:: institucional           :: projetos           :: serviços           :: sala de imprensa          :: parcerias          :: loja          :: contato     

CANAIS WOOZ

artigos
agenda cultural
artes visuais
cultura
cinema
dança
entrevistas
fotografia
internet
literatura
música
teatro
terceiro setor



Alberto Cataldi
Fernando Fogliano
Roseli Pereira
Valmir Junior



clique aqui e faça um cadastro para receber informações Wooz
     LITERATURA

Tsunami


Sueli Carneiro*

Muito se tem indagado sobre a tragédia provocada pelo tsunami. Alguns especulam sobre o sentido da providência divina nessas catástrofes que flagelam o mundo de tempos em tempo. Outros debruçam-se sobre a pequenez e a fragilidade humana frente a natureza em fúria. Em artigo na Folha de São Paulo, Rubens Ricupero distingue as catástrofes naturais das catástrofes humanas, aquelas que, como espécie, somos capazes de perpetrar contra nós mesmos. Se, do ponto de vista da natureza, não é possível encontrar o sentido dessas ocorrências ao contrário, no que diz respeito ao humano, é ele que confere, por meio de seus atos o sentido para a história.

Segundo Ricupero, "o que dará à história um sentido é, portanto, o conteúdo humano, social, que formos capazes de lhe imprimir com nossas vidas". A confiança humanista que emana dessa colocação repõe como positividade o sentido da história decretando, portanto, que a aparente desrazão que também a governa estaria destituída de sentido. Porém, alguém de cujo nome não me lembro afirmou: ''Nada do que seja humano me é estranho'' e, em assim sendo, torna-se necessário reconhecer os outros sentidos que vêm sendo dados à história radicalmente descolados dos requisitos humanistas elencados por Ricupero.

E, no mais das vezes, são eles que vêm definindo os sentidos de nossa presença no mundo. Assim posto, as convicções humanistas às quais nos agarramos para preservar a esperança em nossa capacidade de, em algum tempo vindouro, resgatar sobre a terra o paraíso perdido por Adão esbarram na dimensão humana que nos horroriza aceitar mas da qual somos todos partícipes por ação, omissão ou impotência.

Edson Cardoso me recorda que as catástrofes decorrentes de desastres naturais costumam ser reparadas à custa de outras catástrofes. Assim, a reconstrução de Lisboa após o terrível terremoto de 1755 se fez à custa do ouro de Minas Gerais garimpado por escravos cujos corpos chegavam a apodrecer em vida pelo tempo em que permaneciam enterrados na extração. Eu, neta de negros mineiros, descendente de escravos, sou sobrevivente desse holocausto colonial que foi a escravidão.

A potência dos desastres produzidos pela natureza ainda é menor do que as catástrofes humanas que temos produzido historicamente cabendo indagar sobre a natureza desse humano, sobre o dualismo que o habita e que o torna capaz da defesa empedernida de uma humanismo que reafirma a solidariedade, a compaixão como os valores que definem o humano no seu sentido maior, contrarrestado pela indiferença ou descaso em relação à sorte do outro e, ademais, sobre sua estranha capacidade de identificar oportunidades egoístas e perversas na tragédia alheia.

No mesmo instante em que o mundo se mobiliza em solidariedade, nos informa a mídia que crescem as suspeitas de venda de órfãos do tsunami incrementados pelas redes de prostituição e trabalho infantil, reanima-se o turismo sexual nas regiões atingidas, proliferam golpes na internet de arrecadação de fundos para as vítimas, turistas indiferentes mantêm os seus pacotes de viagem, a cremação de corpos torna-se nas áreas atingidas negócio lucrativo . Fatos que sinalizam os outros sentidos que estão presentes e em curso na história conduzindo a humanidade para um destino e uma existência em que o que se afirma é o humano despojado de humanismo.

Somos capazes de mobilizar a solidariedade mundial para reparar os danos de uma catástrofe natural, mas somos incapazes do mesmo gesto para reverter as catástrofes humanas que nós produzimos. A que se deve isso? Penso que tememos e nos solidarizamos diante daquele que nos abate e não podemos controlar. Tememos e nos solidarizamos diante da catástrofe que pode nos atingir a todos ou a qualquer um. É na catástrofe, que prescinde de nossa ação, racionalidade e intencionalidade, que nos sentimos vulneráveis e, por isso irmanados. E os momentos de encontro com essa vulnerabilidade são os que nos restituem a consciência do pertencimento a uma humanidade indivisível da qual nos apartamos e nos diferenciamos para desfrutar poder e privilégios, para assegurar o nosso conforto, para defender os nossos interesses ou aplacar nossas consciências de nossas responsabilidades sobre os destinos do mundo.

Dispomos de vasto repertório para nos distanciar de nossas catástrofes humanas. Para cada uma delas temos vocábulos, noções, conceitos que estão subsumidos em sua configuração: racismo, eurocentrismo, imperialismo, neoliberalismo, sexismo, fundamentalismo religioso de vários matizes. Mas o tsunami pela onda sem precedentes de mobilização da solidariedade mundial que vem promovendo, ao ponto de reverter as primeiras manifestações minimalista de apoio do Império e a provocar a disputa entre os governos mundiais pela taça de campeão de doações, demonstra a força da mobilização mundial para incidir, para além das catástrofes naturais, quiçá, também, sobre as catástrofes humanas em curso no mundo. Um tema sugestivo para o próximo Fórum Social Mundial.


(*) Sueli Carneiro é pesquisadora do Cnpq e Diretora do Geledés - Instituto da Mulher Negra e colunista de Afirma.


Fonte: Afirma