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     ARTIGOS
Após 11 de setembro
por François Houtart*


Exceto nos Estados Unidos ou nas regiões envolvidas diretamente no conflito afegão ou palestino, os efeitos do 11 de setembro sobre movimentos sociais não foram os esperados

O 11 de setembro de 2001 teve certamente impacto sobre os movimentos sociais no mundo inteiro, mas talvez não o que esperávamos. Primeiramente, mesmo que os Estados Unidos sejam a nação mais poderosa do mundo e que o acontecimento do 11 de setembro tenha provocado, pela primeira vez, ação violenta em seu próprio território, os problemas cotidianos da fome (que vitima 6 mil vezes o 11 de setembro por ano no mundo), as guerras locais cruéis e terrivelmente violentas (mais de 2 milhões de mortes na África Central), o embargo ao Iraque (que custa centenas de milhares de vidas infantis), a ocupação da Palestina e a morte lenta de um povo. Tudo isso nos leva a reconsiderar o que se passou em Nova York.

Alguns homens políticos europeus declararam: "Somos todos americanos". Sem que jamais tivessem dito anteriormente: "Somos todos palestinos". Isso não correspondia necessariamente à reação profunda de seus povos, especialmente àquela dos grupos sociais mais vulneráveis. É bem verdade que a maioria dos povos do mundo condenou os métodos que lançaram numerosos inocentes num ato terrorista, mas muitos acentuaram também o caráter altamente simbólico da destruição simultânea de uma alta esfera do capitalismo mundial e do coração do imperialismo militar.

Alguns ficaram chocados ao ver na televisão manifestações de alegria na Palestina ou em outros países do Sul. Não é preciso enxergar nelas sentimentos de ódio ou de crueldade, mas reações espontâneas de populações massacradas pela opressão econômica ou pela guerra. Durante a segunda Guerra Mundial, as populações dominadas pelo poder nazista também se regozijavam ao ouvir os aviões de bombardeio aliados sobrevoando seus territórios, porém isso significava o massacre de cidades alemãs, como Hamburgo e Dresden, onde houve mil vezes mais mortos que no World Trade Center de Nova York.

Em cada região, o impacto foi muito diferente. Antes de entrar em detalhes, é importante relembrar o que dizia o relatório do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial (Porto Alegre) quando da sua reunião em Barcelona, em abril de 2002. "Em 11 de setembro vários elementos foram reunidos para que se manifestasse um novo estado das conjunturas mundiais. Este último caracteriza- se, notadamente, por uma ação agressiva do governo dos Estados Unidos perante o mundo (unilateralismo, recusa aos acordos internacionais, forte enfraquecimento do papel das Nações Unidas, militarização dos conflitos, crescimento dos gastos militares, protecionismo econômico, imposição do neoliberalismo aos países em desenvolvimento etc.). Entretanto, o 11 de setembro não interrompeu as lutas dos movimentos, como pudemos constatar em Porto Alegre, em 2002, assim como nas manifestações recentes em Barcelona ou na Itália, que contribuíram para o avanço do processo iniciado em Seattle, em 1999. Importantíssima na atual situação, a luta pela paz não substitui o combate contra a globalização neoliberal. Ambos são elementoschave de nossa pauta."

É verdade que o presidente George W. Bush, convocando uma "cruzada" contra o terrorismo e, mais tarde, nomeando como "o eixo do mal" o Iraque, o Irã e a Coréia do Norte, ditara o tom do discurso. Todos aqueles que não concordassem com essa perspectiva eram considerados inimigos, pelo menos em potencial. Numerosos movimentos sociais, mesmo entre os mais pacíficos, sentiram-se visados, sobretudo nos Estados Unidos, como veremos mais adiante.

Na América Latina, o boletim de janeiro de 2000 do Observatório Social Latino-Americano da Coordenação Latino-Americana de Centros de Análises Sociais, publicado em Buenos Aires, explicou que a nova situação internacional, depois do 11 de setembro, permitiu aos EUA consolidarem seus interesses nessa região. O que foi concretamente traduzido por três efeitos: (1) desdobramento militar e a incriminação dos protestos, (2) o reforço de uma estratégia econômica liberal para o comércio, que concede garantias aos investimentos americanos e acelera a apropriação dos recursos naturais por poderes econômicos estrangeiros e (3) uma redefinição dos organismos regionais (OEA, Tiar etc) à luz dos últimos acontecimentos.

Após o 11 de setembro, a luta contra o narcotráfico na Bolívia abre-se em perspectivas que ultrapassam esse objetivo preciso. Assim, por ocasião da campanha presidencial, o líder popular indígena Evo Morales, que ficou em segundo lugar no pleito, foi tratado como terrorista pelo embaixador dos Estados Unidos. As forças armadas bolivianas afirmaram, numa conferência sobre "Segurança Nacional e Ameaça Terrorista", que os movimentos sociais são instrumentos que podem ser utilizados para ações terroristas (Osal, janeiro de 2002, 54-55).

