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     ROSELI PEREIRA

Receitinha para (quase) tudo
Por Roseli Pereira*

Tirar calo, afastar mau-olhado, espantar gente chata, evitar que chova, afugentar formigas, ficar de bem, descobrir sexo de bebê, ter parto normal, dominar marido bravo, melhorar de vida, amansar a sogra, curar bebedeira, parar soluço, sumir com terçol.

Se você não entendeu nada até este ponto da conversa, é porque não tem a menor idéia de quanta coisa útil a gente é capaz de aprender convivendo por mais de vinte anos com três senhorinhas um tanto quanto bruxas: uma bisavó de Botucatu, uma avó de Santa Cruz das Palmeiras e outra avó de algum lugar remoto no interior da Hungria.

Amolecer carne, encontrar objetos, chamar dinheiro, ter sono tranqüilo, parar soluço, afastar rival, atrair chuva, curar loucura mansa. Só não me ensinaram a arrumar marido porque tinham medo de que eu usasse a receita certa com o homem errado. E o resultado taí: eu sei até tirar quebranto, mas continuo solteira até hoje.

Afastar mau humor, melhorar a memória, secar verruga, ter boas idéias, fazer amigos, evitar os raios, atrair felicidade, progredir no trabalho, tirar cisco de olho. Bem que tentaram me ensinar a perder peso, mas naquele tempo eu era tão magrinha que nem prestei atenção. E o resultado taí: hoje eu sei até tirar cheiro de queimado da comida, mas continuo em plena fase de crescimento.

Espantar cobra, evitar maledicência, ter sonhos bons, encontrar pessoas, fazer o cabelo crescer, receber velhas dívidas, evitar bicho de pé e curar espinhela caída, seja lá o que isso queira dizer. Mais de vinte anos de aprendizado, e nada capaz de amansar vírus de computador. Nenhum remedinho pra afastar telemarketing. Nadica de nada que acabe com congestionamento no trânsito ou com queda de sistema bem quando chega a sua vez na fila do banco.

Já virei vassoura atrás do hd, já fiz cruz de arruda no telefone, já botei nome de rua em pote de mel e até passei dente de alho em caixa eletrônico. Só não pendurei santinho de ponta-cabeça no poço porque na minha casa não tem mais poço. Mas acho que também não resolveria, porque nem existe santinho certo para esse tipo de coisa.

Se pelo menos fosse cobreiro, eu não entraria em crise existencial. Se fosse olho grande não haveria stress. Se fosse língua solta não teria problema. Mas o que é que pode toda a velha simpatia do mundo contra os males da vida moderna? Até onde a minha mística visão alcança, nada. E o resultado taí, pra todo mundo ver.




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.