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     CINEMA

PAIXÃO DE CRISTO
Fonte por um dia


Victor Gentilli

Tudo indica que A Tribuna, de Vitória (ES), saíra na frente. Convidara o arcebispo, políticos de destaque e outras personalidades religiosas para uma sessão especial do filme Paixão de Cristo, de Mel Gibson, que tanta polêmica vem trazendo. E tinha uma pauta carregada, que merecia as duas primeiras páginas do jornal, dedicadas a reportagens especiais. Coisas de tablóide.

A Gazeta, jornal concorrente, corria contra o relógio e convidava dois padres, dois pastores evangélicos, uma líder espírita e dois judeus. Fui escolhido para ser um dos judeus. Jamais escondi, mas igualmente jamais ostentei tal atributo. Filho de pai e mãe judeus, fui circuncidado na sinagoga e cumpri o ritual religioso dos 13 anos. Pronto. Sem maiores problemas de fé nas coisas (terrestres ou não), fui tocando a vida.

Há mais de 20 anos em Vitória, nunca procurei nem fui procurado para qualquer iniciativa ou atividade para a qual esta minha identidade judaica tivesse algum interesse maior. Até porque não existem judeus em Vitória. Colega e amigo, o editor do caderno 2 de A Gazeta era um dos poucos que, em poucas ocasiões, trocava frases simpáticas sobre meu judaísmo.

Até aparecer Mel Gibson.

Acompanhava com interesse a polêmica em torno do filme de seu filme sobre as últimas 12 horas da vida de Cristo. Movia-me exclusivamente a polêmica: em condições normais, o filme não me interessaria. Diante do terrorismo, da intolerância e do crescimento do anti-semitismo no mundo lia curioso os comentários, as resenhas, as críticas ao filme.

Os problemas da fé sempre estiveram num plano secundário na minha vida. Não entendo, não conheço e não tenho maiores interesses pela história de Jesus Cristo. Interessei-me e comprei O Evangelho segundo Jesus Cristo, do escritor português José Saramago, único Nobel de Literatura em nosso idioma. Quem sabe não fora a força do catolicismo em Portugal que inspirara o ateu Saramago a escrever sobre Jesus? O livro continua guardado. Até agora ainda não achei motivação para enfrentar a leitura. Sei que Frei Betto também escreveu um romance-biografia sobre Jesus Cristo, humanizando-o: Entre todos os homens. Este nem comprei, sequer folheei. Mas é esta a imagem que este judeu-ateu tem de Jesus: um bom homem. Registrei na memória a existência do livro e pronto: saberia onde buscar se a vida me solicitasse maior conhecimento de Cristo.

Minhas informações sobre Jesus e sua morte vinham do período pós-Concílio Vaticano II. Sabia que, no passado, judeus evitavam sair às ruas nos sábados de Aleluia, para evitar transtornos nas cerimônias de "malhação de Judas". As festas até permanecem, mas as vítimas agora são mais diversificadas.

Vez ou outra, questões de fé me intrigavam. Li, com interesse e curiosidade, a encíclica Fides et Ratio que o papa João Paulo II fez divulgar para o mundo em todas as línguas. Não gastaria dinheiro para ler. Mas como o jornal O Estado de S.Paulo publicou a íntegra em português (numa época em que o conteúdo de sua edição online e era aberto), li a versão saída da minha própria impressora. Certezas e dúvidas aqui e ali se embaralhavam mas, pelo que compreendi, até que a Igreja Católica soubera equilibrar-se bem naquele documento papal.

Li também, desta vez com gosto e interesse, a edição brasileira da polêmica entre o pensador italiano Umberto Eco e o auxiliar para questões de fé do Vaticano, Carlo Maria Martini. O título da obra foi muito feliz ("In cosa crede chi non crede?") e sua tradução também: Em que crêem os que não crêem? Editado pela Record, na ocasião do lançamento tive a impressão que o livro passou despercebido da imprensa. Merecia maior destaque.

