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     Cinema

A QUEDA: AS ÚLTIMAS HORAS DE HITLER


Valmir Junior*

Andando em meio ao barulho da guerra, à noite, entre muitas árvores, jovens alemãs estão muito ansiosas, pois serão escolhidas para trabalhar como secretárias. Instala-se, de primeiro, a tensão. Qual delas será escolhida para ser a secretária de Adolf Hitler? A escolhida é Traudl Junge. Sua primeira carta, de início, já é nervosamente datilografada para o ditador, que a trata com paciência e decoro, como um chefe que guia sua funcionária no rumo certo. Não há nada de desumano, nada de malvado. Hitler é um homem que, contra seus inimigos é implacável, mas não o é com àqueles que lhe devem lealdade. Este é o início de "A Queda: As Últimas Horas de Hitler".

Esta primeira cena está situada em 1941. Um salto narrativo nos leva a 1943, ocasião em que Hitler, seus generais, médicos, soldados e outros estão enclausurados dentro de um bunker em Berlim, enquanto os russos invadem a cidade. O término da guerra está chegando.

A impressão que se tem ao sair da sessão do filme é de que a juventude tem nas mãos a faca e o queijo. Apesar de ser algo que já é sabidamente parte do repertório popular entender que a juventude é o espelho do amanhã de nossas gerações, não se vê muita melhora nesse aspecto. E o filme de Olivier Hirschbiegel retrata exatamente isso, porém à época da Segunda Guerra Mundial, no lado alemão. Traudl Junge (Alexandra Maria Lara), a figura central do filme, que funciona como espinha dorsal para as outras diversas histórias, é uma jovem que escolheu ser a secretária do ditador Adolf Hitler (Bruno Ganz), mas não sabe ao certo o porquê. Traudl reflete em sua ação as ações de milhares de outros jovens que se uniram à guerra, como ela, sem motivos aparentes, ou simplesmente aceitando que o Nazismo queria que as coisas se resolvessem daquela forma.

O foco do filme não é exatamente a questão dos jovens. Outras questões estão ali. Em primeiro lugar, o Führer. Adolf Hitler e sua decadência estão retratados, habilmente até, pois ao mesmo tempo em que pode ser um líder sanguinário, Hitler é uma pessoa dotada de simpatia, que irradia àqueles que o rodeiam e vai lentamente definhando devido ao mal de Parkinson. Certa cena mostra que Traudl dorme um pouco a mais do que devia e se dirige ao Führer para escrever seu testamento. Agitada, ela teme que ele a repreenda e ela lhe diz: "Desculpe o atraso, acabei dormindo mais do que devia", ao que ele responde: "Então conseguiu descansar um pouco, não é?". O que faz o espectador pensar que, se Hitler tivesse guiado suas habilidades políticas e sociais para um bem comum, a história teria sido muito diferente. O filme chegou a ser acusado de trazer um retrato mais humano a um dos maiores inimigos da Humanidade, mas é certo que se faz urgente pensar que ele não era um vilão de novela, mas sim uma pessoa com todos os seus lados que se combinam e confrontam entre si. Mesmo assim, sabe-se que Hitler, apesar desse lado, ainda é um assassino em potencial que, mesmo pelo clamor de sua Eva Braun para que não fuzile o cunhado que fugiu das responsabilidades, dá cabo do que acabou de enunciar sem um pingo de compaixão. Bruno Ganz oferece a nós o Hitler completo, sem mais nem menos. Quase uma perfeição.

Outro tema da película é justamente a relação fanática dos alemães com o Nazismo, levando-os o suicídio quando percebem que não há mais nenhuma saída em direção à vitória. Nesse sentido, é forte a obstinação dos jovens em morrer pelo regime político. Em outro âmbito, mesmo vendo que Hitler não tem mais condições de governar a nação rumo à guerra, convocando tropas que não existem e mandando matar seus mais leais companheiros por desobediências de ordem, os generais e soldados alemães se dispõem a perder a vida pela causa de Hitler. A mais cabal prova disso é o momento em que Magda Goebbels (Corinna Harfouch) envenena seus próprios filhos ao decidir por eles que viver sem o Nazismo neste mundo seria insuportável. De qualquer forma, ainda assim existem outros mais atinados com o que acontece (ou talvez mais traidores ainda), que pensam em se safar da morte, escapando ou indo embora, com ou sem a permissão do ditador.

Um outro patamar importante da obra se situa com a relação humana entre os alemães. Assim, estabelece-se a identificação, o que nos faz torcer por alemães nazistas cujas vidas são dedicadas a matar os inimigos, mas que, ao fundo, são pessoas que seguem o Nazismo por escolha ou realmente porque não tiveram escolha. Mesmo sabendo que Traudl foi omissa em relação a se juntar a Hitler, ao percebermos que ela e mais outros estão em perigo, acabamos por torcer por seu destino, assim como quando assistimos os horrores da guerra penetrando na festa alienante de Eva Braun (Juliane Köhler) no bunker.

Em última análise, podemos enxergar o que uma guerra é capaz de fazer com um ser humano: qual não é o desespero de vermos uma série de pessoas feridas, tendo braços e pernas decepados ou então tendo de amputá-los. Tudo isso é exposto a olho nu, como na cena em que vemos de perto, sem cortes, um soldado colocando a arma na boca e estourando os próprios miolos. A violência, de primeiro, é um soco no estômago, mas depois se torna banal, o que não faz perder sua força, porque ao se tornar banal é que começamos a refletir o quão verdadeiro é aquilo que se põe à frente de nós.

Hirschbiegel foi astuto: trouxe um filme muito bem cuidado, que leva a arte do cinema histórico a um rigor e filmagens com muitas qualidades intelectuais, artísticas e sociais, que não precisam trazer personagens que se pareçam fisicamente com os as pessoas de verdade (exceto Hitler, que já é um emblema), que não precisam se focar em guerra e seus efeitos especiais (raramente as cenas se concentram nisso) e que mostra a nós que somos todos seres humanos, ou seja, somos todos farinha do mesmo saco.


"A Queda - As Últimas Horas de Hitler" - "Der Urtergang" - Alemanha, 2004 -Dir.: Oliver Hirschbiegel. Elenco: Bruno Ganz, Alexandra Maria Lara, Corinna Harfouch, Ulrich Matthes, Juliane Köhler, Heino Ferch, Christian Berkel, Matthias Habich, Thomas Kretschmann, Michael Mendl, André Hennicke, Ulrich Noethen, Birgit Minichmayr, Rolf Kanies, Justus von Dohnanyi, Dieter Mann, Christian Redl, Götz Otto, Thomas Limpinsel, Thomas Thieme, Gerald Alexander Held, Donevan Gunia e outros. Roteiro: Bernd Eichinger, baseado em livros de Joachim Fest, Melissa Müller e Traudl Junge. No Brasil: Estreou em 6 de maio de 2005.



*Valmir Junior
"Paulista, 23 anos, virginiano e doido por chocolate. Esse é Valmir Junior, um ator amador (ou amador ator?), fã de teatro (claro), filmes, exposições e outros assuntos relacionados à Arte (além de ser um bom garfo também). É a primeira vez que resenha para um site e dá medo nele, mas o desafio já foi aceito, então: "Merda!!!" (Não levem a mal! É "Boa Sorte" no Teatro)."