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     FERNANDO FOGLIANO

Cidadania e as Asas das Borboletas

Por Fernando Fogliano*

Hoje gostaria de falar para o leitor sobre um livro chamado Global Intelligence and Human Development (Inteligência Global e Desenvolvimento Humano) de Mihai I. Spariosu. Nesse livro, o autor se mostra preocupado com o futuro da humanidade frente a desafios como a ameaça do terrorismo, a guerra nuclear, a degradação do meio ambiente, etc. Spariosu é da opinião de que nós precisamos trabalhar coletivamente no sentido de mudarmos as maneiras de interagir entre nós e com o meio ambiente. Você tem alguma idéia de como se pode obter essa mudança comportamental? O autor propõe que essa transformação do ser humano possa ser atingida por intermédio da educação.

Não é novidade para mais ninguém neste início de século XXI que a globalização é um processo irreversível. Porém ainda não surgiu uma estrutura conceitual, científico-filosófica, capaz de lidar com questões éticas numa escala global e, de permitir um desenvolvimento sustentado que beneficie a vida na Terra. Segundo Spariosu, essa questão pode encontrar um encaminhamento a partir do diálogo intercultural e da cooperação, através do estabelecimento de ambientes intelectualmente adequados para isso. Ou seja, precisamos de gente com educação a altura dos problemas do mundo para poder tratá-los da forma mais adequada.

Muitos concordarão com o autor de que a educação é uma ferramenta fundamental para que a humanidade tenha melhores perspectivas neste momento crítico, quando alguns autores fazem previsões sombrias sobre os nossos destinos, como é o caso de Joseph Tainter em seu livro The Collapse of Complex Societies (O Colapso das Sociedades Complexas) e de Jared Diamond em Collapse:How Societies Chosse to Fail or Succeed (Colapso: Como as Sociedades Escolhem o Sucesso ou a Decadência). Spariosu propõe que o conhecimento mais adequado para tratar das questões contemporâneas seja não reducionista, ecológico, vindo de terrenos científicos como a Teoria Geral de Sistemas. Complicado? Com certeza que sim! Porém sem o conhecimento de conceitos científicos sofisticados, dificilmente conseguiremos avançar nas questões pungentes como as elencadas acima. Para entendermos o mundo atual, necessitamos de sofisticação dos modelos e de uma educação sofisticada. O entendimento do significado e a aplicação desses conceitos científicos talvez sejam o melhor caminho para que se possa construir visão capaz de integrar homens e natureza, amalgamando ciências, humanidades e artes num processo de diálogo e cooperação.

Com o objetivo de introduzir o leitor nesse fascinante universo de idéias em que Spariosu se inspira, faço a seguinte pergunta: que relação existe entre a cidadania e as asas das borboletas? A resposta a nossa questão começa com uma história muito interessante de um importante meteorologista americano, Edward Lorenz. Ele trabalhava no desenvolvimento de seu modelo matemático para modelagem do clima quando num belo dia, na década de 60, testava seu modelo, recalculando uma série numérica que seu modelo havia gerado. Naquela época, o cientista tinha de esperar por horas até que os seus computadores realizassem as tarefas necessárias para produzir os dados. Para ganhar tempo, Lorenz iniciou uma segunda simulação de seu modelo a partir da metade de uma anteriormente realizada. Para simplificar mais ainda as coisas, Lorenz também reduziu o número de casas decimais considerando que isso não afetaria significativamente o resultado. Qual não foi sua surpresa ao verificar que, embora houvesse alguma coincidência entre a primeira e a segunda simulação no início dos cálculos, as trajetórias divergiam grandemente passado um certo número de iterações de cálculo.



Do ponto de vista da ciência clássica, não deveriam surgir grandes diferenças nos resultados. Porém Lorenz descobriu que os fenômenos climáticos não poderiam ser descritos classicamente. Foi assim que ele cunhou sua frase famosa que descreve o Efeito Borboleta como "o bater das asas de uma borboleta hoje, produz pequenas mudanças no estado da atmosfera de tal forma que, passado algum tempo, um furacão poderá devastar a costa da Indonésia". Uma importante lição pode ser aprendida com a descoberta do Efeito Borboleta. Ao contrário do que se poderia imaginar, pequenas interferências locais podem levar a grandes conseqüências sistêmicas, ou seja, na natureza os processos não são lineares e ocorrem de forma muito interligada.

