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     Cinema

ESTAMIRA


Valmir Junior*

Estamira foi aquela mulher que passou por muita coisa. Já pequena, o avô lhe abusava sexualmente. Depois ainda a levou para se prostituir. Aos 17 anos, encontrou no bordel um homem que queria se casar com ela. Porém, ele "era cheio de mulheres" Dali teve o primeiro filho, Ernani. Então, ela o largou. Conheceu o segundo marido e dele teve a filha Carolina. Mas ele "também era cheio de mulheres". Nesse ponto, Estamira novamente larga o marido e começa a se assemelhar à mãe que, à época estava no sanatório Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro.

Não fica claro quando Estamira resolve trabalhar no Aterro Metropolitano de Natal-RN, mas é partir daí, ao se embrenhar pelos meandros do aterro, catando latas e outras coisas para trocar por dinheiro, que ela começa a, ao mesmo tempo, se redefinir e trazer à tona sua própria loucura. Estuprada duas vezes, Estamira se inicia ladeira abaixo, com seus surtos psicóticos e esquizofrênicos. Seu filho Ernani tenta interná-la. Acredita que ela é obsediada, que está possuída uma força diabólica, crendo naquilo que ela não crê: numa religião.

A conturbada história de Estamira serve apenas para entendermos como uma mulher de classe média se torna uma mulher que trabalha no lixão, que gosta daquilo que faz, que se encontra mais em sua loucura do que na sua normalidade e que, mesmo louca, consegue assumir coisas que jamais conseguiríamos assumir em plena sanidade, com tal força e empenho. Embaixo da couraça psicótica, ainda existe a mulher que, com o fruto de seu trabalho, conseguiu fazer uma casa, educar uma família e dar amor. É muito mais complexa.

A sutileza com que o diretor e realizador Marcos Prado constrói a narrativa é digna. Prado não se limita a mostrar, ele disseca. Mostra tudo o que tem que ser mostrado. O que não deve, não o é. Há certas passagens que incitam risos neuróticos da platéia, risos incômodos, ou até mesmo risos verdadeiros, que refletem como a platéia pode não estar entendendo o que vê. O filme não se compadece da personagem. Ao contrário, ele entra num profundo crescendo que faz com que aos poucos os espectadores adquiram a dimensão do assunto. A fotografia atinge o seu propósito ao não enternecer o ambiente do lixão exatamente por não explorá-lo de forma convencional. Quanto menos mostrá-lo sobre a lente de cores, melhor. Ao mostrá-lo com uma granulação e velocidades diferentes, Prado coloca o espectador numa posição menos confortável, o que torna o aterro muito mais grandioso. Ao adquirir cores, as cenas ganham mais força, mais significado em suas imagens.

Imagens essas que Prado faz com clareza, objetividade, poesia e competência enlevadoras. Prado não toma partido de ninguém e também deixa à revelia detalhes que pipocam na mente do espectador, sem precisar fechá-las, mesmo se tratando de um documentário. Um exemplo: afinal, a filha Maria Rita, a terceira filha, é filha de quem?

A poesia da história, das imagens, da montagem, da intrusão no cotidiano da catadora de lixo sem ser intruso são apenas as folhas dessa árvore enorme que se chama Estamira. A mulher em si é o que há de melhor no documentário. Mais do que sua história, que por si só é melodramática, vê-la ali, profetizando, proferindo, provendo e pró-agindo, aos quatro ventos, para quem quiser, é uma outra visão sobre a insanidade que clamamos como o contrário de nossa normalidade. A sua revelação é a revelação do contrário. Ela mesma diz.


Estamira. Brasil, 2006. Dir.: Marcos Prado. Produção: José Padilha e Marcos Prado.



*Valmir Junior
"Paulista, 23 anos, virginiano e doido por chocolate. Esse é Valmir Junior, um ator amador (ou amador ator?), fã de teatro (claro), filmes, exposições e outros assuntos relacionados à Arte (além de ser um bom garfo também). É a primeira vez que resenha para um site e dá medo nele, mas o desafio já foi aceito, então: "Merda!!!" (Não levem a mal! É "Boa Sorte" no Teatro)."