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Roseli Pereira
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     ROSELI PEREIRA

I am what I am

Por
Roseli Pereira*

Gente, fui assistir ao show da incrível, da espetacular, da maravilhosa, da sen-sa-ci-o-nal Gloria Gaynor e acabei descobrindo duas coisinhas absolutamente desconcertantes. A primeira é que as divas jamais envelhecem: elas só vão ficando maiores, inclusive para os lados. A segunda é que eu estou, definitivamente, ficando muito chata.

Não tenho nada a dizer que seja desfavorável à Gloria, naturalmente. Para mim ela sempre será uma glória, apesar daquele traje de natureza indefinida que tanto poderia servir como abat-jour francês nos anos 30, como de bandeau de cortinado palaciano em qualquer época. Quanto a isso, tudo bem: diva é diva, e a minha diva da disco music tem todo o direito de se apresentar como bem entender, a não ser que esteja rouca.

Mas vamos aos fatos. Tudo começou quando, dias antes do show, eu tentei comprar ingressos por telefone e não consegui. Não consegui, aliás, por razões de ordem puramente neurológica: o meu cérebro foi incapaz de enviar o comando necessário para que as minhas cordas vocais emitissem um "sim" diante da taxa de 15% sobre o preço de cada ingresso, sendo, ainda, que no dia do show eu teria que chegar uma hora mais cedo para retirá-los. E continuou paralizado mesmo quando eu soube que tal retirada é feita num guichê especial, que provavelmente tem uma fila especial onde pessoas especiais aguardam só um momentinho enquanto as outras pessoas especiais, que chegaram primeiro, assinam os canhotos dos seus cartões de crédito especialíssimos. Mas isso é chatice minha, porque havia também a opção de receber os ingressos no endereço de minha preferência, mediante módica quantia. Só que, confesso, preferi nem ouvir qual era essa quantia para não correr o risco de entrar em choque ou de ter uma convulsão psíquico-econômica. Outra chatice minha, porque esse serviço é muito útil para quem está fora da cidade. Eu, como estou dentro e sou chata, desliguei o telefone e rumei para a bilheteria.

Cerca de setenta minutos depois eu estava lá em carne e osso e constatei que, dos ingressos em qualquer setor, fora a Platéia 1, que eu havia recusado setenta minutinhos antes, já não havia quase nada. Mas, em se tratando de São Paulo, é bem possível que umas três mil pessoas tenham escolhido exatamente aquela horinha e dez para comprá-los pela Internet ou telefone. Sim, porque a bilheteria tinha sido aberta há coisa de meia hora e ali, na minha frente, só haviam umas cinqüenta. Nada mais do que isso.

Mas sejamos honestos: o que uma filinha de cinqüenta pessoas pode representar diante da delícia de assistir Gloria Gaynor, e ainda por cima sem pagar os 15% de taxa? Cheguei no escritório atrasada mas feliz da vida, com os ingressos na mão. Tá certo que as poltronas ficavam meio que no alto demais e meio que distantes demais, mas eu tinha ouvido de fonte segura e fidedigna que a casa de espetáculos é excelente e que nada poderia comprometer a qualidade da minha visão.

No dia marcado lá estava eu, vinte e cinco minutos antes do horário, para ter tempo de utilizar os serviços do bar e encontrar o meu lugarzinho sem incomodar ninguém. Foi precisamente o que fiz e confesso (mais uma vez) que só comecei a ficar ainda mais chata durante a segunda meia horinha de atraso. Primeiro, por causa da falta de respeito. Depois, por causa de uma discussão pra lá de irritante que começou entre os espectadores da fileira da frente e só terminou quando uma funcionária da casa foi até o local e descobriu que, embora não houvesse uma poltrona marcada com o número 46, havia uma poltrona sem marca alguma, de modo que todos poderiam se acomodar normalmente, assim que uns dois ou três pulassem para o acento da direita. E eu, que sou chata, mereço ter que assistir a uma bobagem dessas.

A essas alturas do campeonato, o público já estava pra lá de inquieto. Ouviram-se aplausos, assovios, gritos e até mesmo algumas vaias antes que as cortinas se abrissem, o que só aconteceu precisamente uma hora depois do combinado. Desculpem-me os inocentes de espírito mas, para mim, um atraso tão preciso é indício de premeditação. E aí eu te pergunto: por que cargas d'água não se divulga o horário correto, ainda que seja uma hora mais tarde?

As pessoas não precisariam correr tanto, teriam tempo para jantar direito, não atravessariam a cidade na hora do rush e não perderiam o humor antes mesmo que a diva entrasse no palco. Mas não: os seres insensíveis que têm o poder da digitação dos horários nos ingressos demonstraram, mais uma vez, que não estão nem aí com a imagem das estrelas e muito menos com a opinião dos fãs delas. A propósito: já imaginou se eu tivesse comprado por telefone e chegado mais cedo ainda? Felizmente, uma diva é uma diva e sabe muito bem lidar com tal situação, de maneira que logo tudo ficou bem e eu pude continuar a me perguntar: caramba, como é que eu posso estar ficando tão chata?

Bem, pelo menos a casa e o lugar eram excelentes e, de fato, nada poderia comprometer a qualidade da minha visão. A não ser, é claro, que três mocinhas resolvessem se levantar bem na minha frente, tampando até mesmo uma parte do telão. E é claro que foi exatamente isso o que aconteceu. Não se pode comparar os níveis de conforto mas, pelo menos neste ítem, os shows de estádio saem ganhando: segundo a minha experiência em arquibancadas e numeradas, nem mesmo uma pessoa de dois metros de altura que resolva assistir a um espetáculo em pé e pulando consegue atrapalhar a visão de quem está atrás, até porque quem está atrás está bem acima.

Nesta altura da conversa, faço questão absoluta de parabenizar os representantes do terceiro sexo que estavam presentes: atenciosos e delicados como sempre, quando queriam dançar iam para os corredores que ficam entre as fileiras, espaço esse onde ninguém atrapalha ninguém. Isso é o que eu chamo de elegância. Já sobre o comportamento pouco civilizado dos demais, dispenso argumentação. Até porque, aposto e ganho, não ouviria nada mais profundo ou consistente do que um medíocre "show é show" ou, em versão mais antiquada, "quem está na chuva é pra se molhar". Pra mim isso não passa de piada de mau gosto. E tenho desabafado.

Obviamente, houve um momento em que o público inteiro ficou de pé. Inclusive eu. Alguns por animação, outros para poder enxergar alguma coisa. Inclusive eu. É óbvio, também, que todos acabaram se animando. Inclusive eu. E dançando. Inclusive eu. E que a Gloria ficou visivelmente encantada. E que eu me senti muitíssimo menos chata. Mas não o bastante para resistir à tentação de contar minhas desventuras, com todos os detalhes, para você. Mas, o que é que se pode fazer? Citando a diva, I am what I am. E olha que eu ando bem chata.




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.