:: institucional           :: projetos           :: serviços           :: sala de imprensa          :: parcerias          :: loja          :: contato     

CANAIS WOOZ

artigos
agenda cultural
artes visuais
cultura
cinema
dança
entrevistas
fotografia
internet
literatura
música
teatro
terceiro setor


Roseli Pereira
Valmir Junior



clique aqui e faça um cadastro para receber informações Wooz
     ROSELI PEREIRA

Bom dia por quê?

Por Roseli Pereira*

"Serviço de taxi Maria Silva bom dia?"

Estranhou a construção da frase? Pois é de se estranhar, mesmo. Primeiro, porque não é o serviço de taxi que se chama Maria Silva. A Maria Silva é que é atendente telefônica do tal do serviço de taxi. Depois, porque meia noite e cinco não é dia coisíssima nenhuma. É exatamente o meio da noite.

Mas não tem jeito. Parece que é moda entre os serviços telefônicos atender às ligações assim. Falando bem rapidinho, botando um ponto de interrogação no final da frase e fazendo você se sentir como se já devesse estar dormindo há muito, muito tempo. O que, pra mim, soa ainda pior do que aquele "boa tarde" hediondo que alguém sempre se lembra de soltar quando chego atrasada ao local de trabalho. Simplesmente pelo fato de que, em última instância, o trabalho é uma forma de ganhar dinheiro, enquanto chamar o serviço de taxi é uma forma de gastar. Mas como isso faz parte das delicadezas das relações de consumo e o assunto desta crônica é a divisão do tempo, voltemos à vaca fria.

Tudo bem. Eu sei que as datas mudam sempre à meia noite. E sei que o nome do próximo período é dia. Mas isso nunca interferiu na ordem natural das coisas. Que eu saiba, desde que o mundo é mundo (ou pelo menos quase isso) as noites sempre começaram no crepúsculo e sempre terminaram na aurora. E que essa história de mudar a data à meia noite é uma questão meramente burocrática. Porque, até onde a minha vista cronológica alcança, a única determinação matemática para o assunto é que mudemos de data a cada vinte e quatro horas. E sobre isso, convenhamos, poderíamos ter escolhido qualquer uma das outras vinte e três.

Mas eis aí um caso em que a burocracia tem funcionado muito bem. Porque se as datas fossem mudadas ao meio dia, por exemplo, você sairia para almoçar e só voltaria ao escritório no dia seguinte. Já imaginou a confusão? E já imaginou os atendentes telefônicos desejando boa noite a partir do meio dia? Pois é.

Se isso lhe parece um completo absurdo (afinal, quando é meio dia ainda faltam cerca de seis horas para anoitecer), lembre-se de que quando é meia noite ainda faltam cerca de seis horas para amanhecer. Portanto, ou a gente concorda com a lógica do raciocínio, ou não.

Tá bom. Assim como todos nós aceitamos um "boa tarde" de bom grado, confesso que eu me contentaria com um simples "boa madrugada". Mas embora a atividade urbana esteja cada vez mais dividida em três ou quatro turnos, nunca ouvi um cumprimento assim. Será que a palavra é comprida demais pra ser usada durante uma noite tão curta?

Pode até ser. Mas tenho observado que essa história de desejar bom dia no meio da noite só acontece quando existe algum tipo de fio ou cabo intermediando o diálogo. Assim, ao vivo e em cores, cara a cara com as forças da natureza, parece que ninguém tem coragem de dizer uma barbaridade dessas.

Você já ouviu, por exemplo, algum porteiro de boate recebendo as pessoas com bom dia? Aposto que não. Nem os próprios taxistas, que bancam o tal do serviço telefônico, cumprimentam a gente assim. Até porque, se eles concordarem que depois de meia noite já é dia, só lhes restará abolir a bandeira dois. Taí mais um fato lógico e claro como o dia.

Bem, mas como a Maria Silva conseguiu me convencer de que eu já deveria estar dormindo há muito, muito tempo, peço meu taxi sem delongas ou especulações.

"Pois não, senhora. O seu carro é o número tal. E tenha um bom dia."

Bom dia de novo já é provocação. Por isso, antes de desligar, eu agradeço fazendo a correção. Só que - aposto e ganho - isso ela jamais percebeu.




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.