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Roseli Pereira
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     ROSELI PEREIRA

Bravo!

Por
Roseli Pereira*

Quando ouvi pela primeira vez eu não tinha mais do que 16 anos, e estava num recital de piano no Teatro Municipal de São Paulo.

Pois é. Se a maior parte dos adolescentes aborrece a maior parte dos adultos com seu gosto exacerbado por música popular de qualquer gênero ou padrão de qualidade - desde que seja bem alta - sempre existe aquela minoria que consegue aborrecer todo mundo com um jeitinho arrogante, metido a intelectual. Eu, naturalmente, fazia parte do grupinho besta. E como a gente nunca pula fases da vida, mas só as troca de lugar, hoje, enquanto a maior parte das pessoas da minha idade vai ficando séria, meio posuda e cada vez mais silenciosa, eu vou aumentando o som do rock. Uma vez chata, chata para sempre.

Bem, mas estávamos falando nos aplausos ao fim de um recital de piano. Como vocês sabem, num recital ou concerto de música erudita as únicas manifestações permitidas ao público são aplausos nos momentos certos e gritos de "bravo!" no final. Além, naturalmente, das tosses, espirros, roncos, chiados e daquele maldito barulhinho de papel de bombom, mas só porque tudo isso é inevitável.

Naquele dia, o público era só aplausos. Mas depois do bis, o povo decidiu aplaudir de pé. E aí começaram a espocar gritos de "bravo" em diferentes pontos da platéia. E eu achando aquilo lindo até que, de repente, ouço um "bravo" que me incomodou: o tom era esganiçado, esquisito, feio mesmo. Era um "bravo" gritado por mulher.

Na hora, achei que era aquela mulher, em particular, que não tinha voz apropriada para gritar num local de acústica tão caprichada. Mas vieram muitos e muitos outros concertos e recitais, e concluí que voz de mulher nenhuma serve pra isso. Por uma simples questão estética. Voz de mulher em platéia de espetáculo só fica bem pra gritar "lindoooooo", "gostosooooo". Ou simplesmente gritar. Por isso, até hoje, quando ouço alguma gritando "bravo", quem fica brava sou eu.

Se você é mulher e se, como eu, adora se manifestar nos espetáculos, também não precisa se limitar a essa coisa vulgar de lindo e gostoso. Basta usar alguns truques bem simples. Assim, além de poupar todo mundo daquele som horroroso de taquara rachada, você irá evitar que todo o seu charme e elegância sejam arrastados para o ralo e caiam na vala comum.

Você pode assoviar, por exemplo. Se ainda não sabe, aprenda sem medo de ser feliz. E não tenha a menor vergonha de meter os dois dedos na boca em plena platéia, porque ninguém vai reparar, mesmo. A não ser, é claro, que os únicos holofotes existentes no recinto estejam voltados justamente para você. O assovio, por mais estridente que seja, não pode classificar ninguém como gralha ou qualquer outra ave menos exótica, e é um tipo de manifestação bastante aceitável.

Você pode, ainda, gritar "uhú". Existem infinitas variações de "uhú": é só escolher a que mais combina com a sua personalidade ou então criar a sua. Já pensou? Um "uhú totalmente inédito, que talvez se mantenha exclusivo para sempre?

Mas lembre-se: nenhum destes truques vale pra recital ou concerto de música erudita. Numa ocasião dessas, por favor, limite-se a ouvir e bater palmas na hora certa. E, caso venha a sentir uma vontade incontrolável de se manifestar através de outro som, simplesmente tussa. Ou espirre. Ou chie. Ou ronque. Ou então abra uma dúzia e meia de bombons




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.