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     Cinema

O GUIA DO MOCHILEIRO DAS GALÁXIAS


Valmir Junior*

A propaganda do filme já dizia: "Não entre em pânico", mas eis que ao início do filme, a primeira coisa que o espectador sente é pânico mesmo. Isso porque todos pagaram para assistir um filme legendado e, de repente, zás!, o filme começa com a voz de José Wilker (em português, é claro - nem imagino a catástrofe se o mesmo Wilker narrasse em inglês). Mas há explicação: Wilker narra a voz do Guia do Mochileiro das Galáxias (que em inglês é de Stephen Fry). O Guia é uma espécie de enciclopédia, que narra com ótimo humor a profusão de coisas absurdas que se desenrolam na tela. A informação que o Guia despeja é tanta que a legenda seria insuficiente para transmitir tudo. Por causa disso, a solução que a distribuidora encontrou foi a de colocar a voz do narrador em português, o que inicialmente é desconfortável, com a mistura da nossa língua com o inglês no restante do filme, mas que depois se torna interessante, já que Wilker narra com espontaneidade as coisas insandecidas que aparecem.

E a primeira narração do Guia é exatamente sobre os golfinhos. O Guia diz que os golfinhos estão dando "adeus e muito obrigado aos peixes", pois eles estão indo embora da Terra. Existe um porquê da debandada dos golfinhos. Este porquê só é descoberto por Arthur Dent (Martin Freeman) alguns minutos depois que sua casa é demolida para a passagem de uma estrada. É Ford Prefect (Mos Def), seu amigo, que conta o que está para ocorrer (e o que causou o êxodo dos golfinhos): a Terra vai acabar. Ford anuncia que não é um terráqueo e que vai salvar Arthur. Ele pede carona enquanto gigantes naves aterrisam na Terra e se colocam sistematicamente pelo globo, fazendo-o implodir, logo em seguida.

Assim inicia "O Guia do Mochileiro das Galáxias", comédia escrachada, de humor irônico, típico da Inglaterra, de onde se originou o filme. Na verdade, o filme foi baseado no livro homônimo, de Douglas Adams, que também assina o roteiro. Porém, Adams faleceu em 2001 e coube a Karey Kirkpatrick finalizá-lo. A dinâmica do filme já foi escancarada de início: o enredo é literalmente focado no Universo, mas há espaço para tramas menores (a metáfora disso é a demolição da casa de Arthur para a construção de uma estrada e a demolição da Terra para a construção de uma rodovia interespacial).

Eis que Arthur e Ford encontram Zaphod (Sam Rockwell), o presidente das galáxias; Trillian (Zooey Deschanel), uma terráquea que havia conhecido Arthur; e o robô maníaco-depressivo Marvin (Warwick Davis o interpreta, mas a voz é de Alan Rickman. Aliás, Warwick Davis é conhecido como o anão do filme "Willow - Na Terra da Magia").

O encontro de todos esses acontece numa nave roubada por Zaphod, nave essa que é uma das atrações do filme. Pegando carona na nave e não tendo para onde ir, já que a Terra foi implodida, Arthur e Ford seguem na missão de Zaphod: encontrar o planeta Magrathea e o grande Pensador Profundo (voz de Helen Mirren), um super-computador (aliás, o Pensador parece uma espécie de "O Pensador", de Rodin, com uma cabeça gigantesca e quadrada). O Pensador Profundo é o responsável pela Resposta da Pergunta Fundamental, cuja resposta é 42. Porém, ninguém sabe a Pergunta Fundamental e é exatamente isso que Zaphod quer: a pergunta fundamental sobre o Universo, sua Criação e Tudo Mais.

