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     CULTURA

O mundo em um baú


Por Martha Mendes

Baú sempre foi sinônimo de surpresas. É lá que as famílias costumam guardar lembranças do passado que, quando reviradas, sempre são motivos de alegria a todos. Na região do semi-árido nordestino, um baú de sisal também garante momentos de surpresas, fortes emoções e vem descortinando um mundo de novidades para alunos do ensino público fundamental da zona rural. Com o objetivo de agregar mais qualidade ao ensino na região sisaleira no interior da Bahia e de Sergipe, o Baú de Literatura despertou nos educadores a importância do papel da leitura na formação; e nas crianças, o prazer de se entregar a um bom livro.

A experiência é desenvolvida com sucesso em 73 municípios dos dois estados nordestinos, envolve 26,8 mil crianças e adolescentes e foi certificada no final de 2003 pelo Banco de Tecnologias Sociais da Fundação Banco do Brasil. Para a coordenadora do Movimento de Organização Comunitária (MOC), a certificação foi um passo importante na luta do MOC de fazer com que o Baú de Leitura seja adotado como política pública de ensino. "É o reconhecimento que existe coerência e qualidade nos processos de implantação e que é viável", afirma.

O Baú de Leitura é um projeto de baixo custo e fácil aplicação. Cada educador que participa do processo de formação recebe um baú contendo materiais didáticos básicos para o trabalho e cerca de 45 livros, com 15 títulos diferentes, separados por três temas relacionados à cultura, meio ambiente e cidadania. Uma vez por semana, o educador conta histórias em sala de aula e desenvolve atividades relacionadas ao tema. A criança também é levada a contextualizar a história dentro de sua realidade.

"Para nós não é importante apenas ler. É fundamental que a leitura não se transforme em algo enfadonho, uma tarefa a mais a ser desenvolvida pela criança e pelo adolescente. É indispensável que ela seja um instrumento de prazer, de cidadania e de criatividade e desenvolvimento da personalidade" ressalta Eliene Novaes Rocha.

Uma das constatações básicas do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti) foi que a escola rural não oportunizava a possibilidade de as crianças lerem. As causas para a falta de incentivo à leitura vinham desde a precária estrutura das escolas, que disponibilizavam um acervo mínimo de livros infanto-juvenis, à falta de capacitação de professores e monitores para trabalhar o processo da leitura. Com a implantação pelo Peti da jornada ampliada nas escolas, inserindo 65 mil crianças que trabalhavam nas lavouras de sisal, iniciou-se um processo de qualificação do ensino nas escolas rurais na tentativa de evitar uma nova evasão.

O Baú de Literatura foi desenvolvido pelo o MOC, com o apoio da Unicef, para contribuir com o processo iniciado pelo Peti e tem atacado duas pontas do problema: a formação dos educadores e o desenvolvimento do trabalho pedagógico junto aos alunos. O acervo dos baús é constituído de livros da literatura infanto-juvenil com histórias, fábulas, poemas, contos de fadas, lendas indígenas e do nordeste brasileiro, musicas, para proporcionar oportunidades diversificadas dos professores trabalharem de forma lúdica a leitura.

Os acervos são montados para possibilitar a troca de um Baú de uma escola para outra, dentro do mesmo município. Quando os alunos concluem a leitura de todos os livros do Baú, com as devidas análises e contextualização, efetua-se a troca por outro. Ao longo de um ou dois anos, educadores e alunos têm ao dispor de um acervo de mais de 150 livros.

Um ato solene, que conta com a presença de secretários de educação, diretores, pais e da própria comunidade, marca a entrega dos baús às escolas para ressaltar a importância da leitura. Seminários e encontros são realizados sistematicamente com o objetivo de sensibilizar, capacitar e acompanhar os professores envolvidos no projeto. "Sem esse seminário de formação com duração média de três dias, nenhuma atividade do baú se desenvolve nas escolas" destaca Eliene.

Os resultados positivos do projeto sensibilizaram as secretárias de Educação e de Assistência Social da região do Peti, aumentando o comprometimento do poder público com o projeto. Atualmente a aquisição de livros, assim como disponibilização de livros existentes nos acervos municipais e que possam servir aos Baús passou a ser de responsabilidade das Prefeituras Municipais, com recursos próprios e do Peti. Além disso, os professores envolvidos são da rede municipal de ensino, remunerados pela Prefeitura Municipal, que libera o tempo necessário para as atividades de formação programadas. Os monitores envolvidos fazem parte da Jornada Ampliada do Peti e são pagos pela Secretaria de Trabalho e Assistência Social do Estado da Bahia. Entre eles, são escolhidos os coordenadores do programa. Com apoio técnico e financeiro do Unicef, o MOC tem a responsabilidade de fazer a formação dos educadores e o monitoramento do projeto.

"Essa tecnologia social é plenamente transferível para qualquer outra realidade. O importante é ter a paciência de ir implementando um a um os passos necessários, sem que se queimem etapas de construção", lembra a coordenadora do MOC.


Fonte: Tempestade Comunicação