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     CINEMA

Nossa Música


Valmir Junior*

Na "Divina Comédia", de Dante Alighieri, o próprio Dante era guiado pelo poeta romano Virgílio por três reinos: Inferno, Purgatório e o Paraíso. Tal e qual o poeta italiano, em seu último filme - "Nossa Música" - Godard se faz de Virgílio e leva os espectadores para sua viagem dentro desses mesmos três reinos, porém pelo prisma multi-facetado do cineasta francês. O título do filme não é à toa: o filme entoa a nossa música humana, nossa inerente contradição.

Godard esmiuça o Inferno, o primeiro reino, com imagens da guerra - algumas são imagens reais e outras são imagens retiradas de filmes - ilustrando a barbárie dos conflitos, seus produtos e sub-produtos e o que o ser humano é capaz de fazer por seus interesses. Logo após, aparece o Purgatório, mais uma vez um reflexo de nossas próprias ações (assim como a guerra) e nesse sentido é notável a filosofia empregada, repleta de aforismos e aparentemente sem lógica, mas investindo pesado na dissonância que há na comunicação entre os povos. Maior ainda é dissonância entre as pessoas, sem distinção étnica. Finalmente, o último reino - o Paraíso - parece ser (e digo "parece", pois Godard não deixa a certeza tomar conta do filme) uma metáfora irônica sobre o momento histórico em que vivemos: a hegemonia norte-americana sobre o mundo atual.

O centro do filme é o Purgatório, que faz a ponte entre o Inferno e o Paraíso (como na obra de Alighieri). O Purgatório é onde vivemos hoje. Diversas personagens se encontram e reencontram, como a personagem do próprio Godard que vai a Sarajevo ministrar uma palestra sobre o cinema, suas imagens e símbolos. A aula imputa uma série de questôes para o espectador. Ainda sim, há espaço para personagens como a jornalista israelense que sonha com o fim da questão Israel X Palestina, o tradutor e os índios norte-americanos. O Purgatório é o produto anterior e posterior ao Inferno, a guerra, onde o interesse e idéia de um buscam eliminar os do outro. A certa altura, uma frase chama a atenção: "Matar um homem por uma idéia não é matar por uma idéia, mas matar um homem".

A dissonância é clara e intensa entre as pessoas. Elas não se comunicam direito, apenas expressam suas interpretações filosóficas, numa profusão de idéias, além de se atrapalharem com toda a riqueza de línguas existentes e não chegarem a um consenso entre si, como na cena em que dois índios tentam falar com um homem, que, por sua vez, sequer esboça reação, enquanto pessoas trazem livros e despejam numa pilha enorme. Outra cena interessante é o close nos rostos das pessoas durante a palestra da personagem de Godard, ilustrando ainda a inaptidão de alguns e a abertura de outros a ouvirem o que um terceiro tem a dizer a respeito de determinado assunto. Em outro momento, o palestrante mostra um conceito interessante: quadro e contra-quadro - um conceito da Imagética - onde uma imagem sempre se opõe a outra parecida, fazendo paralelos entre o real e o imaginário, mostrando que a verdade tem dois lados, sempre, e que por isso nós estaríamos condenados eternamente ao conflito. Eu poderia ainda citar dezenas de outras situações do filme que inspiram diversos sginificados e o tornam interessante, mas se eu o fizer, produzo um livro.

Prefiro finalizar dizendo que Godard não fecha questão nenhuma. Apenas abre a discussão, um aspecto forte do cinema moderno de hoje, esperando a contribuição do espectador, sua parte na história. É indigesto para a maioria do público, exatamente por não ter uma história definida, por não ter heróis e vilões, por não combinar som e imagem em sincronicidade ou associação evidentes; resumindo, por não possuir características que são "esperadas" por espectadores acostumados à indústria de cinema norte-americana.

"Nossa Música" é um filme poético, dirigido a quem não teve a própria sensibilidade e inteligência limadas pela alienação (um conceito da Escola de Frankfurt), oriundo de um cineasta disposto a contestar o mundo, mesmo que tragado com velocidade pelo cinema comercial e merecidamente um mestre a ser seguido. Sim, foi o perfeito Virgílio para a nossa "Divina Comédia", ou melhor dizendo, "Nossa Música".


"Nossa Música" - "Notre Musique" (2004) - Dir: Jean-Luc Godard.Elenco: Sarah Adler, Nade Dieu, Rony Kramer, Jean-Christophe Bouvet, Simon Eine, Mahmoud Darwich, Juan Goytisolo, Jean-Paul Curtier, Pierre Bergounioux, Gilles Pecqueux e Jean-Luc Godard. Roteiro: Jean-Luc Godard. Em cartaz em apenas alguns cinemas.



*Valmir Junior
"Paulista, 23 anos, virginiano e doido por chocolate. Esse é Valmir Junior, um ator amador (ou amador ator?), fã de teatro (claro), filmes, exposições e outros assuntos relacionados à Arte (além de ser um bom garfo também). É a primeira vez que resenha para um site e dá medo nele, mas o desafio já foi aceito, então: "Merda!!!" (Não levem a mal! É "Boa Sorte" no Teatro)."