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     CINEMA

Lugares (in)comuns

Por Luís Carlos Lopes
La Insignia. Brasil, 2004.

O novo cinema argentino tem brindado com pérolas cinematográficas ao seu cada vez maior público. Estas dão orgulho aos ibero-americanos. Nesta parte do mundo, também se produzem obras de arte de requintada qualidade, por mais que exista o esforço de esmagamento feito pela pesada indústria do filme estadunidense. Uma destas produções argentinas tem como título a despretensiosa expressão Lugares Comuns. A película é ambientada na Argentina de hoje, ao mesmo tempo em que o tema, o enredo e as idades dos principais personagens levam o público ao percurso histórico do país durante o último meio século. O filme, como deve ser, vence a pressão da indústria do Norte em um território de difícil concorrência, o da parole forte, de se colocar os pingos nos "is" e de dizer, de modo inequívoco, o que envolvem e significam os problemas atuais.

Na verdade, o filme, que contou com excelente elenco, consegue falar a qualquer um de nosso tempo, não importando muito seus destinos, origens geográficas e sociais e seus perfis etários. Lembra o quebequense As Invasões Bárbaras, por tratar de um possível e novo conflito geracional marcusiano, só que desta vez no sentido contrário ao de 1968. Aprofunda a questão da modernidade neoliberal onde, parafraseando Marx com alguma amargura, 'tudo que parecia sólido se desmanchou no ar'.

O professor universitário que faz o personagem central mantém-se íntegro, abandonando as certezas de outrora, sem se deixar corromper pelo sistema. Ao contrário de muitos homens e mulheres de nosso tempo, o personagem não troca suas desilusões pela crença na ordem constituída. Mantém-se rebelde, sem ceder um milímetro ao poder e sem manter estúpidos anacronismos edificantes. Sua lucidez é comovente. Não há como ver o filme sem ser tocado pela emoção e sem perceber o cul-de-sac em que se vive na contemporaneidade. A identificação é imediata com qualquer um que tenha alguma coisa na cabeça.

A temática do filme é amarga. Constata a existência inevitável de uma nova ordem e a falência geral do que se pregou contra a antiga ordenação do mundo. O passado gerou algo de novo, em alguns aspectos ainda mais dramático e anti-humano. Mas esta 'novidade' nada tem a ver, pelo menos de modo direto, com o imenso sacrifício na forma da tortura, da morte, da prisão e do exílio que muitos fizeram ou tiveram na tentativa desesperada de tornar a Argentina e o mundo mais humanos. O filme reconhece a derrota histórica, sem capitular aos vencedores ou pensar que a derrota é eterna e que o inimigo é invencível. Tudo isto é registrado nos criativos diálogos e cenários e por meio do que acontece aos corpos dos personagens.

As respostas dadas aos problemas não são nada comuns. A película, como qualquer obra de arte, desorganiza o senso comum, investe contra os preconceitos e ambigüidades do tempo presente. As frases feitas e as regras de comportamento consideradas 'politicamente corretas' são abandonadas, em nome da inteligência e de um humanismo de esquerda que, algum dia, poderá ajudar a que se construam alternativas.



Fonte: La Insignia