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Roseli Pereira
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     ROSELI PEREIRA

Publicidade para leigos 1
Toda a fama e a magia


Por
Roseli Pereira*

Nesses meus vinte e três anos de publicidade (é importante você saber que estou nisso desde os dois) já ouvi os comentários e definições mais exóticos sobre a minha profissão. Sinal de que as pessoas sabem pouco sobre ela.

Por isso, já que os bastidores da propaganda sempre causaram um certo fascínio sobre o público (e já que eu esqueci completamente de comemorar minhas duas décadas de redação), decidi escrever a série "Publicidade para Leigos", que está começando agora e terminará daqui uns dois anos, como parte das festividades das minhas bodas de prata no setor.

Mas não pense que eu pretendo passar dois anos inteirinhos torrando a sua paciência com este assunto, não. Até porque, bem antes disso, a minha própria explodiria. Bom, agora que você já teve tempo para se preparar, vamos cortar a fita inaugural.

No princípio, eram as mulheres que "não prestavam".

Lá nos antigamentes, qualquer mulher que "trabalhasse fora" carregava a fama de "não prestar". Mais tarde, só as enfermeiras e comissárias de bordo continuaram "não prestando". Mas isso só até as agências de propaganda começarem a se multiplicar. Porque aí o monopólio acabou e as publicitárias passaram a "não prestar", também.

Tá certo que, quando eu comecei minha carreira, essa fase já estava bem no finzinho. E eu lá, orgulhosíssima das conquistas femininas. E muito da besta, diga-se de passagem. Porque hoje eu tenho certeza de que uma vida dedicada à vadiagem teria sido bem mais saudável e menos cansativa.

Mas já que não adianta chorar sobre o soutien queimado, é melhor mudar de assunto. Quer dizer: é melhor voltar logo para o tema desta crônica, antes que você descubra o quanto eu sou capaz de ser prolixa e tediosa.

A fase seguinte foi a do encantamento geral.

Todo mundo morria de inveja dos publicitários, por causa de umas bobagens que só Deus sabe de onde surgiram. E, por incrível que pareça, até hoje existe gente que acredita: "Puxa, que maravilha! Na sua profissão não tem rotina, né?".

Não, não tem. O profissional de criação é um cara (ou uma cara) que divide a mesma sala com vários outros profissionais de criação. Por uma dessas obras do destino, a sala é conhecida como Criação. O número de profissionais que trabalham lá dentro varia de acordo com o tamanho da agência. Mas todos eles, todos os dias, entram na sala e ficam lá, tendo idéias (idéias diferentes, é claro), enquanto pelo menos umas cinco pessoas (pessoas diferentes, é claro) ficam telefonando a cada três minutos (de telefones diferentes, é claro) para perguntar a cada um (de maneiras diferentes, é claro) se ele já teve aquela grande idéia, porque "já estamos em cima do prazo" (isso aí é sempre igual).

E, não contentes em telefonar, alguns colegas (bem diferentes, é claro), vão até a Criação para pressionar. Ou palpitar. Ou simplesmente xeretar. Ou matar o tempo. Ou bater papo. Ou se esconder do chefe. Mas tudo isso sempre das maneiras mais originais, é claro.

A essas alturas, você nem precisa usar muito a imaginação para perceber que o pregão da Bolsa é fichinha.

E como a Lei de Murphy existe, geralmente é bem numa hora dessas que aparece uma visita. Daquelas que nunca tinham entrado numa agência de publicidade, antes. E olha tudo aquilo. E comenta, com aquele ar encantado: "Mas não é que esse pessoal de criação é meio doidinho, mesmo?"

Não perca, na próxima semana:
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* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.