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     CINEMA
PRODUÇÃO AUDIOVISUAL
O futuro das imagens brasileiras


Nelson Hoineff (*)

O Globo destacou no domingo (16/11) o que já era do conhecimento da comunidade cinematográfica. O consumo de filmes brasileiros cresceu mais de 220% este ano, contra um aumento de cerca de 15% em toda a atividade.

A ressalva ao impacto da Globofilmes sobre isso é muito importante. Vários filmes brasileiros ultrapassaram a faixa de 1 milhão de espectadores e alguns chegaram à beira dos 6 milhões, o que não se via há muito tempo. Num momento em particular (a semana de 23 de outubro), os filmes nacionais detinham 70% do mercado, o que provavelmente jamais aconteceu no país.

No final de outubro, um atento jornalista observava que a maioria das redes de TV por assinatura estavam abarrotadas de filmes sobre Halloween. É bem verdade que Diogo Mainardi, na Veja, já havia chamado a atenção para a ligação entre grupos de defesa da cultura brasileira e atividades neonazistas, mas é bastante sintomático o fato de que, por um lado, o público esteja afirmando sua disposição de consumir maciçamente imagens brasileiras e, por outro, o que lhe esteja sendo oferecido pela televisão seja a submissão explícita a manifestações culturais forjadas por uma cultura hegemônica e que nada tem a ver com a nossa sociedade.


Espaço para avançar

A explosão do mercado para a cinematografia brasileira traz alguns ensinamentos. Em primeiro lugar, põe em perspectiva o próprio fenômeno, já que o consumo de filmes brasileiros é, na sua maior parte, balizado pelos filmes que gozam da co-produção (integralizada em mídia televisiva, e apenas nisso) de uma empresa que é na verdade uma divisão da Rede Globo. Isso permite que grandes filmes – como Lisbela e O Prisioneiro – façam sucesso, mas leva ao cinema, indistintamente, público para lotar as salas que exibem filmes menores, como Os Normais. Não há nada de intrinsecamente ruim nisso, porque o consumo de filmes brasileiros tende a se espalhar em cascata, beneficiando indiretamente produções que não gozam das benesses da mídia da Globo e não estabelecendo competição, (como muitos acreditam que ocorra) com eles.

O grande nó começa quando se percebe que o público, estimulado pela televisão, está disposto a pagar caro para ver na tela justamente os artistas e personagens que conhece das novelas e séries. E que, de outra parte, o que ele vai encontrar na televisão conflita diretamente com o que ele demonstra estar disposto a consumir no cinema.

Isso acontece por duas razões: o esgotamento do modelo de TV aberta brasileiro e o absurdo modelo de TV por assinatura que se implantou e continua a ser mantido no Brasil. Entre um e outro, a confusão instalada nos mecanismos governamentais de controle e fomento à produção audiovisual.

Quatro das sete redes de televisão que comparecem semanalmente aos quadros das maiores audiências publicados pela Folha de S.Paulo e pelo Estado de S.Paulo não passam dos 5 pontos de audiência, em média. Na Rede TV!, por exemplo, João Kleber é o líder com 5 pontos. Em segundo lugar, vem a reprise de João Kleber, com 4. Situações semelhantes ocorrem em outras redes.

Há, evidentemente, um largo campo para se avançar. Isso não ocorre por razões mais pueris do que estratégicas: porque simplesmente não existe em muitas dessas redes, em larga escala, a compreensão de que se pode chegar ao público brasileiro – ao mesmo público que compra 6 milhões de ingressos, a preço caro, para ver um filme nacional – com produtos brasileiros que reflitam o próprio país.


Para iluminar distorções

O que se deixou acontecer no mercado de TV por assinatura é, para dizer o mínimo, insultuoso não apenas à cultura brasileira, mas à capacidade do empresário brasileiro de pensar. A TV por assinatura, como se sabe, organiza-se em redes internacionais, ao contrário da TV aberta, que se organiza em redes nacionais. A internacionalização do sistema de organização de redes, contudo, não se prende em outras partes do mundo a padrões unidirecionais. Há redes internacionais geradas dos EUA, da França, da Alemanha, Itália, Inglaterra. Há redes internacionais geradas do Japão e dos países árabes. O Brasil tornou-se um dos maiores importadores de programação internacional do mundo (são quase 200 redes circulando pelas operadoras locais) e, com a pequena exceção da Globo Internacional, incapaz de exportar coisa alguma. Mais: incapaz de criar redes de TV por assinatura (de novo à exceção dos canais Globosat) que circulem pelas operadoras do próprio país.

É grotesca a arrogância com que são tratados os poucos produtores audiovisuais brasileiros que se aventuram a tentar encostar suas produções nas redes distribuídas no país, mas operadas de Miami. Os brasileiros, que vão suplicar por migalhas de espaço em suas grades e pela aplicação do dinheiro do contribuinte brasileiro na criação de imagens nacionais (decorrente do artigo 39 da MP 2.281, de 6 de setembro de 2001), são tratados como invasores de seus próprios territórios, geralmente com requintes de virulência que não se via desde os anos 1970, quando os distribuidores brasileiros acreditavam ser donos, senhores e, pior, legisladores do mercado.

Os movimentos que hoje o governo ensaia sob imensa turbulência, tentando criar regras para a distribuição e recursos para a produção audiovisual brasileira; tentando compatibilizar as funções reguladoras da Ancine com o desenho de políticas para o setor que passam tanto pelo futuro Conselho Superior de Cinema e do Audiovisual quanto pelo Ministério da Cultura; tentando, finalmente ganhar controle sobre a atividade televisiva por meio da luta pela criação da Ancinav – todos esses movimentos têm não apenas de ser integrados como entender o que de fato se passa na atividade audiovisual no país, e sobretudo qual será o impacto do que se dá agora sobre o ambiente de produção e consumo das próximas décadas.

Novas ações surgem todos os dias. Na terça-feira (11/11), por exemplo, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em articulação com a Ancine, lançou os Funcines.Trata-se de fundos de financiamento (amparados pelo capítulo VII da MP 2.228-1) que podem beneficiar desde o conjunto da produção audiovisual até programas de construção e reformas de salas de exibição, aquisição de empresas de produção de capital aberto etc.

Os Funcines poderão injetar 100 milhões de reais na atividade já em 2004. São um sintoma do que está sendo feito, tanto quanto um indicador do muito que precisa ser realizado para tornar a atividade audiovisual um negócio lucrativo, viável e que atenda não simplesmente aos produtores, mas acima de tudo ao que o país precisa.

Por isso, o dado circunstancial que envolve um incremento de 220% no consumo de filmes brasileiros não deve ser visto como uma vitória efêmera num ano bom para o cinema, mas como uma sinalização capaz de iluminar as profundas distorções que existem entre a produção, a difusão e a comercialização do produto audiovisual brasileiro. Esse número apenas indica que há um caminho a ser percorrido – e que esse percurso tem que ser feito muito rapidamente, antes que todos os obstáculos que estão lá sejam cimentados.

(*) Jornalista e diretor de TV



Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br