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     ARTIGOS
FIM DO RABO PRESO
Merecemos mais luz


Marcio Varella (*)

O brasileiro se acostumou a desprezar como critério para a evolução de sua vida na sociedade a importância do seu merecimento. Afinal, o que merecemos e o que precisamos para dar à vida a importância que ela merece? Outros povos, mais evoluídos, conseguiram coisas que só alcançaremos daqui a 50 anos, e isto se a direita elitista não retornar ao poder.

Aqui, mal nascemos e já estamos devendo. Esse jeitão do brasileiro criou uma cultura aberta à corrupção do profissionalismo e da própria dignidade, deixando para trás as possibilidades da descoberta de si mesmo, da criatividade de cada um, do subjetivo cada vez mais inconsciente da personalidade. Temos um espírito junto a nós ansioso por viver a sua própria personalidade, mas nos acomodamos, não o liberamos, não o despertamos, apenas nos interessamos pelo aspecto material da sobrevivência. Essas coisas, deveríamos aprender na escola, no jardim de infância. Algumas escolas ensinam, mas não há continuidade. À medida em que crescemos, aprendemos apenas a nos situar dentro da filosofia do mercado de trabalho, fundamentada no mal do século, a competitividade.

Editei uma matéria para TV sobre o trabalho de uma ONG de Planaltina (DF), o Projeto Gaivota, que, pela arte, tira meninos e meninas das ruas. A entrevista do professor de música (a garotada formou uma banda) me emocionou. Disse ele que a música desperta um sentido desconhecido dentro da criança, inovador, que faz com que ela dê mais importância ao novo. A criança acaba descobrindo as inúmeras possibilidades de suas múltiplas inteligências. No país, cerca de 50 ONGs fazem este tipo de trabalho. Esta é uma parte ínfima da sociedade civil que despertou, afinal. Uma moça que trabalhou na minha casa foi presa na Ceilândia porque, junto com o irmão, roubou 47 reais do caixa de um bar, armados com cacos de vidro das duas cervejas que tomaram. Desespero puro, a filha dela tem leucemia e a Maria não tem dinheiro para comprar os remédios. Presa em flagrante, ré primária, foi parar no presídio feminino. Quais foram os critérios utilizados pela polícia e pela justiça que acabaram por enviá-la a um presídio? Nenhum sério, tenho certeza.

Vejam bem: a moça vai ser obrigada a contratar um advogado, ela vai ser solta também porque o jornalista (eu) vai pedir um favor a algum poderoso da Secretaria de Segurança. Ela não terá dinheiro para pagar o advogado, que vai ter a moça em suas mãos e, tenham certeza, ele, o advogado vai se aproveitar disto. O cara da segurança vai me usar numa próxima matéria que ele precisa ver na TV, vai exigir a presença da equipe. Esta é a roda-viva da nossa realidade. Tem mais: a Maria vai sair da prisão, não vai conseguir tratamento para a filha, que ela já tentou nos postos de saúde e hospitais do DF e não conseguiu. E aí? Do caco de vidro para uma arma de fogo, é um pulo.


"O sol há de brilhar"

Este é um caso que envolve um cidadão simples e humilde, sem posses. E no caso de um traficante, preso em flagrante? Ele dá propina ao juiz, que divide a grana com o deputado, que etc e etc. Já vi isso na TV. Alguém tem que iniciar o processo de mudança de comportamento da sociedade, com urgência. E por que os jornalistas não dão início à esta mudança?

Para começar, teriam de acabar com a indústria da informação montada para beneficiar aqueles que melhor retribuem aos favores da mídia. Que tal trabalhar às claras? O livro do Elio Gaspari deixa o Delfim Neto muito mal, apesar dos esforços em contrário da revista IstoÉ. A TV Globo quer não sei quantos bilhões do BNDES para pagar dívidas e não falir, outros jornais devem ao governo depósitos de FGTS e Previdência Social. Como exigir independência jornalística, fundamental para a verdade sobre a notícia ser levado ao cidadão?

Vai ser difícil acabar com a fábrica de offs, com as armações feitas entre jornalistas e parlamentares/empresários/executivos/lobistas. Tudo depende da consciência de cada um. Hoje temos, no máximo, a metade de jornalistas trabalhando em redações do que tínhamos há 20 anos. Seguramente, a maioria ou está trabalhando em assessorias de imprensa do governo ou de empresas, atuando como verdadeiros lobistas, vendendo imagens dos candidatos, mesmo sabendo que a maioria deles não tem qualidades éticas e profissionais para exercer cargos públicos e privados.

Querem saber porque nós jornalistas devemos tomar a iniciativa e começar a discutir logo essa questão, antes que seja tarde? Porque este mal a que já estamos acostumados pode ficar incrustado para sempre no casco desse velho navio de mais de 500 anos de idade chamado Brasil. E aí, quantas gerações ficariam sem o chip da memória histórica, a exemplo daquelas posteriores à ditadura iniciada em 1964?

Somos a categoria responsável pelas informações que formarão a História - somos os responsáveis pelo lead da História. E que História estaremos repassando aos nossos filhos e netos se não temos independência suficiente para escrevê-la e nem dignidade para mostrar os fatos às claras? Apenas, estórias. Em quais exemplos eles se basearão para formar o futuro?

Se acreditamos que realmente merecemos viver a vida, conhecer de fato a vida, então temos de mudar. Devemos trabalhar com a esperança da mudança das nossas consciências. Devemos ter como exemplo a sabedoria de Nelson Cavaquinho, na primeira estrofe do Juízo Final: "O sol há de brilhar mais uma vez, a luz há de chegar aos corações; do mal, será queimada a semente, o amor será eterno novamente".


(*) Jornalista em Brasília



Fonte: www.observatoriodaimprensa.com.br