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     ARTIGOS

As barbas

Por Chico Villela
La Insignia. Brasil, julho de 2004.

«Toda vez que olho o rio, meu pensamento vai até a praia.»
-Lúcio Petit-
Prólogo

Washington Luiz, deposto por Getúlio, foi o último presidente com barbas. Getúlio não usava barbas, nem o sucessor Dutra, por ser militar, como os ditadores mais recentes, talvez para não se confundirem com perigosos guerrilheiros, perversos militantes terroristas, todos barbudos, como Tiradentes. Juscelino, com sua leveza diamantina, dispensava barbas. Jânio ostentava odiosos bigodinhos, como Sarney, que ocupou o lugar do imberbe Tancredo. Collor, o típico picareta que assalta ciclicamente a cena política de países sujeitos a surtos populistas, não podia permitir-se barbas. Itamar exibia antiquadas costeletas, apesar de menores que as suíças do gângster Menem. FHC cairia do pedestal falso se ousasse barbar-se. Nem usavam barbas, no máximo bigodinhos, os dezenas de ocupantes-de-curto-período do cargo-mór, gerentes-tampão de crises sempre recorrentes. E mais de setenta anos se passariam até que um Presidente-da-República-com-Barbas ocupasse o trono.


Interlúdio I

Era uma vez duas cidades coloniais que tinham, cada uma, um certo ar. Hoje, sociologias armam-se para decifrar esses ares. À época, poucos suspeitavam das suas díspares existências, mesmo porque não podiam libertar-se de suas carcaças comprometidas para divisar o longe. Numa, riquezas, ouro (e, lá, diamantes); numa, degolas (e, lá, pianos noturnos); numa, pedras ensangüentadas com o sangue de heróis arrastados por cavalos (e, lá, jardins e janelas e plácidas varandas); numa, Condes e Viscondes, Derrama, devassas Cortes Imperiais, forcas, esbirros, pirros impotentes contra a solidez do adobe do dia-a-diamante, mas assim mesmo assassinos.

Deste lado, carrasca, teatral e grandiloqüente, barbas cênicas, a rica vila, o amarelo fúlgido do ouro, o sangue, o pranto, o preto. E a outra lá, vidente, colorada como o tijolo do tijuco, futureira, alheia às fraturas em fechadas fronteiras, farta fruta.

Era uma vez duas cidades e seus ares, reveladores como as terras revolvidas por arados que arrancam do interior das trevas o substrato de um povo que se forjou dilacerado entre o horror dos patíbulos e o "sossego de cabanas", entre o transe escravo e a liberdade tardia do Homem.

E era também uma vez um dia uma praça, e nesta praça um público ali postado para assistir à resistência das cordas ao sofrerem um tranco de muitas arrobas a alta velocidade e ver como se mantêm as fibras íntegras e se distende o grosso fio e o ruído das madeiras não consegue ocultar o Oh! opaco e abafado que se permite escapar como penhor de igualdade de todas as gargantas, mas não daquela que a corda oprime como braço forte a ponto de colorir de tinturas rubras escarlates roxas o antes róseo e claro espaço da face do Homem que Sonhava.

E na praça era dia, para que não fosse necessário enforcar o Homem de forma rude à luz Light dos candeeiros. E, para que sempre pairasse dúvida sobre a real autoria da obra, era luminosa a manhã, como as que nunca existiram naquelas ilhas velhas cheias de neblinas e charnecas e povoadas de rainhas e reis e generais e almirantes e lordes assassinos.

E nada mais disse nem diria o Condenado, agora morto, despedaçado e exposto como animal de carne vermelha, salgada a sua terra, amaldiçoados os seus descendentes. E agora estavam enfim livres de perigos todos eles, domjuanescos farsantes, dompedrosos vigaristas de fraque, panglossianas personas, isabelinos defensores-de-si-mesmos, malânicos sucessores, palloccianos palhaços, todos empenhados na coleta dos impostos D'El Rey e no envio do Tesouro do Erário para os novos El-Reys, de nomes dissimulados em símiles sem nome, acobertados nas sombras de Remotos Bancos em Paraísos d'Além-Mar.


