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     ARTIGOS

A agonia de um líder enclausurado

Em prisão domiciliar e alvo declarado do exército israelense, o presidente da autoridade palestina, Yasser Arafat, garante que mantém esperanças de alcançar a paz na região

Por Anselmo Massad
Enviado especial à Ramallah

Desde 26 de novembro de 2001, um chefe de Estado permanece confinado em seu quartel-general e não sai para nada. Não é figura de linguagem. O exército israelense cercou o local onde o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Yasser Arafat, eleito em janeiro de 1996, estava e de onde não saiu mais. Hoje, mesmo sem o cerco, ele permanece preso, apontado abertamente como alvo prioritário dos assassinatos seletivos por autoridades israelenses, incluindo o primeiro ministro Ariel Sharon. Israel não negocia com ele.

No Mapa do Caminho, último acordo firmado nas negociações de paz na região, Israel pediu a criação do cargo de primeiro ministro para o parlamento palestino e fritou Mahoud Abbas (Abu Mazzen) ao romper o cessar fogo de dois meses e meio, em agosto de 2003. A Muqata, quartel de Arafat, era um complexo grande, mas agora só restam dois prédios. O espaço para o ganhador do prêmio Nobel da Paz ao lado de Yitzhak Rabin, pelo processo de negociação iniciado em 1994, mesmo ano em que voltou do exílio após 27 anos, é pequeno. Em duas das salas ao lado, duas camas se apertam por quarto para acomodar, durante a noite, assessores e seguranças do presidente. As janelas da construção tiveram dois destinos: serem substituídas por peças de metal fixas ou todas preenchidas por sacos de areia, para servir de barricada em um cerco. Do lado fora, escombros e restos de construção formam um cenário de pós-bombardeio. Ferragens contorcidas, pilhas de detritos, rombos em paredes, carros destruídos amontoados. Tudo é mantido também para dificultar o acesso.

A segurança é feita por dezenas de soldados de uma força de segurança especial do presidente. A Palestina não pode ter exército e nem a polícia pode andar armada. Mas os seguranças de Arafat carregam fuzis automáticos, comprados clandestinamente. Vestem-se de verde e precariamente cuidam da proteção do líder. Nada que impeça helicópteros Apache ou caças F-16 de promoverem os assassinatos seletivos. Arafat é reconhecido e admirado por todo o povo palestino, até por militantes e seguidores de movimentos extremistas, apesar das divergências. Matá-lo seria perder o único interlocutor possível.

Para entrar no QG, só quem é de confiança. Não há detectores de metal ou revista apurada - práticas básicas em qualquer aeroporto ou barreira de controle do exército israelense na entrada das cidades palestinas em território ocupado. A confusão reina e a tensão é permanente, o que provoca pequenas e freqüentes discussões entre guardas.

Mesmo preso, não há soldados israelenses guardando as redondezas. O fato, porém é que ele não pode sair. Por isso, sua pele está mais clara do que nunca. Sua saúde, abalada, mas reagindo bem ao período de reclusão em espaço inadequado.

Era em torno das 21h45 de quarta-feira, dia 21 de abril, quando os repórteres da Fórum, Folha de São Paulo e Correio Braziliense, convidados pela embaixada da Palestina no Brasil, que acompanhavam uma delegação de deputados brasileiros (formada por Jamil Murad - PcdoB-SP - Vanessa Grazziotin - PCdoB-AM - Nilson Mourão - PT-AC - e Leonardo Matos - PPS-MG) chegaram à Muqata. Era o terceiro encontro com o líder. O primeiro encontro havia ocorrido no domingo - na cerimônia em que Arafat, ao lado de 20 membros do parlamento da Autoridade Nacional Palestina recebiam as condolências pela morte de Abdul Aziz Rantissi, líder do Hamas morto na cidade Gaza dois dias antes por um míssil disparado de um helicóptero Apache israelense. O segundo foi dois dias depois, numa reunião formal com a delegação.

A entrevista é dada no mesmo local onde Arafat recebe todas as autoridades e grupos de solidariedade internacional. É uma sala de quatro por 10 ou 12 metros e uma ampla mesa de madeira de 20 lugares. Uma campainha anuncia cada pessoa que entra na sala. No dia da entrevista, duas dezenas de broches presos no uniforme celebram as embaixadas palestinas na Grécia, EUA e Israel. Homenageia a União Européia e outros parceiros. Ele fica na cabeceira da mesa, a poucos centímetros da parede. À sua esquerda, parcialmente embrulhada por panos, uma submetralhadora descansa, ao alcance da mão do presidente. Assessores e seguranças não se afastam mais do que três metros dele.

