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     ROSELI PEREIRA

Minutos de Reflexão

Por Roseli Pereira*

De repente o aparelho de DVD parou de funcionar e eu fiquei possessa. Possessa, chateada, irritada, perdida e me sentindo um tanto quanto incompleta. E continuei me sentindo exatamente assim durante os vinte e um dias que passei sem o talzinho.

O interessante da história é que eu não estava assistindo nada de especial no momento em que dei com o defeito, não sou aficionada por cinema, mal tenho tempo de parar na frente da televisão e jamais havia pensado em comprar um treco desses até aquela linda manhã de sábado, quando entrei num hipermercado pela porta errada e dei de cara com aquela promoção. E quer saber de uma coisa? Comprei muito mais o "preço baixo em quinhentas vezes sem juros no meu cartão de crédito" do que a possibilidade de assistir a um filme ou outro sem ter que rebobinar a fita, depois.

Tá. Pode me chamar de consumista desequilibrada, se quiser. Mas só se você tiver provas irrefutáveis de que nunca fez algo parecido antes, durante ou depois. E não precisa ficar pensando nisso agora, porque hoje eu só liguei o computador para refletir um pouco sobre a imensa capacidade que o ser humano tem de criar laços afetivos e de dependência física com determinados objetos exóticos que nem existiam, tempos atrás. Isso pra você ter uma idéia do quanto um defeito no leitor ótico principal de uma caixinha prateada é capaz de fazer uma pessoa comum filosofar.

Não vou ficar falando, é claro, naquelas coleirinhas eletrônicas que as pessoas costumam levar no bolso, na bolsa ou na cintura, só pra ter certeza absoluta de que serão cruelmente interrompidas nos momentos mais inoportunos. Mas já que entrei no assunto pelo campo das telecomunicações, aproveito para perguntar como é que você se sente quando acaba a bateria do seu telefone sem fio. Sim, porque, pelo menos para mim, o fim da bateria do telefone sem fio representa a volta àquela vida primitiva em que eu era obrigada a levantar e caminhar três ou quatro metros para atender a uma simples ligação. Ou seja: uma verdadeira tortura.

Pior do que isso, só quando o controle remoto pifa. Não importa qual dos seus dezessete controles remotos pifa. O que importa é que, sem ele, você vai ter que levantar inúmeras vezes e, ainda por cima, vai ter que descobrir como é que funcionam os botões do aparelho, se é que no aparelho tem algum botão. E nem adianta pensar em recorrer ao manual de instruções porque, até onde a minha cansada vista alcança, todos eles foram escritos especialmente para confundir.

Mas falemos sobre coisas mais simples. Falemos sobre a falta que faz um mero acendedor automático de fogão. Parece bobagem, mas noutra noite cheguei em casa muito tarde e sem o meu isqueiro. É claro que, quando decidi acender um cigarro, fui direto para o fogão. Necas de pitibiribas. Odeio fósforos, mas mesmo assim revirei cada gaveta atrás de uma caixa. É claro que não encontrei porque, como já disse, odeio fósforos. E é claro que eu não poderia recorrer ao vizinho porque, como já disse, era muito tarde. E é claro que lá fiquei eu, desconsolada e prostrada numa cadeira da copa, calculando se seria mais fácil esfregar dois pauzinhos ou ligar para uma cooperativa de táxis e pedir que me trouxessem um isqueiro. A vontade de fumar até passou, mas a impossibilidade de fazer um simples foguinho em casa me deixou louca da vida. Se fosse preciso, eu poderia até esquentar a água do banho no microondas. Mas não teria como produzir uma faisquinha, sequer. Nem para remédio. Foi aí que eu descobri que até as menores coisas da vida podem nos levar a uma imensa sensação de impotência.

Ainda mais impotente e louca da vida eu fico quando a Internet sai do ar. Sim, porque a Internet nunca sai do ar quando a gente está dormindo ou cuidando do jardim ou passeando no shopping ou dando banho no cachorro. A Internet só sai do ar quando a gente está precisando muito dela. E eu aposto que, pelo menos nessa área, você pode testemunhar a meu favor. Sua conexão pode ser rápida ou discada, seu provedor e seu modem podem estar com problemas ou não: nenhuma condição técnica ou espiritual parece fazer diferença quando as linhas do destino dizem que você vai ter que passar algum tempo fora da rede.

Nesta semana, por exemplo, um conserto no bairro onde trabalho fez com que o escritório passasse três dias sem uma das linhas telefônicas. E, como seria de se esperar, a linha muda era justamente aquela que nos dá acesso à Internet. Quer saber de outra coisa? Eu esqueci completamente como é que se trabalhava antes da existência de uma linha direta com o mundo.

Confesso que foi uma semana difícil. Tão difícil quanto seria imaginar, uns vinte anos atrás, uma rede de comunicação como a Internet. Ou tentar imaginar, na mesma época, que um dia os filmes seriam gravados digitalmente em pequenos discos metálicos, brilhantes e muito lisos, e que bastaria colocá-los numa caixinha prateada para que um certo leitor ótico principal interpretasse a gravação. A não ser, é claro, que estivesse com defeito.

Já nos dias de hoje, o que eu acho extremamente difícil é compreender por que cargas d'água, com toda a tecnologia existente e disponível, o ser humano ainda precisa de vinte e um dias para descobrir que é mais fácil trocar um aparelho de DVD inteiro do que apenas um leitorzinho ótico principal. Parece ficção científica, eu sei. Mas sou uma mulher de fé, e estou certa de que, um dia, a ciência nos dará uma resposta lógica para esta misteriosa questão.

E, enquanto isso não acontece, é melhor eu aprender de uma vez por todas a entrar nos lugares pela porta certa e a passar bem longe das promoções.




* Roseli Pereira (quarenta e uns) é paulista, redatora publicitária e corinthiana (nesta ordem). Escreve desde sempre, mas só começou a desengavetar seus textos no dia em que descobriu a Internet. Dali em diante, foi ficando cada vez mais cara de pau e ganhou o papel. Atualmente, tem crônicas publicadas em 3 das 4 antologias dos Anjos de Prata e em alguns jornais do interior do Estado de São Paulo.
roseli.pereira@uol.com.br