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     ARTIGOS
O SILÊNCIO SEM INOCÊNCIA
por Newton Carlos


Um jogo de faz-de-conta tanto do governo norte-americano quanto do Conselho de Segurança da ONU tem permitido que o massacre ao povo palestino ganhe contornos de barbárie

ONU significa comunidade internacional, na qual estamos todos englobados. A impotência da ONU diante da tragédia nos territórios palestinos ­ impotência de todos nós ­ fica evidente com a inutilidade das muitas decisões do Conselho de Segurança. É inútil falar em violações da Carta da ONU. Não leva a nada, como nunca levou. Não existe um caso conhecido de submissão dos interesses das potências signatárias. Os Estados Unidos travaram a guerra do Vietnã sem que o Conselho de Segurança pudesse agir.

Os ex-soviéticos invadiram o Afeganistão, a França massacrou argelinos e a Inglaterra expulsou os argentinos das Malvinas. A ONU não teve outro jeito senão observar a distância, sem condições de intervir como guardiã da segurança e da paz no mundo, seu papel no papel. Na tragédia palestina um especialista chamou a atenção para o que ele define como disfuncionalidade do sistema israelense". Dá poder excessivo às minorias, como os 200 mil colonos nos territórios ocupados, um milhão de imigrantes russos, partidos religiosos etc.

Diante disso só é possível uma solução imposta de fora e os únicos em condições de fazê-lo são os Estados Unidos, se quiserem, claro. Até agora o comportamento americano tem sido dar cobertura a Israel. Basta rever as votações na ONU desde a guerra de 1967, quando os territórios foram ocupados. Além disso, do ponto de vista estratégico, a equação mudou para o governo Bush. A questão no Oriente Médio não está mais centrada na ocupação dos territórios palestinos. Tornou-se, em primeiro lugar, parte da guerra contra o terrorismo. Não importa tanto se a invasão das cidades palestinas viola ou não a pseudoautonomia da ANP. O próprio Bush a classificou honrosamente de "resposta apropriada" porque se encaixa na luta contra o terror. Equivale aos bombardeios das cavernas do Afeganistão. De nada valeram os elogios de Washington ao plano de paz da Arábia Saudita. Sharon recusou-o sumariamente alegando que ele destruiria o Estado de Israel. Jogo de cartas marcadas entre Bush e Sharon? O primeiro-ministro israelense é interlocutor freqüente da Casa Branca, onde não deixam Arafat botar os pés desde a saída de Bill Clinton.

Acrescente-se a barragem de fogo dos conservadores americanos, território de Bush, contra qualquer pressão a Sharon, com o argumento de que ele combate o terrorismo. A National Review, expressão dessa gente, deixou isso bem claro para Bush, levando a Casa Branca a jurar fidelidade total a Israel depois de ensaios ignorados por Sharon de retirada total e imediata das tropas e tanques israelenses dos territórios palestinos. Um colunista do New York Times, William Safire, de uma direita sem rodeios, telefonou para Sharon no inicio da invasão. "Até a vitória total", foi o título do artigo escrito a partir da conversa com o primeiro-ministro de Israel.

Iasser Arafat está convencido, e o disse em entrevista, que Sharon recebe sinal verde de Washington, por baixo do pano, antes de qualquer operação militar. Pode ser paranóia, plenamente justificável. Uma coisa é certa, mesmo alguém truculento como Sharon não faria nada, na condição de governante de Israel, que batesse de frente, como britadeira que estilhaça tudo, com interesses considerados vitais pelo governo americano. Mas também acontece que Bush precisa engabelar os árabes de alguma maneira, na esteira da obsessão anti-Iraque.


Missão de paz

Daí a missão "de paz" encabeçada pelo secretário de Estado, Collin Powell. Precedida de exigências públicas de Bush para que Israel retirasse imediatamente tropas e tanques dos territórios palestinos. Isso tinha por objetivo mudar a "percepção" árabe de que os Estados Unidos favorecem Israel. Assim, os países árabes dariam sinal verde para operações militares contra Saddam Hussein. Os Estados Unidos construíram um centro de comando militar na Arábia Saudita e se sentem incomodados com críticas da autocracia saudita, até agora fiel, à inação americana diante da tragédia palestina.

