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     CINEMA

O Aviador


Valmir Junior*

Essa resenha não é sobre o Oscar. É sobre o filme mais indicado dele. 11 indicações, incluindo Melhor Filme, Diretor, Ator, Atriz e Ator Coadjuvantes e outros. Provavelmente ganhará, é a minha aposta. Isso porque é uma tendência. Todos os anos, os filmes com mais indicações ganharam o prêmio de Melhor Filme. Apenas dois fugiram a essa tendência.

E aposto também pela qualidade do filme. Scorcese acertou em cheio na direção. John Hughes (Leonardo DiCaprio) é o mote da trama. O menino que cresceu e se tornou rico fabricando brocas em Houston e depois se aventurou no cinema com seus aviões e audaciosas seqüências cinematográficas, entrando no ramo da aviação e fundando a TWA, é o próprio aviador do título. A trama foca uma série de fatos da vida de Hughes, como seu transtorno compulsivo-obssessivo relativo à limpeza, que se torna algo fora do comum, chegando a machucar as próprias mãos ao lavá-las no banheiro de um restaurante.

A vida em ascensão é pautada pelo envolvimento forte do aviador com a atriz Katherine Hepburn (Cate Blanchett) e o envolvimento mais superficial, embora carinhoso, de Hughes com a atriz Ava Gardner (Kate Backinsale). Além dos envolvimentos amorosos e o transtorno psicológico, Hughes passa fases ruins, mas desafiadoras, na área do cinema e enfrenta o império da Pan Am e seu dono, Juan Trippe (Alec Baldwin) e seu aliado maior, o senador Ralph Brewster (Alan Alda).

Scorcese, em muitas passagens, interrompe o fluxo da narrativa para nos mostrar alguns mecanismos mais sutis da psicologia de Hughes, que só foram possíveis graças a atuação "quase" totalmente eficiente de Leonardo DiCaprio. Eu digo "quase" porque aquele grito durante o teste do novo avião me fez lembrar do adolescente que se achava o rei do mundo em "Titanic". O grito é o mesmo, sem dúvida, e isso distancia momentaneamente o espectador da aura forte de Hughes, mas esse é o único erro da composição do ator. Quase todos os momentos são muito inspirados e DiCaprio se utiliza muito bem de sua voz, mesmo que ela seja de certa forma mais próxima do infantil do que do adulto. O mesmo se diz de Cate Blanchett e sua Katherine Hepburn. Mostrando bem que a atriz gostava de "atuar" mesmo durante sua vida real, Blanchett soube realmente captar a personalidade retumbante da atriz e sua jovialidade à beira do histrionismo. E seguindo com os indicados, Alan Alda dá ao senador Brewster a medida exata a ponto de não se tornar um mero antagonista de Hughes e sua empreitada, mas um opositor que tem suas idéias e requintes próprios de uma pessoa e não de um vilão.

Mas é Martin Scorcese quem deve levar os louros do filme. Scorcese não se deixa levar pelo melodrama da situação e não traça Hughes como "o Grande", assim como Oliver Stone fez com o seu Alexandre. Ilustrando passagens significativas da vida de John Hughes com um primor invejável (acerto do roteirista John Logan também), Scorcese vai do grandioso ao detalhista rapidamente, sem excessos, tornando o filme agradável e em sintonia com a época pré-2a Guerra Mundial, aliás, palmas para a direção de arte (hoje em dia, a direção de arte é muito valorizada em filmes de época).

Inteligentemente, o diretor inicia a vida de Hughes com um lampejo da infância e já o coloca em meio às filmagens de seu filme "Hell's Angels", um desafio e tanto na época, com as cenas de batalha de aviões que exigiram do aviador "apenas" 26 câmeras, revelando a busca de John Hughes pela perfeição, o que é bastante associável com a busca pela perfeição na limpeza das mãos e na higiene pessoal, um reflexo de que muitas características nossas vêm à tona seguidamente, de diversas formas, e são indissociáveis umas das outras.

O rigor técnico é grande e se sente a paixão de Scorcese pela história, mas ainda sim, carece de alguns momentos mais fortes e eloqüentes (não confundir com a grandiloqüência de "Alexandre"), o que talvez possa interferir no Oscar, já que a Academia gosta desses aspectos mais melosos (e não melodramáticos) e sutis em relação aos protagonistas dos filmes que assistem. Scorcese não demora em construir a personagem e mostra de forma mais seca este John Hughes, o que possa condecorar outros filmes à estatueta. Mas se depender de números, lobby, o fato de Scorcese não ter ganho nenhum Oscar, ele leva o "carequinha pelado com a espada" (brincadeira, não sejam leitores maliciosos) para casa. Eu torço para isso, mais ainda falta ver "Menina de Ouro", outro forte candidato.

Descontando o Oscar, esse filme vale o ingresso, com toda a certeza, e é uma aula de cinema. Assistam e se deliciem. E finalmente, gosto de uma interpretação de Leonardo DiCaprio.


"O Aviador" - "The Aviator" (2004) - Dir: Martin Scorcese. Elenco: Leonardo DiCaprio, John C. Reilly, Cate Blanchett, Kate Backinsale, Alec Baldwin, Ian Holm, Jude Law, Alan Alda e outros. Roteiro: John Logan. Estreou em 11 de Fevereiro.



*Valmir Junior
"Paulista, 23 anos, virginiano e doido por chocolate. Esse é Valmir Junior, um ator amador (ou amador ator?), fã de teatro (claro), filmes, exposições e outros assuntos relacionados à Arte (além de ser um bom garfo também). É a primeira vez que resenha para um site e dá medo nele, mas o desafio já foi aceito, então: "Merda!!!" (Não levem a mal! É "Boa Sorte" no Teatro)."