Agora podemos tentar entender o que Spariosu entende por um modelo não reducionista ecológico da ciência oriundo da teoria geral de sistemas. O não reducionismo implica em olhar para a natureza e procurar descrevê-la sistemicamente, e não reduzi-la a uma superposição de partes isoladas, como se fosse um relógio. O pensamento reducionista não pode ser aplicado de forma bem sucedida sempre, principalmente quando estamos observando processos complexos, com muitas partes interagindo e com naturezas diversas. E por quê? Porque existem certas propriedades sistêmicas que não podem ser encontradas nos seus elementos constituintes básicos. Vejamos o cérebro e seus neurônios, por exemplo. Nossos pensamentos podem ser entendidos como processos que emergem de todos os neurônios trabalhando em conjunto em nosso cérebro, e não poderão ser encontrados num neurônio somente.

Não se assuste, caro leitor, com o aparente disparate do exemplo acima. Você deve estar se perguntando o que tem o clima e o efeito borboleta a ver com o cérebro. Comparações como esta são bastante possíveis nas ciências dos sistemas; este é talvez um de seus aspectos mais fascinantes.

O comportamento dos sistemas, apesar de suas diferenças, quer em composição ou natureza, apresentam padrões semelhantes. Essa propriedade tem o nome de isomorfismo (mesma forma). De acordo com a Teoria Geral de Sistemas, a existência de leis de estrutura similares em diferentes campos, torna possível o uso de modelos mais simples e mais conhecidos para descrever fenômenos mais complicados e de difícil tratamento. Através do isomorfismo, é possível transferir princípios de um campo do conhecimento científico para outro, não sendo necessário duplicar ou triplicar o descobrimento do mesmo princípio em diferentes campos isolados um do outro. Devido ao isomorfismo, os mesmos conceitos se aplicam a toda sorte de sistemas, como o cérebro, o tráfego de uma grande capital, uma rede de computadores, as sociedades humanas, etc. Através do isomorfismo, podemos concluir que o efeito borboleta não se aplica somente ao clima; os sistemas são geralmente muito suscetíveis a perturbações. Basta andar numa via de tráfego movimentado onde alguém teve um dos pneus de seu carro perfurado por um prego. As conseqüências que um simples evento como este produz podem ser enormes, um grande congestionamento, horas de atraso e irritação. E tudo devido a um pequeno furo num simples pneu. Esse é o exemplo quase que diário da hipersensibilidade dos sistemas a pequenas perturbações.

Agora podemos entrar na questão da cidadania e da educação, já que temos conhecimento suficiente para entendermos a proposta de Spariosu. A educação é responsável por nossa ação no mundo e a cidadania é o resultado do conjunto de nossas ações. Em outras palavras, cidadania é o comportamento do cidadão. Podemos, face aos novos paradigmas científicos, entendê-lo como um agente, parte componente de um grande sistema, neste caso um sistema social que tem a natureza como ambiente. As ações do cidadão repercutem no todo. Não importa a intensidade da ação, por menor que ela seja, pode levar as grandes conseqüências. Acredito que seja essa a principal mensagem do livro de Spariosu, a de que somos individualmente responsáveis por nossos bairros, cidades, países ou mundo em que vivemos. A idéia clássica de que somos incapazes de provocar grandes mudanças já não tem sustentação diante da lição de Lorenz. Se formos educados dentro desses novos princípios, desenvolveremos novos padrões comportamentais que beneficiarão a vida de forma sistêmica, isto é, planetária. As asas das borboletas podem nos ensinar uma importante lição que deveria estar presente em toda boa educação: Pensar global para a ação local, eis o que deveria ser o princípio norteador de nossas ações no mundo, ao menos se quisermos que ele venha a ser melhor no futuro. Cumprimente seu vizinho!



*Fernando Fogliano é Engenheiro Civil, Físico, com Especialização em Engenharia de Computação, Fotógrafo, Doutor e Mestre em Comunicação e Semiótica pela Puc de São Paulo. Professor de Fotografia Digital no Curso de Fotografia na Faculdade de Comunicação e Artes do Senac. Na mesma instituição desenvolve pesquisas em Imagem e Mídia.