O Departamento de Estado dos Estados Unidos declarou, em outubro de 2001, que na Colômbia as FARCs, o ENL e a AUC eram grupos terroristas. Por conseguinte, o departamento anunciou também que esses movimentos estavam incluídos nos seus planos de luta antiterrorista e que meios militares seriam eventualmente utilizados contra eles. No México foram criadas unidades de elite antiterrorista enquanto o governo dos Estados Unidos anunciou a criação de outras bases militares americanas no sul do continente. Já a OEA trabalha com a idéia de constituir uma força multilateral de luta contra o terrorismo.

Na América Latina, os efeitos do 11 de setembro sobre os movimentos sociais e seus associados são, portanto, indiretos. Há todo um clima que se prepara, centrado na luta dupla, de um lado contra o narcotráfico e, de outro, contra o terrorismo, trazendo à baila sobretudo os movimentos políticos, especialmente aqueles que fazem luta armada. Mas já era previsível o deslocamento do alvo na direção dos movimentos sociais. No Brasil, alguns políticos qualificaram o Movimento dos Sem Terra (MST) de terrorista. A tendência da política norte-americana é apoiar-se nos governos conservadores da América Latina, levando-os a adotar políticas duras, que um dia possam ser utilizadas contra movimentos populares não violentos.

Em compensação, nos Estados Unidos e, em menor escala, no Canadá, os efeitos foram muito mais diretos. Segundo Antony Mansueto, diretor do Institute for Philosophy and Social Progress e professor da Universidade do Novo México, o resultado foi paralisar o avanço do movimento contra a globalização capitalista, que crescia plenamente, e dividir o que formava potencialmente um bloco anticapitalista. Este, nos Estados Unidos, era constituído de vários componentes, entre os quais encontravam-se o movimento ecológico e de mulheres. Alguns dos sindicatos mais importantes tinham também entrado no movimento desde Seattle e já reexaminavam a globalização neoliberal e o imperialismo. Ora, em resposta aos acontecimentos, a principal central operária, AFL-CIO, recusou- se, por exemplo, a participar de uma manifestação contra o Fórum Econômico Mundial, que estabeleceu sua reunião em Nova York, em janeiro de 2002.

O ataque de 11 de setembro permitiu aos Estados Unidos apresentarem-se como defensores da liberdade perante a intolerância wahabista (corrente fundamentalista mulçumana) e diante da repressão dos Talibãs contra as mulheres. Porém, seus efeitos internos foram devastadores. A luta pelos direitos dos imigrantes, sobretudo dos mexicanos, que tivera nítidos progressos ao longo dos últimos anos, encontra-se, segundo Anthony Mansueto, atualmente estancada. As liberdades cívicas foram fortemente cerceadas, especialmente em relação às perseguições individuais, às escutas telefônicas, ao controle dos e-mails sem que as pessoas atingidas fossem previamente avisadas. Cortes militares foram criadas para julgar os pressupostos terroristas, que acabaram, desse modo, despojados do que anteriormente considerava- se direito elementar.

No plano político, o Partido Democrata - com medo de parecer frouxo frente ao terrorismo e de ser considerado não-patriótico - deu carta branca a todas as propostas da administração Bush. As críticas contra a restrição a certas liberdades vie- ram, surpreendentemente, sobretudo de uma parte da direita, que viu nesse cerceamento violação aos direitos constitucionais. Assim, nos Estados Unidos, o 11 de setembro teve como efeito não somente dividir a esquerda, mas também a direita.

Os movimentos sociais encontraram- se, portanto, enredados num impasse: alguns juntaram- se abertamente ao main stream, influenciados por uma reação ao mesmo tempo ética e nacionalista; outros recolheram- se para não serem acusados de apoiar o terrorismo, por meio de suas críticas ao sistema e, finalmente, outros redefiniram- se a fim de tornar precisos seus objetivos.

Ao examinar outras regiões do mundo, encontramos situações bem diversas em que, salvo os lugares diretamente tocados pelos conflitos, os efeitos também foram geralmente indiretos. Na Palestina, evidentemente, a identificação de todas as correntes da Intifada com o terrorismo, sobretudo por parte de Israel, foi grandemente facilitada pelos acontecimentos do 11 de setembro. Isso deu ao Estado de Israel base acrescida da legitimação para suas políticas de ocupação dos territórios palestinos e de uma repressão violenta, largamente utilizada para justificar-se perante o exterior. Mesmo que vários movimentos palestinos empreguem métodos reprovados pelos movimentos sociais do mundo inteiro, não se pode fabricar o amálgama com o que se passou nos Estados Unidos. O terrorismo é, nesse caso, fruto de uma situação política bloqueada e da recusa à aplicação das resoluções das Nações Unidas.

