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     Cinema

O JARDINEIRO FIEL


Valmir Junior*

Depois da meteórica carreira com os filmes Domésticas e Cidade de Deus, Fernando Meirelles foi indicado ao Oscar de melhor diretor por este último, assim como o próprio filme foi indicado na categoria principal. Sendo assim, depois do êxito internacional numa competição de peso, Meirelles colocou-se no lugar onde poucos cineastas brasileiros chegaram.

O diretor se dedicou à adaptação do livro de John Le Carré, The Constant Gardener, que, em português, se tornou O Jardineiro Fiel. O livro conta a história do diplomata Justin Quayle. Sua mulher Tessa chegou perto de um esquema de empresas farmacêuticas na África e, por isso, acabou sendo assassinada.

O livro e o filme mostram a evolução do diplomata ao se embrenhar pelos mesmos caminhos da mulher na busca por duas soluções básicas: explicar porque a mulher morreu e explicar porque a mulher morreu. São coisas diferentes, acredite. Uma é factual. Saber os motivos que levaram à morte da mulher. A outra é puramente sensitiva: a dor e o sofrimento levam o homem a procurar entender o sentido de tudo e a morte de um ente querido nos aproxima muito mais dele do que a simples convivência.

É nesse reencontro com a pessoa que se foi que reside o mote de O Jardineiro Fiel. O Quayle de Ralph Fiennes é uma pessoa centrada, que procura uma racionalidade às vezes irritante. E a Tessa de Rachel Weisz é uma mulher de intensidade única, cuja existência parece servir apenas para trazer luz às pessoas necessitadas. A partir da morte da mulher, Quayle busca respostas e acaba por descobrir novos significados onde jamais supunha encontrar.

Esse embate entre o racional e o emocional tem significado importante. Porém outra discussão aflora com maior intensidade enquanto a questão "Tessa X Quayle" vai se desenrolando. Somos apresentados à ThreeBees, empresa farmacêutica que testa um remédio contra tuberculose em africanos. Porém a ThreeBees não quer medir esforços para poder fazer com que seu produto seja aprovado. Nem que precise acobertar as mortes das cobaias humanas. Eis o mérito da produção. Ao mesmo tempo em que discute a redescoberta do mundo a partir da morte de um ente querido, traz à tona a negligência humanística quase que completa de conglomerados que só pensam na exploração dos seres humanos em prol de seus benefícios (ou lucros) próprios.

Meirelles compõe a história entre vais-e-voltas do filme, com seus flashbacks e transições estilizadas; acerta a mão ao tratar as duas questões sem panfletarismo. Para tal, apenas revela suas intenções através de signos artísticos, com contraposições de luz, granulação de película e o famoso "cores quentes X cores frias". E é muito corajoso ao revelar sem medo uma África decadente e desgastada pelo imperialismo europeu. Foi o mesmo que fez com Cidade de Deus.

Obviamente, o elenco ajuda. Ralph Fiennes transpõe muita emoção em seu Quayle, sem precisar esboçar expressões mirabolantes, enquanto Rachel Weisz e sua habitual força jorram uma energia que toma conta da tela. Não é para menos que Meirelles esmerou em sempre tê-la perto da luz.

O Jardineiro Fiel falha em um quesito apenas: ele acaba. Dá vontade de continuar a saber mais. Mas nem Carré nem Meirelles nos permitiram tal façanha. Seja como for, essa é a promessa de mais um ano de Meirelles na linha de frente dos candidatos ao Oscar. Chances de ganhar existem. Esperamos que ele ganhe. Mas, independentemente disso, importa o filme. Surpreendente e prazeroso. Vale assistir mais de uma vez.


O Jardineiro Fiel (The Constant Gardener, 2005). Diretor: Fernando Meirelles. Elenco: Ralph Fiennes, Rachel Weisz, Danny Huston, Hubert Koundé, Pete Postlethwaite e outros. Roteiro: Jeffrey Caine. Duração: 2h29min. Estreou em 14 de Outubro.



*Valmir Junior
"Paulista, 23 anos, virginiano e doido por chocolate. Esse é Valmir Junior, um ator amador (ou amador ator?), fã de teatro (claro), filmes, exposições e outros assuntos relacionados à Arte (além de ser um bom garfo também). É a primeira vez que resenha para um site e dá medo nele, mas o desafio já foi aceito, então: "Merda!!!" (Não levem a mal! É "Boa Sorte" no Teatro)."