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     CULTURA
Uma proposta para o resgate de nossa memória gráfica

"Cultura não é uma ação cosmética de efeito rápido e imediato, mas um investimento com retorno garantido, mesmo sendo em longo prazo".
Luis Milanesi, in "A Casa da Invenção"


Por
Agnelo Fedel*

Se o brasileiro tem a má fama de possuir uma memória coletiva fraca, principalmente com relação a fatos que dizem respeito à política e à economia, no setor cultural a questão se intensifica. Um país que, há mais de cinqüenta anos, se acostumou a ovacionar "enlatados" norte-americanos em todas as áreas da indústria cultural, também deixou de perceber, por isso, a enorme riqueza que se esconde por trás de todo o "jeitinho brasileiro". Um pouco desse "jeitinho" já havia sido impresso no Séc. XIX nas páginas do livro Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida, numa tentativa inicial de desenvolver as verdadeiras raízes culturais do povo brasileiro. No entanto, isso só viria acontecer no século seguinte, durante os anos vinte, com o movimento modernista, especialmente estampado em Macunaíma, do antropofagista Mário de Andrade.

Mas fora da área literária, acessível somente a uma pequena parcela da população letrada, alguns de nossos parcos meios impressos de comunicação de massa apresentaram diversos personagens estritamente brasileiros. As Melindrosas, do grande cartunista J. Carlos e Juca Pato, de Belmonte, assim como vários personagens infantis que se incluíam em jornais e revistas de grande circulação entre diversos públicos da então recém instaurada Indústria Cultural Brasileira. Mesmo moldados inicialmente nos formatos de seus relativos europeus e norte-americanos, nossos jornais, revistas, e até anúncios publicitários (hoje reconhecidos mundialmente como um dos melhores), além de toda uma série de obras criativas em todo o setor gráfico, se tornaram também modelos culturais de conduta.

Muitos se recordam "daquela" revista que mamãe tanto lia nas férias, ou então daqueles anúncios publicitários de produtos que hoje não nos dizem mais respeito, mesmo por que foram substituídos por outros mais modernos. Outras pessoas ainda lembram (e muitas guardam em coleções) edições antigas da Veja, O Cruzeiro ou Realidade, além daqueles "gibis" encaixotados debaixo da cama ou no armário. Muitas, no entanto, sequer sabem o que foi uma Fon-fon ou um O Tico-Tico. E alguém, por acaso, já ouviu falar da Careta? Imaginem, então, o que baús empoeirados de algumas famílias poderiam nos apresentar: fotografias antigas, recortes de jornais, revistas com seus glamourosos anúncios de sabonetes com nossas mais belas atrizes, enfim, toda um gama de informações que nos remetem à cultura de um povo. O nosso povo.

Bem, ao evocarmos, nestes casos, o termo "cultura", poderemos relacioná-lo tanto às atitudes produzidas por uma determinada sociedade como aos produtos dela extraídos. Rico culturalmente, mas pobre em memória, o Brasil ainda precisa caminhar longos passos na manutenção dessa sua cultura. Dispomos hoje de diversos produtos que são reproduzidos pela Indústria Cultural, distribuídos às camadas sociais e que, muito ou pouco tempo depois, são esquecidos e jogados num limbo, muitas vezes sem retorno.

Semelhante ao que acontece com uma grande parte desses produtos culturais, nossa Imagem Gráfica (ou seja, os produtos gerados pelas artes de reprodução gráfica) também sofre com essa falta de um espaço na memória cultural brasileira. Centros culturais, museus e centros de memória, principalmente por estarem ligados a estruturas deficientes dos poderes federal, estadual e/ou municipal, estão encerrando suas atividades ou reduzindo, drasticamente, sua atuação na área, como podemos verificar, por exemplo, as atividades do Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, ou a própria Funarte, que ainda passa por sérias dificuldades causadas ora por má gestão, ora por total descaso de suas administrações.

Esses aspectos, junto com a falta de uma entidade que mantenha a memória da imagem gráfica brasileira, mostram a necessidade da criação de um órgão voltado para essa área. A partir dessa premissa, imaginamos um projeto de uma entidade, a qual chamaremos inicialmente de Fundação da Memória Gráfica Brasileira. Atuando como um órgão independente, essa Fundação teria como principal função a preservação da memória gráfica, por meio da aquisição, restauração, organização e catalogação de obras gráficas, cujos valores histórico e prático estariam vinculados às suas funções, técnicas, processos e linguagens envolvidas; autorias e datas de criação e produção.

Além disso, a Fundação funcionaria como um centro de cultura, promovendo e divulgando estudos e pesquisas teóricas e práticas; criando oficinas práticas e expondo seu acervo à comunidade, por meio de biblioteca e galeria de exposições próprias. Dentro da área gráfica escolhemos alguns temas, ligados a três departamentos de estudos e produção, que norteariam os trabalhos da Fundação, sendo eles: Grafismo, Fotografia e Editoração e Design Gráficos. Essas áreas específicas das artes gráficas seriam desenvolvidas de maneira a que a Fundação pudesse oferecer maiores recursos técnicos, teóricos e de conhecimento histórico a universidades, editoras e indústrias gráficas, as quais se associariam à instituição.

Os recursos necessários para a Fundação, a partir de sua constituição física, humana e funcional, seriam conseguidos por meio de parcerias com a iniciativa privada e universidades públicas e particulares. O retorno do capital investido está calculado para entre médio e longo prazos, já que a maioria dos serviços da Fundação será na área de catalogação e pesquisa.

Sendo o objetivo principal dessa Fundação a preservação da história da imagem gráfica no Brasil, assim como o incentivo a estudos teóricos e práticos sobre as linguagens envolvidas nos processos de criação e a divulgação e exposição de produtos históricos ou inéditos, cujos principais temas serão Grafismo - abrangendo as áreas de ilustração, desenho, história em quadrinhos e cartunismo; Fotografia, e Editoração e Design Gráficos - abrangendo áreas tais como a editorial (livros, jornais e revistas), embalagem, publicidade e cartazes. Haverá a necessidade da criação de alguns setores e serviços que farão parte da estrutura organizacional da Fundação, sendo eles os Departamentos Específicos, abrangendo as três áreas já citadas; os Núcleos de Apoio, tais como um de restauração, um de aquisição e um de divulgação, e setores de Serviços voltados à comunidade: uma Galeria de Exposição e uma Biblioteca Circulante.

Mais do que um projeto, isto é uma proposta de trabalho. Uma proposta de organização e desenvolvimento de um órgão que possa atuar junto a universidades e empresas do setor, assim como contribuir com a manutenção de nossa memória gráfica. Já possuímos um Projeto que deve ser discutido por outras pessoas ou entidades interessadas, a fim de formarmos um grupo de trabalho e discussão para mais idéias e propostas. Gostaríamos, então, de aproveitar este espaço, o qual consideramos importante, tanto pelas pessoas que dele participam, como das pessoas que navegam nele, para chamar sua atenção e propor a formação desse grupo. Acreditamos que esse tipo de organização se faz necessário hoje, para podermos resgatar um pouco dessa memória que tanto nos faz falta e que, com o passar dos tempos, fará ainda mais. Para aqueles que também se sentem assim, entrem em contato. Talvez com essa proposta possamos fazer a diferença nessa época de uma mortal amnésia cultural.



* Agnelo de Souza Fedel é jornalista e professor universitário. Além de ser especialista em Teorias e Técnicas da Comunicação e mestre em Comunicação e Mercado, ele também é colecionador de revistas, "gibis" e de outros produtos oriundos da Indústria Cultural, por isso um entusiasta das discussões sobre essa área.