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Roseli Pereira
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     ROSELI PEREIRA

Publicidade para leigos 3
Gente bonita, carrões e viagens fantásticas


Por
Roseli Pereira*

Vimos, nos capítulos anteriores, que publicitários são de uma espécie meio doidinha que se alimenta principalmente de pizza e que, quando chega à maturidade profissional, adquire o estranho hábito de trocar festas maravilhosas por uma boa noite de sono.

Em compensação, os publicitários vivem rodeados de carrões e de gente bonita. Isso sem falar nas situações interessantes e nas viagens fantásticas. Coisas que, eu diria, não se vêem facilmente na vida real.

Mas quem foi que disse que tudo isso faz parte da vida real, heim? Sim, porque em publicidade quase todos carrões são parte de algum cenário, quase toda aquela gente bonita é parte de algum elenco e quase todas as situações interessantes são parte de algum roteiro.

Bem, pelo menos os roteiros são do publicitário, mesmo. Tá bom, tá bom: são do publicitário com dois ou três palpites do diretor de marketing do cliente. Ou do atendimento. Ou do diretor do filme. Ou do fotógrafo. Ou do produtor. Ou do dono da agência. Ou do pessoal da pesquisa. Ou de todos eles juntos. Mas, afinal, toda essa gente também é - ou se sente - publicitária da gema. E quem não é e nem se sente, ou não passa de um intrometido (que você manda ficar quietinho e pronto) ou está pagando a conta (e manda você ficar quietinho e pronto).

E, além disso tudo, têm também as viagens. Que são verdadeiramente fantásticas e inesquecíveis.

A maior parte das viagens que um publicitário faz tem saídas da agência entre as oito da manhã e as cinco da tarde, com destino a algum lugar de difícil acesso no cinturão industrial da cidade. Ou aos grandes centros empresariais, mas só se for no auge da hora do rush.

E como aquela maldita impressora sempre dá pau na última hora, o publicitário acaba se atrasando e tem que botar a culpa no pneu. Ou num caminhão quebrado. Ou no descarrilamento de algum trem de carga em Ituiutaba. E nas poucas vezes em que a maldita impressora se comporta direito, é provável que o publicitário se distraia por um instante e erre o caminho. E aí ele se vê completamente perdido na periferia de São Miguel Paulista, por exemplo, bem na horinha em que deveria estar numa reunião de diretoria no centro de Guarulhos. Mas a vida é mesmo assim.

De qualquer forma, o publicitário sempre se lembra muito mais da menor parte das viagens que faz. Até porque ele pertence a uma das raríssimas espécies que são capazes de passar dias e dias num lugar de praias paradisíacas, sem conseguir botar nem o nariz pra fora de uma fábrica ou escritório.

Eu mesma já passei um mês inteirinho trabalhando em Florianópolis. Todo dia era um sol de rachar e aquele marzão azul bem na frente da janela. Mas só os dias de semana, obviamente. Porque nos meus cinco finais de semana em Floripa choveu. E quando não estava chovendo, o céu ficava muito nublado. E eu acabei perdendo todo o bronzeado que tinha levado de São Paulo, Capital. Imagina.

Noutra ocasião, passei cinco dias em Blumenau mas só tive meia horinha pra ver a cidade. Isso porque perdi o primeiro ônibus que leva os passageiros pro aeroporto, em Navegantes.

Também passei lindos dias em Caxias do Sul. Pegava o vôo das 6h30 daqui pra lá e o das 17h de lá pra cá. Eu adoraria conhecer a cidade, mas nunca deu. Bem, pelo menos consegui descer a serra gaúcha. Uma única vez. Foi num final de tarde sem teto, em que o meu vôo foi transferido. Naturalmente eu dormi durante o trajeto inteiro, porque naquele dia tinha eu levantado às 4h da manhã. Mas, em compensação, estive em Porto Alegre, conheci uma sala de embarque inteirinha e até andei pela pista do aeroporto. Não é o máximo?

Bem, eu reclamo, reclamo, mas sei que os meus casos não são lá dos piores. Imagine você que existem milhares de publicitários do mundo inteiro que têm que se reunir em Cannes uma vez por ano, só pra passar dezoito horas por dia dentro de uma sala escura, assistindo a comerciais. Fala a verdade: isso é ou não é fantástico?

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O estilo e os lugares da moda




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.