:: institucional           :: projetos           :: serviços           :: sala de imprensa          :: parcerias          :: loja          :: contato     

CANAIS WOOZ

artigos
agenda cultural
artes visuais
cultura
cinema
dança
entrevistas
fotografia
internet
literatura
música
teatro
terceiro setor


Roseli Pereira
Valmir Junior



clique aqui e faça um cadastro para receber informações Wooz
     ROSELI PEREIRA

Publicidade para leigos 2
Jantares incríveis, festas maravilhosas


Por
Roseli Pereira*

Vimos, no capítulo anterior, que ter várias grandes idéias em pleno pregão da Bolsa é praticamente impossível.

É por isso que os publicitários têm cara de doidinhos. E têm, ainda, que esperar o "pregão" acabar sempre que quiserem fazer (direito) qualquer coisa que exija um mínimo de concentração. Mas isso, via de regra, só acontece quando metade da agência vai embora e os telefones (finalmente) páram de tocar.

Aí, lá pelas nove ou dez da noite (que é quando o grupo percebe que não vai conseguir sair antes da uma da manhã, mesmo) alguém providencia um daqueles incríveis jantares dos quais você tanto ouviu falar.

Os participantes são aquelas figurinhas carimbadas, muitas das quais cheias de prêmios, que aparecem no melhor estilo "cara de sono" ou "verde de fome". O cardápio é exclusivo da pizzaria da esquina, que entrega muito mais rápido. E o serviço, moderníssimo, é feito pelo sistema digital.

O quê? Você não conhece o sistema digital? Bem feito. Quem mandou não ser publicitário?

Bom, já que você está sendo legal comigo por ler esta crônica, eu vou ser legal com você e revelar todos os detalhes. É assim: primeiro você corre para garantir um bom pedaço da pizza. Depois, você faz uma manobra delicada para tirá-lo da caixa e colocá-lo num guardanapo de papel sem fazer muita meleca. Mas, independentemente do seu treino e habilidade, o azeite vai pingar, o tomate vai escorregar, a cebola vai cair na sua roupa e o queijo vai grudar em tudo ou vai ficar se esticando naqueles fiapos indestrutíveis que você conhece muito bem. E tudo isso vai acontecer justamente quando todo mundo estiver olhando pra você.

Mas nada disso importa. O que importa - de verdade - é que você está jantando com gente brilhante, requisitada e badalada. E que aquele trabalho tem que ser entregue amanhã, de qualquer jeito. Ainda que os computadores dêem "pau" ou que haja uma epidemia de catapora na agência.

E note que o fato de um determinado trabalho precisar ser entregue "amanhã, de qualquer jeito" não quer dizer que ele já tenha sido comprado ou que vá ser pago. É que publicidade (pelo menos até onde o meu radar ocular alcança) é o único serviço do mundo que precisa ser executado para, só então, poder ser vendido.

Qualquer outro tipo de serviço pode ser orçado antes. Até cirurgia cardíaca. Mas, como vender uma campanha publicitária sem mostrar para o cliente (detalhadamente) qual é a idéia? E, como orçar a execução da idéia sem mostrar para os fornecedores (detalhadamente) o que é que a gente quer que eles façam? Simplesmente não dá.

Foi por isso que inventaram o "layout". Ou melhor, "os layouts", porque um layout sozinho não faz verão. Se o cliente não aprovar os layouts (ou pelo menos unzinho só), aquela sua grande idéia vai direto para o lixo (ou, quando muito, para um CD de backup lá no fundo do armário). Mas se o cliente aprovar, em compensação, o trabalho da Criação já estará concluído. E aí é a maior festa.

Aliás, por falar em festa, o mundo da publicidade está repleto de festas. Existem as festas que os publicitários fazem para homenagear os clientes, existem as festas que os fornecedores fazem para homenagear os publicitários, existem as festas que os clientes fazem (com ajuda dos publicitários e fornecedores) para homenagear os clientes deles e, finalmente, existem aquelas que os publicitários fazem para homenagear a si mesmos.

Tradicionalmente, o publicitário em início de carreira vai a todas. Mas, com o tempo, ele começa a ter que racionalizar suas energias e o seu guarda-roupa. Primeiro, passa a ir só às festas mais importantes. Depois, só às indispensáveis. E, por fim, só àquelas que lhe dão prazer. Isso se não tiver um "daqueles" jantares, naquele dia.

Mas existe uma altura do campeonato em que a festa mais maravilhosa de todas, mesmo, é quando o publicitário consegue ir pra casa antes das dez, deitar e dormir.

Não perca, na próxima semana: Gente bonita, carrões e viagens fantásticas




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.