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     CULTURA

O desagradável Nelson Rodrigues


Carla Guimarães (*)
La Insignia. Espanha, 2004.

Eu o vi por primeira vez quando tinha apenas quinze anos, e ele já me parecia desagradável. Naquele tempo, eu poderia ter sido inspiração para algum dos seus personagens, alguma ninfeta perversa apaixonada pelo próprio pai, ou pelo irmão, prostituída em algum bordel de luxo ou violentada por vários negros em uma rua deserta. Espero sinceramente não ter inspirado nenhuma de suas peças, não apenas pela sordidez das histórias, mas principalmente por saber que os personagens de Nelson sempre terminam mal. Happy end é uma palavra que não existe no seu dicionário Cambridge inglês/português, porque Nelson Rodrigues é o dramaturgo brasileiro mais pessimista que eu já conheci. Saí indignada do primeiro encontro. Quem esse pervertido achava que era? Olhando assim, com seu paletó e gravata, ele bem que poderia ser um velho reacionário, um anti-comunista, um anti-revolucionário, um anti-modernidade, um anti-anti. Mas isso não era de todo certo, suas obras faziam tremer aos mais conservadores e, se Freud pudesse ver alguma, seguramente esfregaria as mãos de alegria.

Eu estava totalmente desconcertada, é verdade. Desconcerto é o mínimo que se pode sentir ao vê-lo. Por isso comecei muito devagar, com muito cuidado, falando da sua obra que teve mais sucesso de crítica e de público: "Vestido de Noiva". Estreada em 1943, esta obra marcou uma verdadeira revolução no teatro brasileiro. Não só pela concepção do texto, dividido em três blocos que representam a realidade, a memória e a alucinação da protagonista, mas também pela montagem, levada a cabo pela companhia Os Comediantes, dirigida pelo polonês Ziembinski. Ele não fez muitos comentários, até parecia que não lhe fazia especial ilusão ter uma obra com tanto sucesso. Disse apenas: "Com Vestido de Noiva conheci o sucesso, com as obras seguintes o perdi para sempre", e tinha toda razão. Assim que me senti mais à vontade para me meter em terrenos mais perigosos, para me meter com as chamadas obras míticas, para me meter diretamente com ele. Perguntei se ele gostava da polêmica e se, por acaso, era isso o que ele buscava em suas peças, repleta de pais que transam com as próprias filhas, irmãos que se matam ou amputam o pênis, medéias que afogam seus bebês, filhos apaixonados pelas mães, irmãs apaixonadas por um mesmo homem, infidelidades, prostituição, estupros, homossexualismo, marginalidade e mortes, muitas mortes, sejam assassinatos, suicídios ou acidentes... Tive que parar para respirar e ganhar fôlego, senão poderia seguir enumerando todas as barbaridades que encontrei em seus textos por horas e horas. Foi quando Nelson aproveitou para me interromper. "Nunca neguei, faço um teatro desagradável". E eu não poderia estar mais de acordo.

Havia também uma certa similaridade entre o seu teatro e o do norte-americano O´Neill. Em Senhora dos Afogados, por exemplo, há uma aproximação clara da Mourning Comes Electra de O´Neill, que por sua vez está inspirada na tragédia grega, concretamente em Oréstia de Ésquilo. Mas Nelson negou este parentesco de obras e não quis falar do tema. Deixei escapar um pequeno sorriso de canto de boca, vitoriosa. Senti que era o momento adequado para meter o dedo na ferida, e quis perguntar sobre a morte do seu irmão. Quando uma mulher invadiu o escritório do pai de Nelson, um polêmico jornalista, para matá-lo. E, ao não encontrá-lo, decidiu matar o irmão do dramaturgo. Eu sempre quis saber se essa tragédia pessoal influenciou na dureza de suas peças. Eu acreditava que sim, mas não tive coragem de perguntar, não seria conveniente, não seria respeitoso com ele. Preferi perguntar sobre o melodrama, sempre presente em seus textos e sobre a noite em que foi vaiado por todo um teatro. Nelson sorriu, seguramente ele preferia falar disso mais que do seu sucesso. Confessou que, a princípio, foi-lhe entrando uma vontade louca de descer do palco e brigar com as mil e tantas pessoas que lhe vaiavam, mas que, pouco a pouco, as coisas foram ficando cada vez mais claras em sua cabeça. Se alguém não gosta de uma peça, simplesmente se levanta e vai embora, sai antes de acabar ou dorme na poltrona. A reação exagerada do público significava, para ele, um verdadeiro fluxo de consciência. A peça havia tocado uma fibra sensível daquelas pessoas. A partir deste momento Nelson compreendeu que, para a consagração do seu teatro, a grande apoteose era a vaia.

Quando ele falou das suas "Tragédias Cariocas", uma espécie de comédias de costumes sobre a classe média suburbana do Rio de Janeiro, claro que narradas com visão sempre trágica de Nelson, voltei a atacar. Ele já havia tocado antes em temas cabeludos do Brasil, como é o caso do "racismo oculto" que existe no país, apesar da constante negação do fato. Nas tragédias cariocas, o autor atacou a falta de ética proveniente da extrema riqueza das classes mais abastadas do país, assim como a sordidez proveniente da miséria. A mentalidade de "tirar proveito de tudo" que tantos malefícios já causou à política brasileira e que ele expõe como parte da idiossincrasia do país, é também uma crítica voraz ao comportamento da classe média. Visto de qualquer ângulo, ninguém sai ileso de suas peças e todos os personagens pagam pelos seus atos. Quis saber se ele tinha complexo de Deus bíblico, de pai estrito que castiga aos seus filhos com dureza. Mas, pensando melhor, percebi que todos os escritores têm complexo de Deus e desisti da pergunta. Não queria parecer uma menininha boba, queria impressionar porque, apesar de tudo, ele me impressionava muito.

E me despedi sem sequer apertar a sua mão, eu era muito jovem e ele tinha fama de autor pervertido. Elogiei a poesia presente em muitos dos seus textos, e foi um elogio sincero. "Toda Nudez será Castigada","Beijo no Asfalto", "Uma Mulher sem Pecado", "Bonitinha, mas Ordinária" e "Perdoa-me por me Traíres". Os títulos de suas peças também me pareciam incríveis, mas isso eu não lhe disse, já seria um comentário de puxa saco. E ele cruzou a Rua Jobim a caminho de Ipanema, onde os "meninos de bem" fumam baseados olhando o mar. E eu o acompanhei com os olhos até perdê-lo de vista, um tanto fascinada, um tanto abobada. Eu que tinha lido todas as suas peças, uma a uma, várias vezes. Enojada e paradoxalmente atraída por esses textos sórdidos e belos.

Jamais conheci Nelson Rodrigues, jamais nem sequer falei com ele, mas acho que já o conheço tanto, que se tivesse cruzado com ele pela rua, se tivesse a possibilidade de lhe entrevistar, se tivéssemos tomado juntos ao menos um cafezinho, seguramente seria assim (des)agradável.


(*) Carla Guimarães é uma dramaturga baiana que reside em Madri, onde realiza um doutorado em Teatro.



Fonte: La Insignia