O lhano Viajante

"Submetido a uma administração particular, fechado não somente aos estrangeiros, mas ainda aos nacionais, o Distrito dos Diamantes forma como que um estado à parte, no meio do vasto Império do Brasil". Auguste F. C. de Saint-Hilaire foi, dentre todos os estudiosos europeus que por aqui deambularam, o mais "brasileiro" dos cronistas. Estóico, sincero e objetivo, cientista e humanista, nada lhe escapava, nem as espécies vegetais que colhia e catalogava, nem os contextos sociais, políticos e familiares com os quais conviveu durante muitos anos de intermináveis e por vezes sofridas viagens pelos litorais e sertões da Terra Verde. Em Viagem pelo Distrito dos Diamantes e Litoral do Brasil (Paris, 1833; Itatiaia/USP, 1974), seu terceiro relato, derrama-se em elogios ao povo e ao lugarejo do Tijuco, futura Diamantina.

Neste relato, que cobre desde as missões no sul da América até Tocantins e Goiás, o Tijuco ressalta como se situado em outro país. Sobre os caminhos, afirma: "Ainda não tinha visto tão belos em nenhuma parte da província". Mulheres, que nunca apareciam para forasteiros naquelas inóspitas Minas Gerais de então, no Tijuco eram especiais: "[...] durante minha estada no Tijuco, ele [o administrador Da Câmara] não cessou de cercar-me de distinções. A senhora Da Câmara, mulher de modos distintos, fazia as honras da casa. Ela e suas filhas não se escondiam nunca; comiam conosco e, adotando os hábitos europeus, admitiam o convívio dos homens". E também: "[...] os jardins do Tijuco pareceram-me geralmente melhor cuidados que os que havia visto em outros lugares". E ainda: "Por cima da porta das igrejas há uma tribuna onde ficam os músicos quando se celebram missas solenes. Várias igrejas possuem um pequeno órgão, construído na aldeia [...] Os negros da costa da África têm uma igreja; os negros crioulos têm uma outra; e os mulatos por sua vez têm a deles".

A cultura dos tijucanos entusiasmou Saint-Hilaire. "Encontrei nesta localidade mais instrução que em todo o resto do Brasil, mais gosto pela literatura e um desejo mais vivo de se instruir". Pouco antes da sua partida, deu à sra. Da Câmara um caderno de músicas. E teve uma das maiores surpresas da viagem: "Logo após, o Intendente ofereceu-me um concerto em que figuravam lindas variantes sobre uma ária do caderno". Artífices de instrumentos musicais, compositores, calígrafos, afáveis e hospitaleiros, polidos sem afetação, sociáveis e urbanos: este é o painel que transparece nas suas palavras sobre os habitantes das alturas do Tijuco.

Mas a chave da compreensão das diferenças entre o Tijuco e os outros lugares clareia-se melhor neste depoimento final sobre o administrador e a gente: "O sr. Da Câmara [...] tinha vastos conhecimentos e idéias boas sobre política e administração; distinguia-se por uma probidade rara entre os mineiros [...] A justiça era distribuída pelo sr. Da Câmara, de modo paternal; ele não deixava protelar nenhum caso. Tanto quanto lhe era possível procurava abandonar as vãs formalidades, visando conciliar as partes e poupar-lhes gastos. Vivia entre os empregados e habitantes do Tijuco como no meio de seus iguais. A gente do povo amava-o e, bastante afastada dele para poder cobiçar seu lugar, ela era unânime em elogiá-lo".


Interlúdio II

Os ruídos chocos das ferraduras dos cavalos sobre as pedras irregulares das ruas tortas e íngremes daquela rica vila projetavam-se naquele angustioso e opressivo ano 1720 sobre o testemunho rude das montanhas minerais pedrentas e o silêncio do povo que contemplava, muitas décadas antes daquele Homem enforcado e despedaçado na capital do Império, outro Homem enforcado e despedaçado arrastado pelas ruas para tingir com seu sangue de libertador traído as pedras que as botas de Viscondes e esbirros sujavam, e oprimiam como se um povo fossem.

