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     CINEMA

Menina de Ouro


Valmir Junior*

A história parece simples. Um treinador de boxe encontra uma garota disposta a lutar com ele, mas ele não aceita: não quer treinar garotas. Eis que o treinador perde seu principal lutador para outro e o ajudante da academia aproxima o treinador da lutadora. Ele aceita treiná-la. Esse é o início de "Million Dollar Baby" (A Garota de Um Milhão de Dólares), aqui no Brasil, com um título que faz sentido: "Menina de Ouro".

Um milhão de dólares porque ela faz esse dinheiro em pouco tempo, graças à determinação da protagonista, Maggie Fitzgerald (Hilary Swank), a lutadora, e da eficiência do treinador, Frankie Dunn (Clint Eastwood). O ajudante aqui é Eddie Scrap (Morgan Freeman), ex-lutador que parou com o boxe após perder o olho em sua 109o luta. Mas não se preocupe, o filme tem muito mais do que esse fio condutor. Se ela ganha ou não o dinheiro, o filme evidencia isso e muitas outras coisas de outras formas. As sub-tramas estão lá, com um bom recheio para descobrirmos além da carapaça dos protagonistas. E como conhecemos... Swank e Eastwood foram indicados ao Oscar de Melhor Atriz e Ator e Freeman foi indicado a Melhor Ator Coadjuvante, mas os três são os protagonistas, na minha opinião, com atuações impecáveis.

Eastwood é a pedra no sapato de Martin Scorcese e seu "O Aviador" na entrega do prêmio da Academia. O filme é muito bem conduzido e delineado por Eastwood. Aliás, foi filmado em apenas 38 dias (!). A história toma forma sem muito esforço, parece que Eastwood só colocou no piloto automático e dirigiu e atuou, porque o filme faz as pessoas entrarem dentro dele bem rapidinho. É claro que o diretor é responsável por isso, mas os atores dão um show e seguram a platéia.

Morgan Freeman pode ser considerado o suporte ideal para a história deslanchar. O carisma do ator e a relação dele com a personagem de Eastwood é algo que engrandece a narrativa e a torna mais humana. Segue então Eastwood e sua dureza habitual, mas suavizada na medida, com aquele toque humano, mostrando a parte religiosa, a parte sonhadora, a parte generosa: ainda há no meio da dureza algo a encontrar de acalentador. E finalmente Hilary Swank, eu diria que ela alcançou uma das performances mais magníficas de sua carreira, com uma Maggie Fitzgerald complexa, com uma riqueza de detalhes impressionante. Ela já ganhou o Oscar por "Meninos Não Choram" e é a minha aposta nessa ano como melhor atriz. Ao invés de Swank abordar a lutadora como alguém muito durona e masculinizada, ela evita o clichê e constrói uma mulher que luta literalmente e figurativamente, com muita dedicação, humildade e perseverança, algo digno de ser apreciado, e ainda consegue ser durona no ringue e muito feminina.

A direção é precisa, enfatiza outros lados da psiquê das personagens, o que potencializa a história. Eastwood conseguiu captar o que existe de mais valoroso na relação homem-homem, ou seja, a amizade sincera e muitas vezes engraçada entre Scrap e Dunn, numa espécie de jogo de perseguição amigável. Scrap e Dunn se ferem mutuamente, mas ainda sim, em seus diálogos há a fraternidade adquirida em anos de trabalho conjunto. O outro lado é o conflito interno de cada um, muito bem retratado com a história infeliz de Maggie e sua correlação com luta da vida e do esporte, com a relação de Dunn com a religião e com o problema de não ver a própria filha, para quem escreve cartas que sempre voltam. O erro do filme é introduzir a família de Maggie como uma espécie de vilã do filme, mas isso é totalmente perdoável (assim como a oscilação de luz em certos trechos). O importante é que a narrativa se mantém forte e prende a platéia.

E é então que a narrativa dá um salto que não parecia sequer se prenunciar e o quadro muda substancialmente. Não farei como os críticos norte-americanos, que revelaram a reviravolta em nome da discussão polêmica que o filme suscitou. A discussão faz parte do âmbito da arte e seria mais do que correto indicar caminhos para tal, mas os críticos foram longe demais, perderam a noção de ética e acabaram com a história do filme.

Eu já sou partidário de que o espectador deve ver, constatar e refletir por si só o que a película suscitou de interessante a discutir. O papel do crítico aqui é revelar ao público se o filme foi - ao menos - suficiente em causar discussão, se relatou com precisão o que se propôs e se fez isso com ardor, paixão e grande intenção de perscrutar a alma humana, e, o mais forte, de atrair o espectador para dentro do filme e fazê-lo sentir-se enlevado, a ponto de se satisfazer com alegria em ter "perdido" algumas horas de seu dia para ir ao cinema.

"Menina de Ouro" é um achado em meio a filmes de terror e comédia de hoje que se atêm ao objetivo comercial apenas. Um filme tocante, que, segundo o meu papel de crítico, consegue preencher todos os requisitos de um filme, os quais citei acima, e configura como uma terrível ameaça ao "O Aviador". Provavelmente, Scorcese e DiCaprio levam, pelo aspecto técnico, pois os filmes se igualam, mas não importa, a boxeadora voa mais longe.


"Menina de Ouro" - "Million Dollar Baby" (2004) - Dir: Clint Eastwood. Elenco: Clint Eastwood, Hilary Swank, Morgan Freeman e outros. Roteiro: Paul Haggins. Estreou em 11 de Fevereiro.



*Valmir Junior
"Paulista, 23 anos, virginiano e doido por chocolate. Esse é Valmir Junior, um ator amador (ou amador ator?), fã de teatro (claro), filmes, exposições e outros assuntos relacionados à Arte (além de ser um bom garfo também). É a primeira vez que resenha para um site e dá medo nele, mas o desafio já foi aceito, então: "Merda!!!" (Não levem a mal! É "Boa Sorte" no Teatro)."