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     ARTIGOS

Como música para o mercado


Por Gilson Caroni Filho (*)

Quando o Estado recua quem avança não é a sociedade, mas o mercado. E foi pra ele que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva falou na sua primeira entrevista coletiva, dois anos após ter assumido o governo. Com os habituais recursos metafóricos, o mandatário "que dorme o sono dos justos" reiterou o que já está por demais evidente: o atual bloco de poder não tem qualquer projeto político para um país devastado socialmente.Como já destacou o economista e professor da PUC-SP, Carlos Eduardo Machado, a lógica neoliberal obedece a três determinações: despolitização do debate econômico, tratado como manual técnico universal , abertura de novos espaços para a valorização do capital e responsabilização do indivíduo frente aos seus ditames. E todas estiveram presentes nos argumentos presidenciais.

Nem o mais empedernido epígono de Bernstein não se ruborizaria ao ouvir de Lula que a missão da sociedade civil é reeducar o sistema financeiro para fazê-lo entender que "que nós somos um país capitalista, que precisamos ter dinheiro em circulação, e que o nosso povo precisa - quando precisar - ter direito a um empréstimo a juros condizentes com a sua possibilidade de pagar".O que não foi dito é que os bancos não serão reeducados enquanto o Comitê de Política Monetária (Copom) mantiver a taxa de juros básicos em 19,5% ao ano. A grandeza maior é a meta de inflação estipulada em 5,1% para 2005 pelo Banco Central. Como dissuadir o banqueiro a trocar títulos governamentais pelo crédito à pessoa física ? Isso nem o mais persuasivo traseiro-cidadão consegue com facilidade.Ainda mais quando tem como interlocutor uma estrutura oligopolizada.

Os indicadores brandidos como acertos da política econômica traem um pecado de origem: a base de comparação. O salário-mínimo é um exemplo. Se comparado ao seu poder de compra quando foi instituído em 1940 ou quando atingiu seu maior valor, no governo JK, o trabalhador deveria receber exatos R$1.360. Está certo que esse patamar nunca foi promessa de campanha, mas uma olhadinha nos nossos vizinhos menos dóceis às imposições da banca ( Argentina e Venezuela) seria interessante. Igualmente didática é a comparação dos números brasileiros com o desses dois países. Na Venezuela, por exemplo, temos projeção de crescimento de 10% do PIB com taxas de desemprego e queda de inflação bem superiores às obtidas no Brasil. Claro que são números de outra singularidade econômico-política, mas significativos, dado que a lógica para tais conquistas é totalmente distinta da adotado pelo governo brasileiro

É certo que ninguém espera de Lula nenhuma pirotecnia, mas ao afirmar que ele e o ministro Palocci são "unha e carne" ou que a questão sobre a autonomia do Banco Central não pode ser fruto de debate ideológico da sociedade, o presidente, além de tranqüilizar investidores, subordina a reflexão política à ratio do mundo financeiro.Emblemático, se sabemos que a despolitização da economia é a pedra de toque da hegemonia neoliberal.

Lula admitiu não ter encontrado outro instrumento para combater a inflação além dos juros altos, considerou ineficiente os investimentos conseguidos para recuperação de estradas e foi ambíguo na avaliação do processo que levou Severino Cavalcanti à presidência da Câmara. Sem dúvida, seu governo conseguiu reduzir a vulnerabilidade externa pelo aumento de superávit comercial, pela redução da dívida externa líquida e da parcela dolarizada da dívida interna.O fim do acordo com o FMI não tem o caráter simbólico que o bloco de poder tenta dar a ele. A assimilação do dever de casa é que poupou ao Fundo um soco na mesa.

Infelizmente a entrevista apontou para a continuação de um modus operandi que levará, cedo ou tarde, à fragilidade interna da economia. As altas taxas de juros aliadas às facilidades crescentes para a remessa de capitais não permitem visualizar um horizonte alvissareiro. No plano político, o aliancismo desesperado continuará dando o tom e as autoridades financeiras continuam intocáveis. Esse é o recado do presidente. Não faltarão elogios de articulistas políticos e colunistas econômicos. O transformismo venceu mais uma vez.


(*) Gilson Caroni Filho é professor-titular de sociologia da Facha.


Fonte: La Insignia