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     Cinema

CASA DE AREIA


Valmir Junior*

Fernandona e Fernandinha. Uma é o "monstro sagrado". A outra é o filho do monstro. Não, esse filme não é todo da Fernandona. Esse filme também é da Fernandinha. E a Fernandinha é das boas. Fazer Vani em Os Normais e a pseudo-Vani (ou será o contrário?) de A Casa dos Budas Ditosos, inspirado no livro de João Ubaldo Ribeiro, é um nada na sua carreira. Muita gente pensava que a Fernandinha era só a filha da Fernandona. Claro, não pra quem a conhecia em outros trabalhos.

Para quem não sabe do que estou falando, explico: Fernandona é a Fernanda Montenegro, nossa querida Arlete Pinheiro Esteves da Silva (é o nome verdadeiro dela). A Fernandinha é sua filha: Fernanda Torres. As duas revezam papéis estilo mãe-e-filha em Casa de Areia, filme dirigido por Andrucha Waddington, que, por sua vez, é genro de Fernandona, ou seja, marido de Fernandinha. Um filme em família, por assim dizer.

De primeira, pode até parecer imbróglio ou mesmice colocar as duas como mãe e filha na telona. É um recurso muito explorado por essas terras brasileiras, principalmente entre essas duas pessoas. Mas aqui tudo se encaixa, não é capricho de Waddington. Casa de Areia se segura justamente pelo poder dessas duas, mais o poder de Seu Jorge, Luiz Melodia, Stênio Garcia e Enrique Diaz.

O longa oferece a história de Áurea (Fernanda Torres) que, em 1910, ruma grávida com o marido português Vasco (Ruy Guerra) até os Lençóis Maranhenses para se apropriar de suas terras. Porém, as tais terras estão, digamos assim, no meio do areal dos Lençóis. Em meio a tanta areia, Áurea e sua mãe (Fernanda Montenegro) querem voltar para a cidade, mas Vasco quer ficar. Elas tramam com os empregados para ir embora. Eis que são enganadas pelos empregados e um acidente ocorre com Vasco, então Áurea e sua mãe estão sós no meio do areal.

A partir daí, o filme discorre sobre a história das duas mulheres que tentar encontrar um meio de sair dali e vão sempre sendo impedidas por acaso ou por ironia do destino. As outras personagens vão se enfiando no meio dessa história, como o negro Massu (Seu Jorge/Luiz Melodia) e o oficial Luiz (Enrique Diaz/Stênio Garcia). Fernandona e Fernandinha se revezam nos papéis de acordo com o passar das três gerações pelo areal.

E é com precisão que digo que toda a areia é a metáfora de quão desfeita são nossas vidas quando não enxergamos as coisas que estão ali, claras, nítidas, brancas. A felicidade, por exemplo, está ao nosso lado, e demoramos a enxergar isso. Também demoramos a enxergar que podemos sempre ser felizes em diversas situações, embora existam coisas que o tempo corrige, mas também deforma. É o caso da última geração mostrada no filme: Maria (Fernanda Torres) não se integra ao areal, ao contrário de sua mãe, Áurea (Fernanda Montenegro), que se acostumou à convivência com Massu (Luiz Melodia).

A força da areia se impõe de tal forma, transformando a paisagem ora em lago lindo e maravilhoso, ora em destruidora potência, engolindo a casa e as vidas ali instaladas. Um outro adendo ao filme é o conceito da relatividade de Einstein. O oficial do Exército Luiz diz à Áurea que se um de dois irmãos gêmeos fosse ao espaço e ficasse lá. Quando ele voltasse, ele seria mais novo. Tal teorema se encaixa perfeitamente durante todo o filme com os revezamentos de papéis. É magnífico. E na cena final, Waddington diz a que veio quando coloca cara a cara duas interpretações de Montenegro de cair o queixo.

Em meio aos grãos, desfazem as máscaras, refazem-se outras, renomeia-se e revigora o destino trágico de cada personagem. Lá pelas tantas, as personagens se confrontam, retomam o rumo perdido (ou será que o rumo tinha sido encontrado?), num entrecruzamento que é digno de nossas próprias vidas. Nós encontramos oportunidades diversas, outras vezes perdemos outras oportunidades por causa do "estar na hora certa no lugar certo" não ter ocorrido conosco, mas com outras pessoas que podem afligir o nosso destino.

Casa de Areia oferece esse entremeamento de trajetórias de múltiplas gerações de forma lúdica, se opondo à areia, que dá ares cinematográficos majestosos e ao mesmo tempo reducionistas, como uma ampulheta a céu aberto, destilando o veneno do tempo, que consome, redime e transforma o núcleo familiar, invoca as metamorfoses de nossas relações com o desgaste que lhe é peculiar, pedindo que sempre busquemos um sentido para nossas vidas; nunca é tarde para ser o melhor.

Em seu todo, o filme peca pouco, com algumas falhinhas do roteiro aqui e acolá, explicando didaticamente porque tal personagem cresceu assim ou assado. Mas nas mãos das duas atrizes e do diretor, é mero desvio, o empenho veio de forma segura, limpa, correta e ao mesmo tempo verdadeira e emotiva. As Fernandas são o principal do filme. Os coadjuvantes seguram bem e a história é de encher os olhos. Palmas para Waddington.

Não resisto em terminar a crítica assim: na cena final, uma personagem diz à outra que o homem chegou à Lua. E a outra interpela: "O que ele encontrou lá?". E a outra responde: "Nada". "Nada?". Ao que a resposta a essa pergunta final permanece essa: "Areia". Fica claro: aqui na Terra ou na Lua, não importa. O tempo para tudo é agora.


Casa de Areia - Brasil, 2005. De: Andrucha Waddington. Elenco: Fernanda Montenegro, Fernanda Torres, Ruy Guerra, Seu Jorge, João Acaiabe, Enrique Diaz, Stênio Garcia, Luiz Melodia e outros. Roteiro: Elena Soárez, baseado em argumento de Elena Soárez, Luiz Carlos Barreto e Andrucha Waddington. No Brasil: estreou em 13 de Maio de 2005.



*Valmir Junior
"Paulista, 23 anos, virginiano e doido por chocolate. Esse é Valmir Junior, um ator amador (ou amador ator?), fã de teatro (claro), filmes, exposições e outros assuntos relacionados à Arte (além de ser um bom garfo também). É a primeira vez que resenha para um site e dá medo nele, mas o desafio já foi aceito, então: "Merda!!!" (Não levem a mal! É "Boa Sorte" no Teatro)."