Arafat convida os repórteres e amigos para jantar. A entrevista só começa depois da comida. A toalha não é comprida o suficiente para cobrir toda a mesa, permitindo que parte da pilha de documentos e relatórios a que se dedica o líder palestino permaneça ao seu lado.

No cardápio, pão árabe e pratos de louça branca com coalhada, grão-de-bico refogado, queijos, doce de gergelim, verduras e legumes. Não há talheres nem pratos individuais, exceto para Arafat. Bem-humorado, o presidente manda "presentes" a cada jornalista: pedaços de legumes e pão com uma pasta específica. É uma receita especial feita para ele: sementes moídas com mel, seu prato preferido.

Arafat sorri muito, elogia o Brasil, cita as pirâmides construídas por índios. E não importa em que países estão localizadas, porque ele garante desprezar as fronteiras atuais - estava tratando do povo histórico que vivia ali. Estabelece relações entre o Norte da África e as Américas, sustenta que os africanos integravam as tripulações das grandes navegações européias e podem ter ajudado na "segunda descoberta", do novo mundo.

Os pratos e a toalha são retirados e a entrevista começa. Arafat, três repórteres, o embaixador da Palestina no Brasil e um assessor são os únicos na sala, além de um fotógrafo oficial. Os óculos só são tirados quando as máquinas fotográficas aparecem; na seqüência, ele ajeita o inseparável Kaffiyeh (turbante branco com listras pretas). Toda a conversa é em inglês - ainda que ele tenha que recorrer aos assessores para entender bem as perguntas e encontrar termos específicos. Cheio de perguntas retóricas, Arafat cita vários exemplos em que palestinos cristãos é que sofrem com a violência de Israel. Mas não deixa de se referir aos muçulmanos como "nosso povo".

Após menos de 30 dos 50 minutos de entrevista, um dos assessores, em árabe, aconselhava o presidente a dispensar os jornalistas, por fazerem perguntas muito duras, como se fossem israelenses. Arafat manteve-se tranqüilo, ora sorrindo ora irritado. Na entrevista que segue, Arafat fala da situação imposta aos palestinos, as conquistas e descumprimentos de Israel, as perspectivas e esperanças do líder. Mesmo preso por quase três dos dez anos depois do retorno à Palestina, ele mantém-se confiante de que a paz vem, porque é uma causa de todo o mundo. Que Alá, Deus, Jeová, Sharon e Hamas concordem.


Pior do que o Apartheid

É suficiente se lembrar que a ministra das relações exteriores da África do Sul visitou a região e disse que o que viu aqui nunca ocorreu lá ou em nenhum país da África. E um famoso cientista israelense (Mordechai Vanunu) trabalhando na bomba atômica foi libertado hoje (dia 21 de abril). Na prisão, ele se converteu ao cristianismo. Ele disse: "o que estamos fazendo aos palestinos, nunca aconteceu em nenhum lugar do mundo". E não apenas isso. Os EUA atacaram Bagdá por causa do urânio. Há relatórios de grupos americanos (do International Action center - IAC) e holandeses (Laka Foundation) que denunciam o uso de urânio enriquecido por Israel.


Muro da vergonha

É preciso construir pontes, não muros de separação. O muro confiscou 58% da nossa terra destruindo nossas melhores áreas para agricultura. 64% das nossas oliveiras foram cortadas. Não apenas isso. Esse muro perverso em torno de Jerusalém cortou a sagrada e histórica relação entre a Igreja da Natividade, em Belém, e a do Santo Sepulcro, em Jerusalém. Todos os nossos patriarcas fizeram uma manifestação implorando: "Tudo bem, façam o muro, mas na entrada de Belém, façam uma porta". Eles recusaram e agora você pode perguntar como é que na Sexta-feira Santa eles impediram que todos os nossos cristão fossem rezar no Santo Sepulcro em Jerusalém. O que isso significa? Quem pode aceitar isso? E impediram que nosso povo fosse rezar na mesquita de Al-Aqsa. Impediram nosso povo de rezar na mesquita de Abraão, em Hebron. De todas as igrejas do mundo, há um vilarejo próximo chamado Aboud onde foi construída a primeira igreja do mundo por Santa Bárbara - depois do Santo Sepulcro - em uma caverna. Ela foi destruída para construir o muro. Por que destruir a igreja mais antiga do mundo? E o sítio de Nablus destruído. Eles não respeitam nem sua história. São José, seu pai e seus irmãos viviam lá antes de fugir para o Egito. Destruíram os campos de refugiados em Jenin - que eu chamo agora de Jeningrado - e em Rafah - que chamo de Rafahgrado e em toda parte. E não apenas isso. Toda a nossa infra-estrutura foi destruída. Em todo lugar.


