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     CINEMA

Herói


Valmir Junior*

Um filme de cores impactantes, recheado de artes marciais e coreografias a la "O Tigre e o Dragão"; entremeados esses aspectos está a história-mito da unificação da China num período pré-imperadores. Este é um breve resumo de "Herói", que demorou dois anos para alcançar as telas brasileiras. Zhang Yimou dá ao filme ares de Quentin Tarantino (ou será que Quentin Tarantino dá ares de Yimou?), com seus "twist and turns", mas nada comparado a M. Night Shyamalan e suas reviravoltas. Chega de referências; vamos ao filme.

Estamos no período pré-imperial da China, dividida em sete reinos. O Rei da província de Qin (Daoming Chen) sofre constante tentativas de assassinato. É o preço que o Rei paga por encabeçar uma guerra em que seu exército poderoso vai a cada reino clamar a terra a fim de unificação. Logicamente, os senhores dos outros reinos se opõem e automaticamente se transformam em inimigos de Qin, contratando assassinos de elite para eliminar o Rei. O início do filme começa com o guerreiro Sem Nome (Jet Li) contando ao Rei como matou os três assassinos mais procurados: Céu (Donnie Yen) e o casal Neve Que Voa (Maggie Cheung) e Espada Quebrada (Tony Leung). Logo após, o Rei contesta a versão de Sem Nome e conta outra versão baseada em seu conhecimento de causa, enveredando por uma trama de tentativa de homicídio contra o Rei de Qin.

A cada nova versão contada por Sem Nome e o Rei de Qin, a tela ganha cores novas, os figurinos e o cenário mudam, expressivos por si sós. A beleza das cores reside exatamente em funcionar como aparato de expressão e não mero realce dos sentimentos das personagens. Junta-se a isso a coreografia extremamente bela e de inventividade exemplar, aqui propositadamente um instrumento artificial, tornado banal para que analisemos além dos belos movimentos. Podemos observar isso quando os cortes da edição se fazem secos, notadamente para nos mostrar tal artificialidade. E dá certo: o público se concentra na motivação das personagens.

Além do balé e das imagens e planos belos, de cores firmes que tomam conta da tela, a história maqueia as intenções de Sem Nome e do Rei, deixando para Céu, Neve Que Voa, Espada Quebrada e sua serva Lua (Zhang Ziyi) um retrato mais aparente de suas motivações. Em certos momentos, as lutas são paralisadas a fim de que seus participantes travem combate no nível mental, um jogo de concentração, uma imaginação da luta, onde ganha quem se centrar mais, o que não deixa de ser o que representa a conversa entre Sem Nome e o Rei durante o filme todo. As intenções reais de Sem Nome não transparecem no rosto fechado de Jet Li, o que representa um trunfo ao filme. Ele e o Rei de Qin são os únicos que não mudam a própria vestimenta e expressão corporal durante a jornada.

Apesar de revelarem-se apropriadas as mudanças nas versões da história a fim de conduzir o espectador rumo à versão correta e de conseguirmos entender as correlações entre elas, o erro do filme ocorre quando ele cai no didatismo e na resolução fácil para a problemática central, o que se dá quando a personagem Espada Quebrada entende a intenção do Rei. O filme luta contra os propósitos do monarca de Qin o tempo todo e cede no final à justificativa do porquê das guerras, quase que concordando com os seus feitos. O didatismo acaba dando ao espectador a sensação de estar assistindo uma palestra sobre os motivos da guerra, o que remete a uma metáfora da situação Bush-Iraque, e a resolução surge em frases pequenas e eficientes.

Zhang Yimou, mesmo incindindo neste erro, conserta a mão usando o mesmo veneno: o protagonista Sem Nome resolve a questão de forma fácil também. Resta ao espectador concentrar-se no desfecho e na escolha final de Sem Nome. Mesmo assim, o filme é uma aula. O erro não deturpa o real significado do filme. Por trás de tanta beleza, existe ainda a crueldade. Ambas vivem lado a lado, coexistem e conversam entre si, o que torna cada vez mais asfixiante entender porquês e complexas motivações. A fuga do público se faz na beleza, é claro, uma armadilha interessante que os joga novamente contra a crueldade. É aí que se encontra a chave do cinema inteligente.


"Herói" - "Hero" - China, 2002 - Dir.: Zhang Yimou. Elenco: Jet Li, Daoming Chen, Donnie Yen, Maggie Cheung, Tony Leung e Zhang Ziyi. Roteiro: Li Feng, Zhang Yimou e Wang Bin. No Brasil: Estreou em 25 de março de 2005.



*Valmir Junior
"Paulista, 23 anos, virginiano e doido por chocolate. Esse é Valmir Junior, um ator amador (ou amador ator?), fã de teatro (claro), filmes, exposições e outros assuntos relacionados à Arte (além de ser um bom garfo também). É a primeira vez que resenha para um site e dá medo nele, mas o desafio já foi aceito, então: "Merda!!!" (Não levem a mal! É "Boa Sorte" no Teatro)."