A situação é muito tensa no Paquistão e no Afeganistão. Nesses países, movimentos sociais manifestam-se num plano totalmente político contra a ocupação estrangeira e correm o risco de se confrontarem com desdobramentos ulteriores assaz violentos. No Paquistão, o crescimento dos conflitos religiosos é conseqüência direta da intervenção ocidental na região. Os outros movimentos sociais foram obrigados a adotar metas mais baixas sem, no entanto, parar qualquer atividade, desde que o regime militar alinhou-se com a política dos Estados Unidos. Nas Filipinas, a ação direta contra os movimentos islâmicos permitiu que as tropas americanas recobrassem o país. Outros movimentos, como o New People's Army, foram declarados terroristas, o que não acontecia antes.

Os problemas locais predominam certamente no resto da Ásia, no Sri Lanka, na Indonésia, em Bangladesh, na Tailândia, mas essas sociedades encontram- se também enleadas no clima geral. Podemos dizer que o 11 de setembro tenha aí acarretado efeitos diretos, e que a maior parte dos movimentos populares continua suas atividades com mais ou menos dificuldades de acordo com cada situação.

Nos países árabes, a situação é evidentemente muito mais delicada. Se a maioria dos governos condenou os ataques terroristas contra os Estados Unidos, a opinião popular árabe mostra-se crítica diante do continuísmo de seus governos, sem aprovar por unanimidade os métodos utilizados pela Al- Qaeda. É necessário, contudo, que nos lembremos de que não existem praticamente movimentos sociais no mundo árabe, em conseqüência da tradição política dos Mamelouks (segundo a expressão de Samir Amin), isto é, regimes estritamente controlados pelas forças armadas, por um partido político ou por uma família real. As numerosas ONGs, assim como uma importante parte dos sindicatos, dependem geralmente dos partidos políticos ou dos movimentos islâmicos. Os movimentos de mulheres estão entre os mais dinâmicos, ainda que centrados nas suas iniciativas de microdimensão. Isso porque a situação atual oferece poucas oportunidades para que movimentos autônomos desenvolvam- se rapidamente e, se os acontecimentos do 11 de setembro não mudaram o essencial da situação, o clima geral tende ao endurecimento.

Na África, continente tão marginalizado dentro do "concerto" das nações e tão massacrado pela sua integração dependente no processo de globalização, o 11 de setembro não teve muitos efeitos. As guerras existentes, notadamente no centro do continente, são obstáculos reais, mas sobretudo impedimentos internos ao desenvolvimento de movimentos sociais. Em alguns lugares, os movimentos, principalmente os dos camponeses, continuaram suas atividades sem grandes mudanças. Examinando a Europa, chegamos também à conclusão de que o impacto direto foi praticamente nulo. Todas as manifestações previstas contra as reuniões de cúpulas européias aconteceram normalmente. As correntes repressoras já estavam mobilizadas antes dos acontecimentos do 11 de setembro, como vimos em Gênova, durante a reunião do G8, que foi altamente contestada. É nesse sentido que a situação se torna inquietante. Diversos países pisaram no acelerador para aumentar a coordenação das forças policiais bem como as medidas contra as migrações clandestinas. Acentuou-se uma mentalidade antiislâmica, marcada por incidentes graves, notadamente na Bélgica, Alemanha e Holanda.

Portanto, é mais a longo prazo que devemos pensar nos efeitos da nova situação criada pelos atentados de 11 de setembro, num processo conduzindo as direitas ao poder. Por outro lado, não devemos nos esquecer de que Osama Bin Laden, presumido inspirador dos atentados, foi homem dos Estados Unidos quando precisaram lutar contra a presença da União Soviética no Afeganistão ou subverter o regime socialista do Iêmen - mostrando que ele não representa de maneira nenhuma uma corrente de esquerda. Do mesmo modo, os Talibãs foram, praticamente, postos no poder com a cumplicidade dos Estados Unidos após a saída dos soviéticos. Quanto aos movimentos fundamentalistas islâmicos, nos países árabes eles foram encorajados e apoiados pelos ocidentais contra os movimentos nacionalistas árabes, quando estes lutavam por sua independência. Associar o terrorismo aos movimentos sociais que contestam a globalização capitalista traduz uma profunda desonestidade, que se revela, contudo, muito funcional para os interesses norte-americanos.

Podemos então concluir que, exceto nos Estados Unidos ou nas regiões envolvidas diretamente no conflito afegão ou palestino, os efeitos do 11 de setembro sobre os movimentos sociais não foram diretos. Isso não paralisou de maneira nenhuma a globalização das resistências e das lutas, como prova a preparação do terceiro Fórum Social Mundial, em Porto Alegre em 2003, ou de outros fóruns nacionais e regionais. Essas convergências de movimentos e de organizações - lutando contra a globalização neoliberal e a dominação mundial do capitalismo - reforçaram o leque de oposição ao militarismo e à guerra, juntandose dessa forma aos movimentos pacíficos. É o que vimos notadamente, em Florença, em Hyderabad e em Porto Alegre, durante a realização dos fóruns europeu, asiático e mundial. Não há a menor dúvida de que o 11 de setembro tenha revigorado as forças de direita no conjunto do universo. A luta será, então, mais difícil nos próximos anos e os movimentos sociais devem estar conscientes.



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