:: institucional           :: projetos           :: serviços           :: sala de imprensa          :: parcerias          :: loja          :: contato     

CANAIS WOOZ

artigos
agenda cultural
artes visuais
cultura
cinema
dança
entrevistas
fotografia
internet
literatura
música
teatro
terceiro setor


Roseli Pereira
Valmir Junior



clique aqui e faça um cadastro para receber informações Wooz
     ROSELI PEREIRA

Auto-flagelação

Por
Roseli Pereira*

De repente prestei atenção no espelho e tomei um susto: estava com uma touca de borracha grudada na cabeça, de onde pequenos chumaços de cabelo haviam sido puxados com uma agulha de crochê.

O couro cabeludo ainda ardia por causa da agulha que fora enfiada com força através das centenas de buraquinhos quase invisíveis da touca. Mas o cabeleireiro, implacável, já se aproximava sem dó, com uma tigelinha na mão.

Ele mexeu mais uma vez aquela pasta roxa e, com a ajuda de um pincel largo, passou tudinho com cuidado na raiz dos meus chumaços. Mas só na raiz. Pra preservar as pontas e congelar apenas o cérebro.

Não, você não pode imaginar o que é isso se nunca viu com seus próprios olhos. E, no dia em que vir, vai começar a entender porque em salão de beleza qualquer coisa é melhor do que olhar para o espelho.

Vale ler revista velha, bula de remédio e até falar mal da vizinha ou da melhor amiga. E pode observar: a intensidade da fofoca é sempre proporcional ao sofrimento da fofoqueira.

Eu, pelo menos por enquanto, sou uma masoquista light. E ainda conto com a grande sorte de não ter muitos pêlos no corpo. Mas quando vejo uma mulher recostada numa daquelas cadeiras de lavatório, com um profissional do sadismo debruçado sobre ela, arrancando os fios da sobrancelha um por um, entendo o que ela está passando. E perdôo a fofoca maldosa. A não ser que seja a meu respeito, é claro.

E ainda existem procedimentos que ninguém faz em público, que é pra não assustar criança e nem espantar clientela. Como grudar pedaços de papel celofane untados com uma pasta de cor duvidosa pelas pernas e virilhas, e depois arrancar numa puxada só.

Saem os pêlos, sai a pele, sai sangue, saem gritinhos, saem urros de dor e sai ainda, intercalada com tudo isso, a fofoca mais escabrosa que já se ouviu nos últimos tempos. E também não é pra menos.

Pensa que pára por aí? Engano seu, porque o flagelo se estende por uma enorme cadeia sub-humana que passa ainda por academias de ginástica, salas de esteticistas, consultórios médicos, centros cirúrgicos e camas de hospital. De onde hordas de mulheres saem todas felizes, com quilos de gordura a menos ou litros de silicone a mais.

E, provavelmente, só para humilhar as outras. Porque, pelo menos até onde a minha vista alcança, a não ser que você pinte o cabelo de verde-bandeira ou vista um modelito que mais se pareça (para o bem ou para o mal) com uma fantasia de destaque de escola de samba, homem nenhum vai notar. Acredite.




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.