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Roseli Pereira
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     ROSELI PEREIRA

Cara de uma, focinho da outra

Por
Roseli Pereira*

Conheço um sujeito que é a cara do Garfield. Não, ele não é um gato listrado, não é gordo e nem tem um dono chamado Jon. Aliás, ele nem tem dono. Mas é a cara do Garfield. Principalmente nas segundas-feiras de manhã ou diante de uma bela lasanha.

Também tenho uma sobrinha de quase dois anos que é a própria Margarida. A voz grossa para a idade soa como se fosse a voz de uma patinha. E a figura se completa com aquele andar rapidinho nas pontas dos pés, balançando o bundão de fralda descartável.

Mas sósias, sósias mesmo, pessoas iguaizinhas de fato, conheci bem poucas na vida. E na maior parte eram gêmeos univitelinos. Daqueles que, quando cai um dentinho de um, você logo pensa: "Ôba! agora vou ter como identificar esses dois!". Mas no dia seguinte cai o mesmo dentinho do outro e babáu outra vez.

O Renato e o Ricardo eram assim. Duas pestinhas de uns onze anos de idade, idênticas até no formato das sardas. E olha que eram muitas. Um aprontava, o outro levava os safanões. Ou - no mínimo - a fama. Mas como eles aprontavam por igual, o castigo sempre acabava bem distribuído.

Um dia o Ricardo apareceu com o braço direito engessado. Um tombo e uma fratura, quem diria, iriam me ajudar a chamar as pestinhas pelo nome correto por pelo menos uns quarenta dias. Mas, no meio da semana seguinte, quando cumprimentei o Ricardo pelo nome com todo orgulho e segurança, ele fez a mesma cara feia que os dois costumavam destinar a quem lhes errasse o nome. É que a peste era o Renato, que sofrera um tombo e uma fratura muito iguais. E vai entender…

Depois eles cresceram e ficaram só parecidos. Assim como quase todos os gêmeos idênticos que eu conheci. O estilo, o modo de viver e sobretudo as experiências dão um toque único às pessoas. Ou, como diriam minhas avós, a vida muda a gente. O que, aliás, tenho certeza de que vai acontecer com os clones humanos, se é que os clones humanos vão mesmo acontecer.

Agora, sobre o fenômeno dos sósias, aqueles que são iguaizinhos mesmo com uma carga genética completamente diferente e milhares de quilômetros os separando, eu só consigo explicar como uma brincadeirinha da natureza. Às vezes muito bem-humorada, às vezes de extremo mau-gosto. Mas isso só se aplica se um dos sósias ficar famoso ou estiver geograficamente muito perto do outro. Porque, se ninguém descobrir o fato, é como não ter sósia nenhum. Ou melhor: é mais ou menos como ter um homônimo que paga as contas direitinho. Ele não se mete na sua vida e você o ignora.

Mas se um dos sósias ficar famoso por qualquer motivo que seja, aí pode ser o céu ou o inferno para o outro. Pelo menos até todo mundo se acostumar. E mais cedo ou mais tarde, acredite, todo mundo se acostuma.

Foi graças a isso que a Sharon Stone teve uma estadia tão tranqüila no Brasil. É que, por onde quer que ela passasse, todo mundo pensava que era eu.




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.