhor. E, além do mais, isso lá é argumento de venda?

Senhor, o que mais me tira do sério é que eles nunca me ouvem! Parece que estão em transe. Ou que decoraram um script e não conseguem sair dele, seja qual for o meu pedido ou a minha resposta.

É por isso, Senhor, que venho à sua presença implorar humildemente: livrai-me dos vendedores irritantes. Ou fazei, pelo menos, com que eu fique muito mais burra e não perca, assim tão facilmente, a minha preciosa e já escassa paciência




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.