Setenta anos se passariam até que fosse a hora de surgir aquele Homem que Sonhava e que espalhava sua boa nova sem preocupar-se com os inimigos delatores e mostrava a todos suas barbas e sua coragem de libertador de povos e sua audácia de arregimentador de iguais, despertados pelo som da sua voz libertária, e sua inocência em confiar a canalhas e traidores seus mais veementes desejos de justiça e liberdade. Setenta anos se passariam desde que Felipe dos Santos, naquele distante 1720, tentara estancar com armas e apoio de iguais a sangria das riquezas que faltavam aos humildes e eram carreadas para lustrar mais brilho às cortes européias inúteis e assassinas e untuosas em seus bordados e rendas e suas perucas empoadas e seu desprezo pelos povos que as sustentavam e sustentam.


O profético Poeta

Na nota preliminar que abre seu terceiro relato, Saint-Hilaire comenta os lugares por onde mourejou. Após citar os do sul da América e as nascentes do São Francisco e do Tocantins, declara: "[...] e enfim os picos do Ibitipoca, do Papagaio, Aiuruoca etc.". Tivessem suas viagens ocorrido um século depois, Saint-Hilaire poderia ter-se encontrado com José Franklin Massena de Dantas Mota, nascido em 1913 no Sul de Minas, em Aiuruoca, onde se localiza o Pico do Papagaio.

O limbo e o esquecimento que envolvem a telúrica e profética poesia de Dantas Mota são modelares mesmo desta Colônia do Brazil, acostumada a enviar riquezas para seus opressores e a esquecer suas raízes em prol das inutilidades que lhe são impingidas pelos seus reais proprietários estrangeiros. Dantas Mota é autor da mais majestosa e moderna abordagem já dedicada a Tiradentes, dois poemas (chamados epístolas) em que sua estatura de profeta que verbera os poderosos e seus crimes faz paralelo perfeito com suas qualidades literárias.

Na Primeira Epístola de Jm. Jzé da Sva. Xer. - o Tiradentes - aos Ladrões Ricos (in Elegias do País das Gerais, José Olympio/INL, 1988), contraponteia com Saint-Hilaire ao descrever: "(de qualquer maneira, Vila Rica do Albuquerque ou do Pilar, capital do luxo e da bateia, da faísca e da miséria, da intriga e da maledicência, do dízimo e da espórtula, do assassínio e da tocaia, do roubo e da delação, do imposto e da espoliação, dos emolumentos e das custas judiciais, do soldo e da justa sonegação, da promessa e do perdão, do sábio e do forasteiro, da fidelidade e do adultério, da cachaça e da botelha, mas também do estudo e da pesquisa, da tertúlia e da indagação, da poesia e da pobreza, da ciência e da beleza, da arte e da escultura, da música e da pintura, da sátira e da confidência, do assalto e da conjura [...]".

Dantas Mota teria parceiros para suas desabridas manifestações poéticas se tivesse ido ao encontro de Saint-Hilaire um século antes. No Tijuco, poderia ter-se associado ao habilidoso ourives Sampaio Lopes, responsável pela terceira tipografia criada na província das Minas. Fundiu ele próprio os tipos, auxiliado por um jovem, também liberal exaltado, e juntos editaram o Eco do Serro. A mais tranqüila das cidades era das primeiras a fazer ouvir sua voz. Esta voz que Dantas Mota coloca na garganta enforcada de Tiradentes, ao final da Primeira Epístola: "DAÍ/ AS BARBAS AS BARBAS AS BARBAS/ DA CORDA AO PESCOÇO NÃO MAIS PRECISO/ MAS COMO CRESCEU "ASSUSTADORAMENTE"/ O NÚMERO DE LADRÕES E TRAIDORES NESTE PAÍS,/ MULTIPLICADA (a corda),/ EXPEÇO-A A AMARFANHAR, SÁDICA/ OUTROS TANTOS PESCOÇOS MACIOS/ E DELA TÃO NECESSITADOS."

