:: institucional           :: projetos           :: serviços           :: sala de imprensa          :: parcerias          :: loja          :: contato     

CANAIS WOOZ

artigos
agenda cultural
artes visuais
cultura
cinema
dança
entrevistas
fotografia
internet
literatura
música
teatro
terceiro setor



Alberto Cataldi
Fernando Fogliano
Roseli Pereira
Valmir Junior



clique aqui e faça um cadastro para receber informações Wooz
     CULTURA

Para especialista, cultura é a chave para a transformação social

Por Daniele Próspero

Com o crescente número de projetos sociais que se espalham pelo país, quais são aqueles que realmente conquistam bons resultados? Na opinião de Lala Deheinzelin, que atua há mais de 30 anos na área cultural, presidente da produtora Enthusiasmo Cultural, e consultora na área para o terceiro setor, são as organizações não-governamentais que trabalham justamente com cultura é que conseguem provocar um impacto maior.

Prova disso, segundo ela, seria o fato de que cerca de 80% das entidades vencedoras de grandes prêmios e concursos lançados por instituições como Itaú Social, Instituto Ayrton Senna e Fundação Abrinq, são organizações que atuam com a cultura, pensada esta não somente em linguagens artísticas, o que ocorria há alguns anos, mas sim cultura num sentido amplo, como saberes tradicionais, artesanato, entre outros. Segundo a especialista, isso se deve ao fato de que as ações só conseguem resultados efetivos quando são sentidas realmente pelas pessoas e, em sua opinião, a cultura permite isso.

"Somente através da cultura poderemos mudar o mundo. Todas as escolhas que fazemos dependem dela. Ela funciona como óculos e como espelho de como vemos o mundo. E a maneira de mudar este mundo só depende de nós, de como nos colocamos frente a ele: como vítimas ou como co-autores?" lembrou Lala, durante a realização do curso Cultura e Terceiro Setor, promovido pelo Instituto GTECH e o Instituto Pensarte, em São Paulo.

Segundo Lala é preciso parar para pensar porque a situação atual no mundo é tão caótica, onde foram gastos, por exemplo, em 1997, 750 bilhões de dólares com despesas militares, sendo que é preciso 300 milhões para erradicar a varíola, ou o fato de que são necessários 19 bilhões de dólares para acabar com a fome, o que equivale a 55% do que é gasto por ano nos EUA em dietas para perder pesos. Ela destacou que é a construção da cultura que cria padrões, valores e modelos, fazendo com que as pessoas valorizem determinadas coisas ou não. "Ou seja, dinheiro, conhecimento e pessoas temos, mas não temos desejo, não temos escolhas. E se não existe vontade, não existe ação e, portanto, não temos solução", acredita.

De acordo com a especialista, a cultura passou a ser vista com maior atenção nos últimos anos, com uma série de debates a respeito. O primeiro marco histórico seria a Conferência de Políticas Culturais, na África, em 1975. A partir de então, as discussões passaram a pensar a cultura com uma forte ligação com o desenvolvimento. A ONU lançou a Década Mundial para a Cultura e Desenvolvimento, de 1988 a 1997, além de formar a Comissão Mundial de Cultura e Desenvolvimento. Mais recentemente, em junho de 2004, ocorreu o 1º Fórum Cultural Mundial, sendo que a cultura foi dada como prioridade na Unctad XI (Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento), também na mesma data. Já em abril deste ano, foi realizado no Brasil o 1º Fórum das Indústrias Culturais.

O próprio Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) define que "desenvolvimento humano é o processo de ampliação de escolhas". Esse processo, destacou Lala, tem duas fases, a de formação e a da expressão das habilidades conquistadas. "A cultura, portanto, é matricial, ou seja, a partir da qual a sociedade é criada. E o desenvolvimento seria como ela se dá no mundo. E ela não é um setor de atividade, mas sim se relaciona com todos os outros. É transversal", apontou a especialista.

Lala lembrou ainda que a era da informação pede tecnologias culturais, ou seja, tecnologias que atuem em um nível intangível, como a diversidade cultural, e multidisciplinar. Seria, portanto, uma nova economia da experiência, onde o que vale não é somente mais a matéria-prima, os produtos e serviços, mas sim também as experiências acumuladas e a transformação. Estes dois últimos elementos é que farão a diferença, pois, tudo está muito parecido. "Hoje, sobrevivência e soberania são culturais e não militares", apontou Lala.

Desta forma, a cultura é estratégica em diversos campos. Na área de trabalho e renda, por exemplo, ela gera emprego e renda; cria novas maneiras de se trabalhar - questão de gênero, espaço, micros e pequenas empresas -; impacta outras atividades econômicas; e tem baixo custo por posto de trabalho gerado. Já na área social e de educação, a cultura qualifica o capital humano; potencializa as trocas sociais; eleva a auto-estima e reforça laços de identidade; estimula a cidadania; e desenvolve competências como cooperação, criatividade e inovação. Na área econômica, a cultura se torna um diferencial competitivo de um país; tem grande potencial de crescimento; e é um recurso que se renova e se multiplica no uso, o que não ocorre com os outros.

Na opinião de Lala, o Brasil tem ótimas experiências e atividades culturais sendo desenvolvidas, devido à diversidade cultural existente, que precisam ser valorizadas e até exportadas como exemplo para o mundo. O problema, no entanto, de acordo com a especialista, é que a cultura acaba sendo vista, às vezes, como a última coisa a ser pensada depois de tudo resolvido. "O Brasil é a diferença no mundo todo e a gente não sabe disso", ressaltou. Prova disso, é que o próprio Ministério da Cultura do país tem recursos muito escassos para desenvolver políticas de impacto.

Mas, para a especialista, é preciso apostar nestas experiências, pois a cultura permite que a pessoa amplie sua visão de mundo e percepção, trazendo muitos benefícios, claro que não imediatos. "Quando você muda o indivíduo, você muda o todo, porque tudo está relacionado. Precisamos começar a mudar de dentro pra fora", concluiu.