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Roseli Pereira
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     ROSELI PEREIRA

Adulto sofre

Por
Roseli Pereira*

Vou andar, vou comer, vou beber, vou brincar, vou nadar, vou dormir, vou ir. E vai explicar, prum bichinho que está aprendendo a falar agora, que não é bem assim. E vai explicar pra esse mesmo bichinho que, em bom português, ninguém sobe pra cima e nem desce pra baixo, embora seja exatamente isso o que a gente faz.

Sou a mais velha entre três irmãos e onze primos. Quando a maior parte deles nasceu, eu já tinha aprendido muita gramática na vida (é claro que depois desaprendi). Por essas e por outras, já passei poucas e boas com a lógica infantil.

Agora chegou a vez dos sobrinhos. Sou a feliz proprietária de três. Um que já fala grosso e me chama pelo nome, outra que arrisca um agudíssimo tití e o pequenininho de tudo, que por enquanto só olha. Só olha rindo muito, mas sem entender nada. Ou, quem sabe, se fazendo de desentendido (porque se eu conheço essa família, é bem capaz).

E já falta bem pouco pra começar tudo outra vez. "Tití, a gente vâmo í?" "Não, querida: a gente vai." "Se a gente vai, por que que você falou não quelida?" E vai explicar pra esse bichinho que a gente não vamos, mesmo que a gente vá, e sempre vá em mais de um…

Ou então: "Tití, é eu." "Não é eu, menina: sou eu." "Num tô falando de você, tití: é de eu." "Querida, quando você falar de você, tem que dizer estou falando de mim." E como ela ainda não sabe ler o diálogo, e mesmo que soubesse não entenderia o sentido do texto em itálico, continua: "Cê num intendeu, tití. Você tá falando de você, eu tô falando de eu." E vai explicar pra esse bichinho quem é que tá falando de quem.

Lógica infantil é tão lógica que chega a ser absurda. Primeiro porque a gente tem que reconhecer que é lógica. Depois, porque o lado infantil da questão ainda não está preparado (nem física e nem emocionalmente) para ouvir e entender palavrões como concordância, conjugação verbal, locução adverbial, pleonasmo, gerúndio e todos aqueles outros mais.

"Tití, nós num vai?" "Não, querida, nós vamos." "Mas outro dia você falou que a gente não vamos e a gente foi." "É verdade, querida: a gente sempre vai." "Intão por que você falou não quelida?" "Presta atenção: a gente vai, nós vamos." "Ôba! A gente vamos duas vezes?" "Não, a gente vai uma vez só. Repete o que a titia falou: a gente vai, nós vamos." "Por que?" "Porque senão o Papai Noel não vai trazer o brinquedo que você pediu, lembra?"

É, eu sei que isso é muito feio. Mas existem momentos na vida de um adulto em que não há outra saída a não ser apelar.




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.