Foi esta pessoa, para quem a religião ou a identidade étnica são coisas secundárias que esteve no cinema no dia 19 de março de 2004, a convite do jornal A Gazeta.


Aflito e desconfortável

Aceitei, sem grandes hesitações, o convite do jornal A Gazeta para assistir ao filme numa sessão especial. Foi tudo às pressas: o convite chegou já no final da manhã: a sessão seria às 14h. Por sorte, num cinema próximo. Hoje, vejo que a não-hesitação já se revelava contaminada com alguma coisa assemelhada a receio: afinal, sei como os jornais trabalham. E sei também que, neste caso, o jornal jamais deixaria de informar seu esforço por conseguir a opinião de um judeu. Mesmo que meu nome não saísse impresso, algo como "convidado, preferiu não comparecer" seria o álibi – por todos os aspectos legítimos – da posição plural do jornal. Aliás, A Tribuna procurou uma "pastora judaica" que não compareceu e registrou suas alegações, além de informar que ela não pretende ver o filme.

Por decisão própria, não iria. Tudo ficaria mais fácil, mais confortável, mais simples. Poderia até alegar (com razão) as dificuldades de agenda que tive que superar para aceitar o convite. Mas não estaria escapando de um momento especial para ver e poder julgar (com a autoridade dos meus atributos étnicos)? Não estaria sendo omisso?

Sabia que não estava preparado, que não seria um debate entre iguais. Afinal, meus companheiros de aventura eram especialistas nos Evangelhos; do meu lado, conheço muito menos de catolicismo e judaísmo do que a grande maioria dos leigos.

Sem preparação, sem conhecer catecismos, com pouquíssima experiência ou vivência religiosa, fui.

Havia uma outra questão a me intrigar. Nunca neguei meu judaísmo, mas jamais defendi qualquer tipo de sionismo. Não o considero uma forma de racismo, a questão é de outra natureza e não cabe aqui desenvolvê-la. Vale informar que uma curiosidade estranha me estimulava. Qual o significado de uma obra acusada de anti-semita oriunda de setores conservadores? Isolada, teria um sentido relativamente inofensivo, com espasmos do tradicionalismo cristão expresso por associações tipo TFP. Mas ela tinha o aval do Papa! Lideranças religiosas católicas não se furtavam em rasgar elogios ao filme.

Envolvido com tantas perguntas, as questões mais estéticas do filme passavam para um plano secundário. Sinceramente, vi uma obra de arte. Senti aflição e desconforto. Tais sentimentos podem não expressar as funções religiosas (trato aqui do lugar-comum onde à religião cabe "confortar os aflitos"), mas em certa medida são funções da arte.

Ia assistindo e registrando na memória opiniões a expressar.

Ao final não falei coisas muito interessantes. Mas falei.

Deixei claro meu temor de que a obra pode fazer ressurgir o medo entre judeus nas festas de sábado de Aleluia. No dia seguinte, esta minha frase não estava nos jornais, mas o concorrente A Tribuna apresentava o arcebispo de Vitória, afirmando tratar-se de "ótimo filme para ver na Páscoa". O temor teria sido tão injusto?

Deixei claro inúmeras vezes que jamais defenderia a censura. A frase até apareceu. Em São Paulo, o sr. Jacob Pinheiro Goldberg defendia a censura ao filme por seu anti-semitismo. A defesa da liberdade de expressão deixava claro que eu não concordava com a abordagem do filme. Fiz sérias ressalvas e afirmei claramente que uma narrativa não pode ter base real.

Percebi que o termo "realidade" naquele momento não se referia à verdade histórica. Se o relato do filme coincide com o relato dos Evangelhos, então o filme é "realista".

Por fim, fui duro ao extremo. Lembrei que Jesus, em seus últimos momentos, pediu "Pai, perdoa, eles não sabem o que fazem". E finalizei, agressivo: "Mel Gibson não perdoou".

Não sei se não fui compreendido ou se preferiram atenuar as polêmicas.

Continuo aflito e desconfortável.



Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br