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     Cinema

Reis e Rainha


Valmir Junior*

Arnaud Desplechin é um dos poucos cineastas franceses que diz abertamente que gosta de seguir a nouvelle vague. Não que ele siga fielmente, mas em seu novo Reis e Rainha há muito do movimento cinematográfico francês da década de 60 que privilegiava o homem contemporâneo e a experimentação da linguagem cinematográfica, com grande alteração no sistema de produção e o enfoque em temas polêmicos.

Muito se falou a respeito das virtudes dessa película. Não foi à toa. O filme ganhou uma série de prêmios por aí afora, entre eles: Seleção Oficial do César Awards, prêmios Louis Delluc e Sindicato dos Críticos Franceses de Cinema para o diretor Desplechin, além de Melhor Ator para Mathieu Amalric. Mesmo assim, não quer dizer que não tenha lá seus defeitos. Um deles é a duração. As duas horas e meia de projeção, um certo momento, cansam.

Desplechin conta duas histórias diferentes. Uma é a de Nora (Emanuelle Devos) e a outra é de Ismael (Mathieu Amalric). Nora é dona de uma galeria de arte em Paris. Ela viaja a Grenoble para visitar o pai e o filho, que está em férias com o avô. Porém, ela descobre que o pai possui um câncer em fase terminal e morrerá em alguns dias. Em outro instante, Ismael, ex-namorado de Nora, é internado num hospital psiquiátrico e luta para retomar a sua vida normalmente. As histórias se cruzam quando Nora pretende fazer de Ismael o pai adotivo de seu filho.

Em termos, esse é o mote da história. São entrecortes das vidas de cada um. A história decairia facilmente para o melodrama se não fosse a construção da narrativa, com suas múltiplas ramificações e a edição que mostra instantes de interpretação diversos dentro de uma mesma cena. Desplechin escolhe retirar o melhor de seus atores e evidenciá-lo no filme. Se uma cena teve seis tomadas para se chegar a um resultado bom, mas determinada interpretação foi mais inspirada num determinado instante nessa ou naquela tomada, o diretor não se faz de rogado. Ele coloca cada fragmento inspirado e constrói a cena, sem medo de ser feliz. E é nesse truque que reside a força do filme. Isso nos prende. Os atores nos prendem. E o melodrama não toma lugar.

O filme nunca quer provocar catarse, não quer expurgar a dor de quem assiste, não quer identificação. Quer distanciamento. E o espectador se sente longe o bastante para não se importar com o que acontece com as personagens - analisa o que vai acontecendo. Porém, quem é acostumado a entrar direto de alma no filme, sem expectativa de racionalização, acaba não conseguindo. Isso pode se tornar um obstáculo. Como para qualquer filme que se diga "de arte". Então a duração, tanto para quem racionaliza como para quem gostaria de se sensibilizar, é um pouco a mais. Desplechin exagera na mão e a racionalização pode se perder. Mas para quem consegue sobreviver, um vazio se instala. Racionalizou-se e pronto. É daqueles filmes de sair do cinema com a cabeça vazia. Não há sensação de alívio. Nem sensação de satisfação. É bem vago mesmo. E esse "vago" toma conta rapidamente. A reflexão vem forte e ai daqueles que não se cuidarem.

E Desplechin consegue esse efeito porque despe seus atores à frente de seu público. Devos se entrega, assim como Amalric, responsável por muitas das cenas engraçadas e pueris. O mal-estar de Nora é premente. O de Ismael também. A sensação de ambos de não conseguirem se ajustar ao mundo, um por ser aparentemente louco e a outra por não conseguir amar plenamente, sempre presa a seu passado egoísta. Afinal, quem é mais ajustado? O egoísta que tenta levar consigo algo a mais através da prisão num hospital psiquiátrico ou a egoísta que não aprende nem mesmo quando livre, porém presa na própria armadilha de seu amor?

Quando o filme nos pega de jeito, o pensamento vai longe. Coisas desses filmes. A gente pensa que gastou algumas horas e se vê completamente cheio de idéias e pensamentos. Mesmo que metragem seja a mais, o mérito de Reis e Rainha é sobreviver ao fácil apelo da catarse. Em épocas de expurgação, ainda há quem acredite que é melhor partir para a ação; nesse caso, a ação racional.


Reis e Rainha (Róis et Reine). França, 2004. Direção: Arnaud Desplechin. Elenco: Emmanuelle Devos, Mathieu amalric, Catherine Denéuve, Maurice Garrel, Nathalie Boutefeu, Magalie Woch, Hyppolyte Girardot e outros. Duração: 2h30min. Estreou em 9 de novembro de 2005.



*Valmir Junior
"Paulista, 23 anos, virginiano e doido por chocolate. Esse é Valmir Junior, um ator amador (ou amador ator?), fã de teatro (claro), filmes, exposições e outros assuntos relacionados à Arte (além de ser um bom garfo também). É a primeira vez que resenha para um site e dá medo nele, mas o desafio já foi aceito, então: "Merda!!!" (Não levem a mal! É "Boa Sorte" no Teatro)."