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     Cinema

STAR WARS: EPISÓDIO III - A VINGANÇA DOS SITH


Valmir Junior*

Irei fazer diferente. O filme de George Lucas vem sendo considerado por suas características mercadológicas e não por suas características artísticas. Em outras palavras, o sucesso do filme e o que ele representou para a indústria dos blockbusters estão surpassando o valor artístico do trabalho. Prefiro me ater ao valor artístico dentro do que o filme se propõe: uma saga de capa e sabre-de-luz (e não "capa y espada").

A Vingança dos Sith é o terceiro da saga que, como a essa altura todos devem saber, é formado por 6 episódios. Os primeiros três: Uma Nova Esperança (1977), O Império Contra-Ataca (1980) e O Retorno de Jedi (1983), na verdade tratavam-se dos episódios IV, V e VI da saga. Os três episódios primeiros vieram mais tarde: A Ameaça Fantasma (1999), O Ataque dos Clones (2002) e este episódio "final" A Vingança dos Sith.

A saga se refere à saga de Anakin Skywalker (e não de Luke Skywalker, como muitos pensavam), o menino-piloto, nascido espontaneamente da mãe (como Jesus Cristo nasceu de Maria), dotado das características inerentes a um cavaleiro Jedi. Os Jedi são guerreiros altruístas que sabem utilizar a Força - poder regente das coisas do Universo - e equilibrá-la para coexistir no Bem. Porém, Anakin se deixa levar pelo lado sombrio da Força e se torna Darth Vader, que mais tarde enfrentará o próprio filho, Luke Skywalker, e alcançará a redenção.

Temos um herói aqui: Anakin. A saga seria mais direta se fosse denominada Ascensão e Queda de Anakin Skywalker. Este é o mote de toda a história. Anakin é o típico herói trágico que comete um erro de julgamento, age de acordo com o que julgou e mais tarde reconhece o erro, pagando de alguma forma. No caso, com a própria vida. O reconhecimento aqui acontece somente em O Retorno de Jedi, claro, o ato final. Eis que faltava o miolo da história: como Anakin se tornou Darth Vader? É o que A Vingança dos Sith responde.

Os episódios I e II estavam trazendo mais informações sobre o universo de Star Wars, mas muito se reclamou da aura menos mágica e aventureira da série dita clássica (os episódios dos anos 70 e 80). Particularmente, os episódios preparavam a vinda deste terceiro filme e eram mais políticos do que de aventura. O terceiro chega para redefinir a saga.

O aprendiz Anakin Skywalker (Hayden Christensen) e seu mentor Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor) tentam resgatar o chanceler Palpatine (Ian McDiarmid) das mãos do Conde Dooku (Christopher Lee). Depois do resgate mirabolante, Palpatine indica Anakin para o Conselho Jedi, o que o transformaria automaticamente em Mestre Jedi, porém o Conselho não aprova a indicação, permitindo ao jovem assistir às sessões, mas não se tornar um mestre. Isso ocorre porque o Conselho, formado por Mestre Yoda, Mace Windu (Samuel L. Jackson), Obi-Wan e outros, não confia em Anakin devido a sua proximidade com o chanceler.

Em contrapartida, o Conselho designa uma tarefa a Anakin: espionar o político Palpatine. Este papel de agente duplo de Anakin com o Conselho e com o chanceler planta uma semente de dúvida na cabeça do jovem, que ainda tem de lidar com as pressões de ter de viver um relacionamento secreto com a senadora Padmé Amidala (Natalie Portman), já que um Jedi não pode se casar nem ter filhos. E ela está grávida. Para terminar a confusão, Anakin tem sonhos terriveis, com sua amada morrendo depois do parto e, como o que os Jedi sonham se torna realidade, ele se exaspera na tentativa de salvá-la. É então que Palpatine diz a que veio e mostra sua real faceta, manipulando o jovem e trazendo para si o domínio da República, transformada logo em Império.

A Vingança dos Sith redefine a hexalogia na medida em que mostra a falta de condescendência dos Jedi com a situação de Anakin, sem entender o que se passa com ele, e o conseqüente acolhimento de Palpatine ao guerreiro. Fica claro que os Jedi erraram ao não se atentarem ao fato de que muitas ebulições ocorriam na mente do jovem guerreiro e era preciso sanar as dúvidas, era preciso atenção, ainda mais pelo fato de que ele se destacava como um jovem poderoso que, no lado negro da Força, se tornaria uma potência avassaladora.

