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Roseli Pereira
Valmir Junior



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     ROSELI PEREIRA

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Por
Roseli Pereira*

Três horas da madrugada. Até que eu ainda estava inteira pra quem havia acordado às sete da manhã e já estava trabalhado há pelo menos dezoito horas. Porque as outras duas eu tinha gastado no banho, no táxi e em três refeições, já que saco vazio não pára em pé.

Só faltava, mesmo, passar os arquivos de trabalho por e-mail. Fazendo isso naquela hora eu poderia dormir sossegada e ainda ganhar uns bons minutos pela manhã.

Tento conectar uma vez. Falha na autenticação.
Tento conectar outra vez. Falha na autenticação.
Tento conectar pela terceira vez. Falha na autenticação.
Pego o telefone e ligo para o provedor.

"Hermenegildo Astrúbal, bom dia. Qual o seu e-mail, por favor?"

Não sei como alguém pode cantar tanto numa hora dessas, a não ser que seja em boate. Mas tudo bem, vamos lá: "roseli ponto pereira".

"Roseli ponto pereira, senhora?"

Hoje não vou me irritar com nada: "sim".

"Roseli normal?"

Peraí que eu vou conferir: dois olhos, um nariz, uma boca. Certo. Duas pernas, dois braços, um tronco e uma cabeça. Certo. Os olhos, o nariz e a boca fazem parte da cabeça. Certo. Que ainda conta com duas orelhas e algum cabelo. Certo. A cabeça tá doendo, mas também, numa hora dessas…

É, parece que é Roseli normal. Mas se fosse normal, normal mesmo, como tantas Roselis que existem no mundo, certamente não estaria às três horas da manhã tentando desesperadamente entrar na rede mundial de computadores para poder dormir uns minutinhos a mais amanhã. Ou melhor, ainda hoje.

Ou ele estaria pensando em Rosely? Será? Quer dizer que Rosely não é normal? Pois eu tenho uma grande amiga Rosely que é normalíssima. Tá, tudo bem. Não é tão normalíssima assim, porque se fosse não seria minha amiga. Mas também não existe nada que a desabone.

Ou ele estaria pensando em Roselli? Ou em Rooseli? Porque em Rosseli não poderia ser, senão soaria Roceli, e não Rozeli. Taí. Ele bem que poderia estar pensando em Rozeli. Eu não conheço nenhuma, mas a não ser que a Rozeli em questão esteja internada num hospício - e nesse caso não estaria tentando desesperadamente entrar na internet às três horas da manhã -, Hermenegildo Asdrúbal nenhum teria o direito de duvidar da sua integridade mental. Mesmo sendo atendente telefônico noturno do provedor.

Respiro fundo e resisto bravamente (você é testemunha de que eu já havia prometido não me irritar): "Sim, normal."

"Alguma instabilidade na linha telefônica deve ter travado a sua senha, senhora. Já foi normalizado, senhora. Já pode conectar, senhora"

"Muito obrigada"

"O seu provedor agradece, e tenha um bom dia."




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.