Com um argumento desses, "O Guia do Mochileiro das Galáxias" já estaria no topo das produções mais engraçadas do momento, mas o filme traz mais ainda. O universo todo da película é engraçado, estranho, absurdo. Assim como eu mencionei anteriormente, a nave é um show à parte, a começar por suas portas emotivas, que suspiram ao se abrirem. A nave (que se chama Heart of Gold, ou seja, Coração de Ouro) tem um computador de bordo que funciona sempre com constante alegria, até mesmo diante do perigo, como no momento em que dois mísseis se dirigem à nave e o computador anuncia à tripulação: "Tenho o prazer de informar que dois mísseis nucleares estão vindo em sua direção". Arthur, vendo o perigo, exclama: "Computador, faça algo!", ao que ele responde: "Ok, mudando para o modo manual. Boa sorte!". Que coisa, não...

Um dos aparatos mais estranhos do filme também está na nave: o Gerador de Improbabilidade. Quando pressionado, esse botão faz um cálculo improvável, estando em todos os pontos da galáxia ao mesmo tempo, e segue para um deles. Sendo assim, coisas improváveis acontecem com a nave quando ela chega ao destino, se transformando desde uma rosa a um patinho de borracha (e com certeza numa dessas trnasformações acontece uma das maiores risadas que damos com o filme). Fora da nave, o universo tem muito mais, mas muito mais mesmo e não é de se admirar que esse filme seja indicado a todas as idades, pois a imaginação corre solta e o ácido destilado pelo humor tipicamente britânico agrada a todos. O Guia do Mochileiro impressiona por isso e pelo humor constante.

Já o roteiro não chega a ser um primor no quesito trama, sendo o filme uma grande paródia. O desenvolvimento da relação de Arthur e Trillian é bem raso (e Zooey Deschanel não faz um pingo por sua personagem, o que faz do relacionamento dos dois quase um pires). O mais interessante é a dinâmica entre Arthur, Zaphod e Ford, além da maravilhosa participação do robô depressivo Marvin, que rouba a cena com seu sarcasmo.

Nada disso, infelizmente, faz com que o filme tenha um carga intensa de história. Parece uma corrida pelas galáxias, com um propósito, sim, mas sem algo muito definido. Não que isso vá atrapalhar quem assistir. Não vai mesmo. Além de que, mesmo sem história, os diversos componentes do universo de "O Guia do Mochileiro das Galáxias" e o que representam dentro desta paródia - suas metáfora e associações - já são parte de uma comédia inteligente e, citando algo que virou clichê hoje, o filme não se mostra como uma comédia apelativa, o que é de arrancar aplausos.

Se a quantidade de veneno destilado e o excesso de informação do filme vai enraizar na cabeça de quem assiste e transmitir algo proveitoso, isso só se vai saber depois das belas risadas que foram dadas. Um trunfo grande, afinal, em se tratando de coisas como "As Branquelas" e os intermináveis "Todo Mundo em Pânico" ou "Todo Mundo Sei Lá o Quê", esse filme já ganha de muitos a zero. O que eu sei é que além das risadas, tive coisas a pensar sim. "É um prazer informar que você vai se sentir bem com esse filme". E ponto final.


"O Guia do Mochileiro das Galáxias" - "The Hitchhiker's Guide to the Galaxy" - EUA/Inglaterra, 2005 - Dir.: Garth Jennings. Elenco: Martin Freeman, Mos Def, Zooey Deschanel, Sam Rockwell, Warwick Davis, Anna Chancellor, John Malkovich, Bill Nighy e vozes de Alan Rickman e Helen Mirren. Roteiro: Douglas Adams e Karey Kirkpatrick. No Brasil: Estreou em 3 de junho de 2005.



*Valmir Junior
"Paulista, 23 anos, virginiano e doido por chocolate. Esse é Valmir Junior, um ator amador (ou amador ator?), fã de teatro (claro), filmes, exposições e outros assuntos relacionados à Arte (além de ser um bom garfo também). É a primeira vez que resenha para um site e dá medo nele, mas o desafio já foi aceito, então: "Merda!!!" (Não levem a mal! É "Boa Sorte" no Teatro)."