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Roseli Pereira
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     ROSELI PEREIRA

Publicidade para leigos 4
O estilo e os lugares da moda


Por
Roseli Pereira*

Vimos, nos capítulos anteriores, que publicitários vivem de imaginação, que sua principal fonte de nutrientes é a pizza, que adoram faltar a festas, que praticam esportes radicais como "alongamento de prazos", "corrida à reunião com obstáculos" e "percursos de longa distância sem conhecer nada" e que, mais cedo ou mais tarde, acabam rindo muito de tudo isso.

Em resumo: vimos que publicitários são seres esquisitos paca, mas que pelo menos têm estilo. Sim, porque o próprio fato de fazer tudo isso aí com regularidade já caracteriza o estilo de vida de toda uma espécie.

E, como em qualquer outra espécie, os publicitários também reúnem os mais diferentes tipos. Quando eu comecei no setor, por exemplo, haviam três tipos básicos: os praticamente hippies (embora Woodstock já tivesse terminado há muito tempo), os praticamente de esquerda (que se diziam contra o consumo, mas todo mundo desconfiava que eles só eram contra o consumo de whisky nacional) e os praticamente normais.

Com a evolução da espécie, tipos foram surgindo e tipos foram sumindo, mas as pessoas continuaram sendo mais ou menos as mesmas. Foi assim que conviveram, na mais ampla harmonia, os praticamente góticos com os praticamente chiquérrimos, os praticamente punks com os praticamente new ages e os praticamente hard rockers com os malucos-beleza. Note que esses últimos não são praticamente, porque todo maluco-beleza é maluco-beleza por inteiro.

Depois vieram os praticamente news waves, os praticamente neo-clássicos, os praticamente yuppies, os praticamente saudosistas e os praticantes de yoga e de meditação transcedental. E me perdoem os colegas se, porventura, eu esqueci de alguma tendência ou tribo.

O fato é que, até hoje, temos um pouquinho disso tudo e mais os executivos, os mauricinhos, as patricinhas, os tecnocratas, os burocratas, os playboys de todas as idades, as senhoras recatadas, os essencialmente técnicos, os essencialmente filosóficos, os rebeldes, os políticamente corretos, os funkers, os sertanejos e os modernetes em geral. E eu não vou acrescentar "praticamente" em nenhum desses casos, porque só quando a fase acaba é que a gente fica sabendo se o pessoal era praticamente ou não. E também não me pergunte onde é que eu me encaixo, porque já repetí duzentas e cinqüenta vezes que só ligo o computador para falar sobre terceiros.

Como, então, identificar um publicitário na rua, diante dessa salada toda? Muito simples: basta verificar se a pessoa suspeita está portando uma pasta enorme de couro ou de papelão. Porque é sempre numa pasta enorme de couro ou de papelão que o publicitário transporta o seu trabalho. Da agência para o cliente e do cliente para a agência, às vezes passando pelo escritório de algum fornecedor, pela própria residência ou até mesmo pelos lugares da moda.

Sim, porque até hoje muitas reuniões começam, terminam ou acontecem inteiras nos lugares da moda. Mas só se for na hora do almoço ou no comecinho do happy hour. Porque a hora do jantar e o finzinho do happy hour não foram feitos para apresentar trabalhos: foram feitos pra fechar negócios.

Como, então, identificar os lugares da moda, se você não localizar pelo menos uma enorme pasta de couro ou de papelão lá dentro? Simples outra vez, prezado leitor: basta verificar se o local suspeito parece caro demais ou sofisticado demais ou transado demais para abrigar toda aquela biodiversidade humana que está desfilando lá dentro. Porque, em 99,98% das vezes, os publicitários desfilam, se divertem e esnobam como pessoas físicas, mas quem paga a conta é alguma pessoa jurídica. E aqueles 0,02% que porventura ficarem por conta deles serão tema de reclamação para o resto da vida. Afinal, freqüentar os lugares da moda sempre foi um sacrifício enorme que os publicitários só fazem porque amam demais o seu trabalho. Isso é o que eu chamo de gente esforçada!

Aguarde. A qualquer momento esta série voltará, em edição extraordinária.




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.