Interlúdio III

Setenta anos esperamos para que o magnífico caráter de Felipe dos Santos encontrasse outra face e outras barbas dignas da sua dimensão libertadora. Outros setenta anos esperamos para que o esforço de Getúlio em conferir uma face à Colônia do Brazil parecesse encontrar outra face e outras barbas dignas do seu projeto de edificar um país que não se envergonhasse do seu presente. E esta nova face do país poderia espelhar-se em duas cidades e seus ares, em suas dimensões de horror ou beleza e de angústia ou felicidade, para escolher-se como a nova face de um país e de seu povo. Há um ar que se respira com prazer por estar repleto de jardins e arfares de desejos irriquietos e de mãos que correm ao piano e de administradores amados por serem justos e bons. E há a pestilência de ares envenenados pelo sangue e pelo ouro que corrompe e trucida. Há as líricas modinhas alegres como peixes vivos e mansas de coração, e há os plangeres trágicos de modinhas que celebram a morte e o fim.

Os libertários, e seus seguidores de todos os tempos, que se entregaram, e entregam, aos braços da morte para dar a todos o direito de viver livres na verdade ansiavam por novos ares, sem derramas nem bacamartes, sem tiranias nem representantes de elites ociosas e assassinas. Queriam que a mefítica Ouro Preto se transformasse na radiosa Diamantina. Ansiavam para que todas as imperfeições presentes e futuras pudessem ser superadas pelos novos personagens atores do país agora livre para traçar seus destinos e deixar de assassinar seus filhos. Sonhavam com um povo amalgamado, sujo e gostoso, temperante e musical, saint-hilario e feliz.

E foram todos, aos poucos, lentamente e calculadamente e meticulosamente e sistematicamente assassinados. E a cada dia novos administradores, discursadores profissionais de vácuos falaciosos, representantes das elites ociosas e assassinas d'Aqui e d'Além-Mar, traíam seu povo e transformavam a Colônia do Brazil em aglomerados de milhares e milhares de Ouro Pretos, com suas forcas e sua fome, seus silêncios e seus cemitérios, suas ruas de pedras ensangüentadas e seus esbirros, suas tergiversações e suas traições descaradas e pusilânimes. Dantas Mota chora, Saint-Hilaire chora.


As Barbas e a Vergonha

Os estudiosos vanguardeiros insistem em reduzir cada vez mais a importância de Tiradentes na Inconfidência Mineira. Cercado de víboras ricas temerosas da Derrama e interessadas em livrar-se do Quinto entregue à Europa parasita, foi com certeza o mais desprovido de sofisticação intelectual entre todos os participantes da conjuração. Humilde, de poucas luzes mas imensa capacidade de imaginar e criar, sempre às voltas com pouco dinheiro, foi o escolhido pelos Poderes para pagar pelos ilustres. Mas tudo isso esmaece perante a grandeza humana do Mártir; do seu projeto de país, pois era Ele quem o cultivava e aos ventos disseminava suas idéias; da sua incansável pregação pela liberdade; do seu gesto de coragem e magnanimidade.

A Colônia do Brazil há séculos assiste à surgência de personagens que se propõem a ser Tiradentes e terminam por transformar-se em Silvérios dos Reis, traidores dos seus pares e iguais e do seu país. Setenta anos após Felipe dos Santos esperamos pelo Mártir, setenta anos esperamos pelas Barbas que hoje ocupam o trono. Das Barbas, ensina Dantas Mota, e assim se encerra a Primeira Epístola:

"QUANTO ÀS BARBAS, NÃO.
EXPOSTAS NESTA PRAÇA,
AO SOL, À CHUVA E À NEVE DO ITACOLOMI
AQUI PERMANECERÃO,
FINCADAS NESTE POSTE E NESTA PRAÇA,
À ESPERA DOUTRA CARA
E DOUTRA VERGONHA".

As Barbas, a Outra Cara, estas já se fizeram presentes. Mas ainda falta a Vergonha.


Fonte: La Insignia