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Roseli Pereira
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     ROSELI PEREIRA

A Primeira Diretriz

Por
Roseli Pereira*

Não sei se você já sabe: eu sou a fã nº 2 de Jornada nas Estrelas, a Nova Geração. Só não sou a nº 1 porque não consigo entender o que é antimatéria, não tenho a miniatura da nave e nem uso o uniforme da Frota Estelar para ir beber com os amigos.

Você pode ser, digamos, o fã nº 142.537. Ou talvez nem goste da série. Mas convenhamos que ela já tá bem antiguinha pra todo mundo saber que a missão da Enterprise é "conhecer novos mundos e pesquisar novas vidas, novas civilizações: audaciosamente indo onde ninguém jamais esteve".

Bem, na qualidade de fã nº 2, confesso que também tenho o costume de observar outras formas de vida. E que tenho encontrado algumas muitíssimo interessantes, mesmo sem tirar os pés da Terra.

Ahá! Você está pensando que eu vou falar em insetos exóticos, aves raras, animais em extinção ou, quem sabe, naquelas colônias de bactérias que adoram infernizar nossas gargantas, né? Nananina: eu vou falar de gente muitíssimo parecida com a gente. Que vive entre a gente. Que poderia até mesmo ser a gente, a não ser por uns detalhezinhos assim, digamos, meio esquisitos.

Agora você está pensando que eu vou falar de alienígenas, né? Daqueles que se misturam com os terráqueos com o objetivo de dominar o planeta, né? Pois errou de novo, porque isso é da série Os Invasores (se você não conhece essa, não se preocupe: provavelmente não tem idade pra tanto).

Mas, qualquer que seja a sua idade, você certamente já viu (e ouviu muitíssimo bem) alguns exemplares de uma espécie que surgiu há alguns anos e tem se multiplicado de forma assustadora: os "performáticos do celular".

O performático do celular clássico pode ser encontrado em todo e qualquer lugar. Mesmo nos mais improváveis e impróprios como teatros, cinemas, banheiros de shopping, filas de banco e ao volante de automóveis em movimento. E você pode identificá-lo facilmente pelo show que ele dá ao telefone sempre que tem gente estranha ouvindo a conversa (e, cá entre nós, os "performáticos do celular" são verdadeiros especialistas em garantir a maior platéia possível).

Como acontece em todo espetáculo, a função começa ao terceiro sinal. É quando ele atende e você passa a ouvir, mesmo que esteja bem distante, o alô e a vida inteira do sujeito. Incluindo os detalhezinhos mais sórdidos.

E, para que ninguém corra o risco de perder nadica, o performático do celular que se preza já desenvolveu a técnica de caminhar enquanto berra. E, normalmente, caminha em círculos ou de lá pra cá. Pode reparar.

Mas, quando não tem muita gente estranha por perto, pode ir se conformando que a vítima será você. Sem dó nem piedade.

Eu mesma já fui vítima de narrativas incríveis. Desde a do jovem que ligou para o amigo só para "avisar" que na noite anterior deu "uns beijos" na menina "que fica" com ele, até a da sicrana que descreveu para alguém o resultado completo do seu Papanicolau, incluindo nomes de fungos e bactérias. O jovem estava num café. O que não seria nada estranho, se não fosse pelo fato de que era ele quem servia o café. A sicrana, por incrível que pareça, estava na fila do açougue.

Às vezes, os performáticos do celular fazem suas performances em outras línguas. Sorte de quem não fala a tal língua, porque pelo menos não fica exposto a tanta intimidade. Por outro lado (talvez você já tenha reparado), quando o show é em outra língua eles conseguem falar ainda mais alto, sabe-se lá o por que.

E também tem aquele outro aparelho que parece um celular, mas tem função de walk talk. Esse é completo: você ouve quem está perto e quem está do outro lado. Dia desses, num restaurante, mal consegui bater papo porque, bem ao meu lado, tinha um rapaz de Curitiba relatando suas paqueras em São Paulo para um animadíssimo interlocutor que não conhecia a cidade. Os dois falando no último volume, é claro.

Às vezes tenho que me segurar pra não fazer um sonoro "psssssssssssiu".

Mas, como se sabe, em Jornada nas Estrelas existe uma regra muito séria, que é conhecida por Primeira Diretriz. E, segundo a Primeira Diretriz, é proibido, errado e até mesmo inaceitável interferir na evolução de qualquer forma de vida, por mais atrasada ou irritante que ela seja. E eu, na qualidade de fã nº 2 da série, sinto-me na obrigação de respeitar a Primeira Diretriz, assim como o capitão Jean Luc Picard o faria: ouço tudo, não me intrometo em nada e, assim que consigo, caio fora. Porque a própria natureza - um dia - vai fazer com que todas as espécies "cheguem lá". Se Deus quiser.




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.