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Roseli Pereira
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     ROSELI PEREIRA

São Tomé das Letras

Por
Roseli Pereira*

E aí eu entrei na minha livraria preferida e estava tudo diferente. Mais parecia um supermercado. Um supermercado onde a cultura fica toda organizada por assuntos, na ordem alfabética do sobrenome do autor.

Então tá bom. Desde que alguém saiba me dizer em qual assunto enquadraram "O Martelo das Feiticeiras". História? Sociologia? Religião?

Olhei em volta procurando o livreiro, e descobri que ele foi transformado numa caixa forrada de madeira que se chama "terminal". Ao que parece, a profissão de livreiro é que entrou em estado terminal: até se deixou trocar por uma caixa que, de tão burra, só conseguiu me responder: "Um de nossos atendentes terá o maior prazer em informar sobre a disponibilidade da obra."

Muito bem. Foi assim que descobri o que é um "atendente". Atendente é um balconista de loja que não tem balcão. Um vendedor daqueles que poderiam vender qualquer coisa. Cueca, pastel, relógio de pulso. Mas apenas se o interessado souber exatamente onde a coisa está. Porque se não souber, o atendente simplesmente se esconderá atrás de uma expressão de desprezo absoluto e, de alguma forma, fará você pensar que está ficando louco.

Mas, enfim, segui as instruções. O primeiro atendente da minha vida coçou a cabeça, olhou para os lados e, quando comecei a achar que seria mandada para uma loja de ferramentas, ele simplesmente disparou: "Já consultou o terminal?"

Sim, já consultei e ele me mandou falar com você. Mas o sujeito era determinado. Caminhou na direção da caixa, perguntou de novo o nome do livro, catou milho até conseguir digitar tudinho e, é claro, lá veio a mensagem de novo. O rapaz não perdeu o rebolado. Do alto daquele olharzinho malicioso, me passou a informação mais lógica, conhecida e banal de toda a face da Terra: "Ah! Quando o terminal diz isso é que não tem." E foi se afastando com um sorriso pregado nos lábios. E, segundo a caixa, sentindo o maior prazer em me informar que "não tem".

Não é preciso dizer que mudei de livraria. Mas só até o dia em que ela também mudou. E a outra. E a outra. E a outra.

Bem, eu não estou aqui pra contestar a evolução e nem a ordem alfabética natural do sobrenome de autor nenhum. Só tenho a dizer que como isso é coisa de livreiro, e livreiro é coisa do passado, estamos correndo o sério risco de, em pouco tempo, ter que procurar "Operação Cavalo de Tróia" em medicina veterinária, "Casa Grande e Senzala" em arquitetura, "Noites Antigas" no asilo e um atendimento decente em pura ficção. E, já que até o charme se perdeu, eu me contento em lutar pra não perder o entusiasmo e manter pelo menos um pouquinho daquele velho prazer. Por isso, desde que tudo aconteceu tenho rezado regularmante para o santo que me pareceu mais adequado ao assunto. Tenho rezado pra São Tomé das Letras. (Ou será que até o santo evoluiu, e agora só atende na seção de geografia e turismo?)




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.