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     CINEMA

Em Busca da Terra do Nunca


Valmir Junior*

Indicado a 7 Oscars, essa é uma história muito gostosa e prazerosa de se assistir e mais uma das cinebiografias que estão sendo lançadas em 2005 aqui no Brasil. Inspirado na peça de Allan Kee, o roteiro de David Magee privilegia o toque de mágica, a sensação de estar sempre atravessando a ponte que liga o mundo inventado e o mundo "real".

Somos apresentados ao inventor do mais-do-que-famoso personagem Peter Pan: J. M. Barrie (Johnny Depp). Barrie é um daqueles adultos que não cresceram (o que é reforçado exatamente com o fato de ter escrito Peter Pan como uma criança que nunca crescia); dramaturgo renomado, se vê precisando de inspiração para escrever outra peça para o produtor Charles Frohman (Dustin Hoffman), já que a peça recém-estreada fora um fracasso. Além disso, Barrie tem problemas com a mulher, Mary (Radha Mitchell), pois essa é muito pé no chão, elitista e não viaja com o escritor, nem sequer o ajuda a encontrar inspiração. É aí que Barrie conhece a família Llewelyn Davies. A mãe viúva Sylvia (Kate Winslet) leva as crianças para brincar no parque, entre elas Peter (Freddie Highmore). E nas brincadeiras com as crianças que Barrie descobre a obra-prima que o tornou famoso.

O filme ainda resvala no toque melodramático de certas situações, como a doença de Sylvia, o problema da mãe de Sylvia (Julie Christie), que não entende sobre o fato de Barrie querer sempre estar com as crianças e o conflito de Barrie com a mulher Mary, que fica à deriva enquanto o marido brinca com a família Davies. Mesmo com os artifícios levando a história adiante, é fascinante ver Johnny Depp dando vida à Barrie (não foi à toa que ele foi indicado ao Oscar novamente), com muita sutileza na caracterização, ao contrário do que vimos o ator fazer em "Piratas do Caribe" (outra indicação ao Oscar).

Marc Forster conduz o filme numa cadência suave e apesar do certo tom melodramático aparente na narrativa, ainda sim, a sutileza trata de aparar as arestas e nos levar por uma história muito bela. Um cuidado muito especial foi o fato de Forster não permitir ao espectador que pudesse ver em Barrie uma figura pedófila, já que seria estranho entender a fascinação pelos garotos simplesmente por gostar ou por se querer escrever uma peça. Claramente, vemos que Barrie se divertia e fugia da vida estafante ao lado de Mary ao se encontrar repetidamente com a família Davies. E mesmo que o interesse de Barrie na infância e seus jogos pudesse ser considerado algo não apropriado para os adultos, a mensagem aqui é clara: ser adulto não significa perder a alegria ou se esquecer de ter prazeres semelhantes ao de uma criança. Afora tudo isso, havia o nascimento de um conto para crianças que até hoje se preserva nas memórias de muitos: Peter Pan.

Mesmo mostrando um Peter Pan espelhado em um Peter Llewelyn Davies (Freddie Highmore) de certa forma um pouco distante do Peter Pan que conhecemos, podemos perceber que J. M. Barrie foi perpicaz o suficiente para tomar para si aquela família como entes queridos e se aproximar de suas aventuras a ponto de colocá-las no papel com grande paixão, homenageando o Peter real com o Peter fantástico, a Sylvia real com Sininho e cada um dos garotos perdidos com os irmãos de Peter Pan.

"Em Busca da Terra do Nunca" traz um mundo delicioso, sutil, encantado, em que acreditamos do começo ao fim. Uma aura de fantasia na noite do Oscar, em meio a lutas de boxe, aviões e adultos desajustados. O crédito é de Barrie, por sua aventura mágica; de Depp, pela atuação inteligente e leve e de Forster, que conseguiu dar leveza a uma história que certamente seria tomada como pedófila ou leviana nas mãos de outro diretor menos sensível ou insensível (o que me levaria a questionar: como podem existir diretores insensíveis? Mas sim, eles existem).

Ainda que não seja inteiramente correto a respeito do que ocorreu na verdade (um exemplo é que o marido de Sylvia não morreu e assistiu a estréia da peça, junto com ela), nós conseguimos encontrar a Terra do Nunca neste filme (aliás, finalizando meus parênteses desta resenha, o título do filme é "Finding Neverland", ou seja, "Encontrando a Terra do Nunca" e não em busca dela, como o título em português sugere). A magia do filme nos faz refletir sobre as crianças e nosso ponto-de-vista em relação a elas como adultos que somos, nos incita a entender tudo que há por trás da história de Peter Pan e, finalmente, o mais importante: nos transporta para dentro dele. A partir desse momento mágico, qualquer filme é gostoso demais.

"Em Busca da Terra do Nunca" - "Finding Neverland" (2004) - Dir: Marc Forster. Elenco: Johnny Depp, Kate Winslet, Julie Christie, Radha Mitchell, Dustin Hoffman, Freddie Highmore, Joe Prospero, Nick Roud, Luck Spill e outros . Roteiro: David Magee, inspirado na peça de Allan Knee. Estreou em 6 de Fevereiro.



*Valmir Junior
"Paulista, 23 anos, virginiano e doido por chocolate. Esse é Valmir Junior, um ator amador (ou amador ator?), fã de teatro (claro), filmes, exposições e outros assuntos relacionados à Arte (além de ser um bom garfo também). É a primeira vez que resenha para um site e dá medo nele, mas o desafio já foi aceito, então: "Merda!!!" (Não levem a mal! É "Boa Sorte" no Teatro)."