Planos não cumpridos

É preciso considerar que até o acordo que firmei com (Ariel) Sharon e (Benjamim) Netanyahu, em White River não foi implementado. Assinado com eles que agora estão no poder. Nos entedimentos de George Tennet, (George W.) Bush e (Colin) Powell trouxeram a mim e a Sharon. Nós aceitamos os entendimentos mas eles não aceitaram. Ou aceitaram teoricamente, sem implementar. Não apenas isso, o acordo de Charm el-Cheikh na presença do presidente Clinton, presidente (Hosny) Mubarak (do Egito), rei Hussein (da Jordânia), e Koffi Annan, e (Javier) Solana da União Européia, no escritório do presidente (Jacques) Chirac. (Ehud) Barak e eu estávamos de acordo para ir na manhã seguinte a Charm el-Cheikh assinar na presença do presidente Mubarak. Todas as delegações foram juntas exceto a de Israel. Depois de três horas e meia, Mubarak recebeu uma nota dizendo que Barak não iria assinar. Havíamos chegado a um acordo. Tivemos os entendimentos de George Tennet, acordo de White River, de Oslo, de Paris. E o último, o Mapa do Caminho (Road Map), oferecido pelo Quartet Committee (formado pelos ministros das relações exteriores de Líbano, Arábia Saudita, Egito e Jordânia) e aceito no Conselho de Segurança da ONU, resolução de número 1515 (de 2003). Agora, como se vê, depois de retornar da América, há uma escalada de seus crimes militares em toda parte em nossa terra. Hoje em uma área no norte de Gaza, 14 foram mortos, 57 feridos e todas as terras de agricultura, as melhores flores - que enviávamos através dos israelenses para a Holanda - foram apropriadas pelo exército israelense em menos de 24 horas. Tínhamos um acordo feito por Maratinos, com Lester Crook, chefe dos observadores europeus com aprovação dos americanos. Outros países também participaram com os russos também. Retiramos palestinos de algumas regiões. Ao mesmo tempo, a contrapartida seria a retirada de Israel de Bayt Lahia (ao norte da cidade de Gaza). Há dez dias, eles voltaram para reocupar a cidade. Todos os dias ocorrem tragédias em Bayt Lahia. Durante mais de um ano, a situação - e você pode perguntar aos europeus e observadores que estavam lá continuamente - foi muito calmo e tudo corria conforme o acordo, pacificamente. E ocuparam de novo.


Terrorismo

(eleva o tom da voz que falha como quem tem um nó da garganta) Você está esquecendo a ocupação. Os palestinos são o único povo do mundo que vive sob ocupação. Você se esquece disso? O que fez George Washington na ocupação britânica, lutaram contra eles, resistiram. Os americanos têm de se lembrar. Não estou falando de outros, mas de George Washington. Oferecemos desde o início um Estado único e democrático, antes de Oslo. Eles não quiseram. Aceitamos dois países, apenas 22% da Palestina histórica para ser nossa área. E agora estão destruindo. Você acha que isso pode promover a paz na área? Definitivamente não. Não é só para os palestinos, é a Terra Santa para o mundo todo.


Grupos extremistas

Quem estabeleceu Hamas? Foi Israel para competir com a OLP ou não? Está claro, foi declarado e mencionado por Rabin e pelo partido trabalhista. Apesar disso, não rompemos nossas relações com grupos de paz de Israel. Um importante encontro ocorreu em Alexandria, continuou em Jerusalém e agora em Marrocos, estabelecendo interfaces entre religiões, muçulmanos, judeus e cristãos. O que isso significa? Que estamos tentando, mas não sozinhos, com grupos de paz de Israel, os altos líderes religiosos e ajuda de todo mundo, mesmo partes dos EUA. Peça-lhes que mostrem um item em que eu estava com terroristas. Eles estão seguindo isso, porque informei abertamente ao Quartet Committee e aos árabes o que fiz muitas vezes para parar os grupos fanáticos. Ontem, conseguimos evitar dois atentados e hoje mais outro. Nós estamos pondo nossas mãos para segurar as explosões. Por isso, ainda insistimos, se não forem forças, que venham aqui pelo menos observadores internacionais.



Fonte: Revista Fórum