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     ARTES VISUAIS

51ª Bienal de Veneza
Pavilhão do Brasil


Comissário: Manoel Francisco Pires da Costa, Presidente da Fundação Bienal de São Paulo Curador : Alfons Hug
Produção executiva: Jacopo Crivelli Visconti


O grupo Chelpa Ferro e o artista Caio Reisewitz representarão o Brasil em seu pavilhão nacional da Bienal de Veneza, que acontecerá no período de 12 de junho a 6 de novembro de 2005.

Chelpa Ferro (Rio de Janeiro), instalação
artistas: Barrão (1959), Sérgio Mekler (1963), Luiz Zerbini (1959)


O grupo Chelpa Ferro tem se destacado nos últimos anos por instalações sonoras extraordinárias, nas quais, a par de instrumentos musicais convencionais, são empregados materiais os mais originais: cinzeiros cantantes, máquinas de amolar facas, máquinas de costuras, aparelhos domésticos de todo tipo, até mesmo alto-falantes dentro de um aquário.

Chelpa Ferro, que significa “dinheiro” na antiga linguagem coloquial portuguesa, ama a aura de objetos achados comuns, especialmente quando sons podem ser arrancados deles. Uma broca enferrujada da clínica de um dentista soa como uma amostra de techno eletrônico; de galhos que são sacudidos por motores em miniatura sai o sussurro misterioso da floresta. Ou é talvez um concerto de música experimental? Um grande arco metafórico se retesa, indo de um simples pedaço de lata ou madeira até a obra de arte, poeticamente carregada. Ninguém, exceto Chelpa Ferro, sabe como soou a flauta de osso de cisne, que foi descoberta há pouco tempo por arqueólogos no sul da Alemanha e é, com seus 35.000 anos, o instrumento musical mais antigo do mundo.

Como curadores de um museu organográfico, que não por acaso está situado nos trópicos, Chelpa Ferro revolve nas minas da história e da atualidade da arte e da música. Ora o grupo leva a público um gramofone ou uma flauta de argila, com que os índios do Amazonas imitam o canto de um pássaro durante a caça, ora produz ruídos de uma turbina de avião, de uma sirene de alarme ou o som de uma rave techno. Cores sonoras escuras e campestres, e os barulhos frenéticos da grande cidade se revezam abruptamente. Entende-se por si mesmo que ritmos de percussão, derivados da música popular brasileira, surjam repetidas vezes.A imoderação da natureza tropical e a força de imaginação da arte estão unidas de modo feliz em Chelpa Ferro. Amiúde trata-se de situações soando absurdas, que começam deixando perplexo o visitante para depois, dada sua fina ironia, devolvê-lo ao dia-a-dia com um leve sorriso nos lábios.

Além disso, os sons estão em um diálogo constante com o emaranhado de cabos elétricos, que acrescenta às instalações sonoras de Chelpa Ferro a dimensão de um desenho complexo. São laços negros e suaves que se refestelam lascivos pelo chão ou novelos confusos e grosseiros, tão pouco desenredáveis como as disposições sonoras. Desenho e composição são igualmente fragmentários e nervosos. O que de início parece provisório e frágil possui uma força e uma robustez intrínseca. Aos acessos de fúria se seguem momentos de alegre elegância. Ora o elemento de desenho e escultura tem supremacia ora o elemento sonoro. E, eventualmente, os arranjos levam àquele ponto misterioso em que os sons se extinguem, transitando imperceptivelmente para o campo das imagens.


Caio Reisewitz (São Paulo, 1967), fotografia

Caio Reisewitz é um dos mais promissores artistas jovens do Brasil no campo da fotografia. Nos últimos anos ele se tornou conhecido por seus pregnantes estudos sobre a arquitetura de São Paulo, assim como pelas paisagens sedutoras, como Paúba (2003), que pôde ser vista na 26a Bienal de São Paulo e lembra uma pintura, na qual o azul da água se funde com o branco do céu e da neblina. Caio cria, como que por magia, uma tal intensidade de luz que cremos estar lidando com uma técnica backlight. A poesia da paisagem intocada e seu caráter quimérico contrastam em seus trabalhos com a frieza da metrópole moderna.

Para Veneza, Reisewitz produzirá uma nova série de paisagens em grande formato, bem como fotos de interior da Câmara Municipal de São Paulo, do prédio da Bienal e, sobretudo, do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, certamente a mais bela biblioteca dos trópicos.

As fotografias do Real Gabinete realizadas por Caio Reisewitz são como que um comentário visual do conto “A Biblioteca de Babel”, de Jorge Luiz Borges, aquela imensa galeria hexagonal que não tem fim. “Cada parede possui cinco estantes; cada estante comporta trinta e dois livros do mesmo tamanho; cada livro consiste em quatrocentas e dez páginas; cada página, em quarenta linhas; cada linha, em oitenta letras de cor preta”(Borges). Nessa biblioteca, não há dois livros idênticos.

As imagens de Reisewitz criam, como toda boa obra de arte, um espaço que se estende em paralelo com o mundo real. Quem se demora por um tempo suficiente nele poderá renunciar às excursões pela assim chamada vida real. No Real Gabinete do Rio podem-se citar diversos títulos; trata-se de um espaço finito. Na biblioteca reinventada de Caio Reisewitz, não queremos chamar nenhum livro pelo nome, pois, mais do que o tema dos livros, interessa-nos a forma da biblioteca e sua aura. Na arte, os livros cessam de ser prosa do mundo.

Mas nesta exposição não se trata apenas da dicotomia entre a biblioteca real e imaginária, entre discurso e estética. As imagens de Reisewitz dão ensejo também a refletir sobre a relação entre o texto literário e a imagem. Ambos cativam por sua densidade e sua riqueza de metáforas. Porém, se a atmosfera da biblioteca de Borges, grave e sombria, pesa sobre nós, as fotografias de Reisewitz possuem uma força de sedução que reside na composição das imagens e no jogo sutil de cores. Seus espaços exalam o hálito sereno da poesia, são pontos de repouso na cacofonia do mundo.

Alfons Hug


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