Uma outra redefinição do Episódio III é mostrar o lado negro como apenas um dos lados da moeda dentro da guerra. Lucas optou por mostrar que era apenas um ponto de vista, como diz Palpatine para Anakin. Para os Sith, o Mal para os Jedi era seu Bem, assim como o Bem para os Jedi era o Mal para os Sith. Pontos-de-vista. Uma das cenas mostra um infanticídio (não falarei mais do que isso sobre essa cena), tentando mostrar a crueldade dos atos, mas é possível pensar: quantas crianças inocentes morrem devido aos ataques norte-americanos no Iraque e quantas crianças inocentes morreriam se os EUA fossem atacados por iraquianos? Afinal de contas, quem é bom e quem é mal aqui? A certa altura, o novo Imperador clama: "enfim, teremos paz". Apenas pontos-de-vista mesmo. Essa maturidade redefine a série toda.

Entre lutas de estilo e muito jogo político, A Vingança dos Sith reúne quase todas as características dos filmes da trilogia clássica, como aventura e mágica, além da aura política dos três episódios da nova trilogia, o que possiblita um ganho. Outro ganho é mesmo ver como Palpatine consegue ludibriar o jovem Skywalker e ver que sua aceitação em ter um novo mestre advém do fato de ele querer salvar Padmé. Este é um outro assunto do filme: uma mulher no meio do caminho de um guerreiro Jedi pode redefinir seu rumo. Os cavaleiros Jedi, nesse aspecto, se assemelham à Igreja Católica e seu celibato. O filme ecoa nesse assunto pelas entrelinhas, o que é interessante dentro da filmagem de George Lucas. Como querendo dizer que o amor pode levar um personagem ao caos, mas também à redenção (conforme vemos em O Retorno de Jedi).

É claro, não podemos achar que Anakin fica alheio a tudo o que acontece e que é culpa dos Jedis, ou de Palpatine ou até mesmo de Padmé. Anakin se revela uma personagem imatura, que não consegue ver além do que as coisas se mostram. Incapaz de escolher entre o que é certo e o que é errado, dentro daquilo a que ele mesmo se propõe, a personagem mesmo acaba percebenod seus erros, como quando diz: "O que eu fiz?" quando age em prol de Darth Sidious, mas logo após aceitando o rumo seguido, para salvar Padmé, mergulhando na confusão que ele mesmo instalou. Sem dúvidas, suas escolhas o levam ao caminho de Darth Vader.

Apesar de toda essa profundidade, Lucas ainda se apóia em falas rasas (característica típica de seus roteiros), às vezes irrisórias, como "Eu prometo que não morrerei no parto" e sonoros "nãos", como proferidos em ampla escala na trilogia O Senhor dos Anéis, porém ali, mesmo sendo um clichê, eram melhor empregados por Peter Jackson, sem empobrecimento da narrativa. Outro ponto fraco é o anti-personagem de Christensen. O ator adotou uma postura muito unidimensional para Anakin, tornando a personagem rasa, o que, com certeza, não é requerido para uma personagem trágica. Christensen consegue transpassar a confusão e a sensação de escolhas erradas, mas é só isso. Não há profundidade. Lá pelas tantas, a personagem é apenas raiva e mágoa, atordoada pelo lado negro da Força, mas nada disso é explorado por Christensen. Apenas McGregor e McDiarmid oferecem interpretações mais completas.

Outro cansaço que Lucas impõe aos espectadores são as tomadas puramente gráficas dos ambientes, como se fossem tomadas aéreas dos locais, querendo dizer onde a ação que vem em seguida vai se passar, se esquecendo que é necessário apenas quando o local influencia no rumo da história, ou quando algum detalhe do local oferece um signo a mais na interpretação da história, como o Senado, por exemplo, que significa a explosão política que ocorre no momento.

Com mais acertos do que erros Lucas consegue engrandecer o filme, mas é claro que isso acontece devido à carga dramática que este filme traz em relação aos outros, e também por ele estar mais intimamente conectado com a trilogia clássica, mais bem recebida por fãs. Talvez, como um filme sozinho, à parte da saga, A Vingança dos Sith não sobreviveria a muita análise. Porém, dentro do contexto de Star Wars, o filme é engrandecedor e redefinidor de toda a história, tornando este Guerra nas Estrelas um espetáculo interessante.

Ainda conto com o dia em que Lucas vai amadurecer como diretor, pois imaginação ele tem de sobra.


Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith - "Star Wars: Episode III - The Revenge of the Sith" - EUA, 2005. De: George Lucas. Elenco: Hayden Christensen, Ewan McGregor, Ian McDiarmid, Samuel L. Jackson, Natalie Portman, Christopher Lee e outros.Roteiro: George Lucas. No Brasil: estreou em 20 de Maio de 2005.



*Valmir Junior
"Paulista, 23 anos, virginiano e doido por chocolate. Esse é Valmir Junior, um ator amador (ou amador ator?), fã de teatro (claro), filmes, exposições e outros assuntos relacionados à Arte (além de ser um bom garfo também). É a primeira vez que resenha para um site e dá medo nele, mas o desafio já foi aceito, então: "Merda!!!" (Não levem a mal! É "Boa Sorte" no Teatro)."