A missão Powell foi um fiasco. O rei do Marrocos, primeira escala, perguntou ao secretário de Estado por que ele não se dirigia logo a Jerusalém, onde só baixou uma semana depois. Sharon retirou o que quis e ficou por isso mesmo. Ao contrário do que pretendia Washington, fortaleceu-se a "percepção" árabe de que Sharon tem mãos livres. Ataque ao Iraque com apoio árabe, como planeja o governo Bush, nem pensar, pelo menos por enquanto. Com a questão palestina metida por Bush no mesmo saco da luta contra o terror, o que esperar? A história dos conflitos no Oriente Médio registra que nos momentos mais brutais às vezes acontecem viradas.

Diante de uma saturação de violência, quem sabe não surge um consenso internacional forte exigindo que se acabe pelo menos com a matança. A própria violência, de tão violenta, se tornaria insustentável. Sempre houve uma dimensão árabe na causa palestina e a fracassada missão Powell partiu daí. Foram quatro guerras desastrosas (1948, 1956, 1967 e 1973) com Israel. Só nos anos 70 os árabes recorreram à diplomacia, e em alguns casos, como os do Egito e Jordânia, à procura de paz e segurança em separado. Mas a sobrevivência de acordos entre países árabes e Israel fica sob ameaça se palestinos e judeus não chegarem a alguma forma de compromisso.

O coração da crise no Oriente Médio são os territórios ocupados. Criou-se consenso sob pressão árabe de que é preciso negociar. É a origem dos acordos de Oslo, que resultaram na Autoridade Palestina (AP) e instalação em Gaza de um governo autônomo, chefiado por Arafat. Mas desde que assumiu o poder em Israel "Sharon se empenha em acabar com Oslo e desmantelar a AP", diz o pacifista judeu Uri Avneri. Não se trata de suprimir a violência palestina. O primeiro-ministro israelense quer destruir a própria noção de entidade palestina e as instituições que possam ampará-la.


Prazos falsos

A pergunta "indiscreta" do rei do Marrocos talvez tenha caído numa história sinistra, a de um jogo de cartas marcadas entre Bush e Sharon num dos momentos mais cruéis da tragédia palestina. Quando Sharon lançou seus tanques e tropas, Bush considerou uma "resposta apropriada" aos suicidas-bombas palestinos. Jogo às claras, até que apareceram no Washington Post informações sobre o prazo que ele teria dado a Sharon para que a ofensiva militar (ou a "limpeza") fosse completada. Confraternização às escondidas, sussurros em telefonemas freqüentes.

Prazo de duas semanas, de início. Completada a primeira semana, jornais de Israel entraram no circuito e falaram de mais sete a dez dias. Perfeito. O fim do prazo coincidiria com a chegada de Powell a Jerusalém. Não há disfarce possível. Bush transou nas sombras com Sharon e é em parte responsável pelos "atos indescritíveis de barbarismo" denunciados pelo Vaticano, enfurecido com o cerco à igreja da Natividade, em Belém, declarada por Sharon zona de guerra. Falta a Bush, dizem analistas, a sofisticação necessária para "conciliar" o apoio a Israel com a montagem de aliança anti-Iraque, projeto prioritário da Casa Branca e do Pentágono. Sem os árabes a aliança fica sem "substância".

As imagens da matança no campo de refugiados da cidade palestina de Jenin surgiram aos poucos, compondo um painel de horrores "além do imaginável", segundo o representante da ONU no Oriente Médio. Primeiro foram incursões rarefeitas de jornalistas, em geral com supervisão de militares israelenses. Mas a força das imagens destruiria, por si só, qualquer tentativa de camuflagem. Além disso, um odor de morte. As denúncias de palestinos, de encobrimento de corpos enterrados às pressas sob escombros, pareciam confirmar-se.

Um jornal inglês, o Independent, publicou o primeiro relato minucioso do massacre, a partir de um mergulho em Jenin de seus enviados. O programa de TV 60 minutos, de grande audiência e com muita influência nos Estados Unidos, sugeriu que o massacre foi ato deliberado e item de uma estratégia. A de tornar impossível a vida dos palestinos nos territórios. Os acadêmicos escandinavos que deram ao ministro do Exterior de Israel o Nobel da Paz, pela sua participação nas negociações de Oslo, lamentam a impossibilidade de anulá-lo formalmente. Há normas impeditivas. Por isso recorrem a manifestações públicas com o objetivo de desqualificar Perez a posteriori. E Perez é do bloco das lideranças israelenses moderadas.



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